Posts com Tag ‘Tommy Lee Jones’

dividadehonraThe Homesman (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Novamente presente em Cannes, as lembranças da estreia na direção de Tommy Lee Jones são animadoras, novamente com um faroeste. Mas, se seu filme anterior era duro, seco e próspero, neste novo trabalho prevalece o tradicionalismo (com pitadsa leves de humor carrancudo), além de um espaço para o próprio ator-diretor brilhar.

Três mulheres “enlouqueceram” num pequeno vilarejo em Nebraska, algo em torno de 1850. Alguém precisa cruzar o deserto para levá-las para tratamento. A única que encara a missão é uma solteirona durona (Hilary Swank), que recruta um “vagabundo” (Tommy Lee Jones) para ajudá-la. Por mais que haja outros nomes de destaque, o filme não consegue desenvolver outros personagens que não a dupla central. Focado principalmente nas discussões entre dois turrões, enquanto a fotografia de Rodrigo Pietro tenta dar dimensões da aridez do local. O road movie é demais focado nessa relação “conturbada”, Lee Jones presta a retomada da narrativa tracional de faroestes, com doses de dramas e justiças, bem longe da sensibilidade inesperada que Três Enterros apresentara.

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.

lincolnLincoln (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O problema do filme é Steven Spielberg. Há Spielberg demais no filme, e isso inflama tanto o roteiro, a trilha sonora, a distancia narrativa entre dois nucleos (Casa Branca pacata, Congresso inflamado), que essa busca pelo filme “sério” cria um frankenstein da história americana.

Primeiramente, o filme é sobre a 13ª Emenda, não sobre Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis). Ele é o protagonista por colocar seu prestigio, e força política, na aprovação dessa emenda, que resultava na abolição dos escravos (na verdade ia além disso). O intuito era colocar fim na Guerra Civil que assolava o país. Não há participação dos negros nesse processo (da forma como está no filme). Há um congressista (Tommy Lee Jones) que insiste nessa emenda há décadas, e Spielberg consegue estragar tudo quando entra na casa dele. Fora isso, todo o poder do governo em negociar com congressistas para obter sua aprovação.

É um filme sobre os mecanismos políticos da época, permeado com a figura de Lincoln entre suas relações familiares, e sua pausa para narrar “causos”, a quem quer que fosse. Se a dose dramática está distante do roteiro, Spielberg abusa de John Williams preenchendo qualquer espaço que encontre – chega a causar náuseas. Dessa forma temos um Lincoln apresentando à maneira de Spielberg, um momento crucial da história mundial transformado em filme de tribunal, e dezenas de cenas cansativas e nada inspiradas que alongam, desnecessariamente, toda essa ode aos meandros políticos do século XIX.

Hope Springs (2012 – EUA)

Não se espera nada diferente de um casal com 31 anos de casamento (infelizmente), aquela vida rotineira, ligada no piloto-automático. As aventuras e emoções ficaram de lado, é como Meryl Streep diz em uma de suas falas: “voce espera ter os filhos, espera que eles cresçam, espera que eles saiam de casa, e depois não tem mais futuro?”.  Partindo dessa insatisfação ela bate o pé, o marido conservador (Tommy Lee Jones, escolheram colocá-lo como contador, não podia ser mais conservador) se vê obrigado a aceitar, contrariado.

Com o casamento nesta lástima partem para uma terapia de casais (Steve Carrell é o especialista, em papel sério). Não imagine seus avós ou pais numa situação dessas, não te fará bem. Mas, tratando com distanciamento, e com o tom de humor sem exageros empregado pelo diretor David Frankel, temos um divertido e interessante estudo da vida sexual na terceira idade.

Sim, estamos falando de fantasias, de desejo, de reviver o casamento, não só na cama, mas partido dela para que o resto possa fluir fora dos padrões pré-estabelecidos. E verbalizar isso, com um estranho, passar pelo processo de dividir a intimidade, dói tanto no público quanto naqueles dois sexagenários de vidas comuns, frustrados, e encolhidos pelo perigoso silêncio que um casamento pode causar.

Não é um estudo dramático e nem uma comédia rasgada, esse tom divertido-romântico faz bem aos personagens que podem dividir o peso de discussões delicadas com um humor repetitivo e rabugento que permite melhor fluidez da trama.

The Client (1994 – EUA)  estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Quando eu ainda era criança, os livros de John Grisham eram uma febre, suas histórias de casos policias ou julgamentos faziam enorme sucesso. Sob a direção de Joel Schumacher, este é apenas um dos inúmeros casos de seus best-sellers adaptados ao cinema. Pena que Schumacher sempre foi um diretor optando pelas escolhas óbvias, de filmes normalmente irregulares, e de roteiros caprichados que dificilmente resultam em bons filmes. O cliente não foge à regra.

A trama traz a história de um garoto (revelando Brad Renfro), carregando um grande segredo, e um enorme medo de revelá-lo à polícia, sob risco de sua família sofer retaliação. As expectativas naufragaram exatamente pelo roteiro fantasioso, que transforma o garoto de onze anos num super-homem, capaz de fugir da cadeia, mentir ao FBI, à sua mãe e para a advogada. Além, é claro, de fugir de perigosos bandidos.

De resto, apenas artimanhas de embolar o meio-campo com sequencias de suspense e fugas, além de muito jogo envolvendo advogados e promotores. Foi o filme que colocou Renfro como astro-mirim, e permitiu a Susan Sarandon e Tommy Lee Jones interpretações elogiadas. Porém, é um filme que promete bem mais do que consegue entregar, alcançando voos maiores apenas na sequencia da morte do advogado.

 

cowboysdoespacoSpace Cowboys (2000 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Clint Eastwood dando seus pitacos na corrida espacial. Tudo começa em tom de comédia, de maneira descontraída, com a necessidade da NASA em contar com astronautas da década de sessenta. O início é excelente, mostrando o princípio dos estudos espaciais americanos, e da equipe Daedalus, a fotografia com tons azulados oferece um contraste interessante. Quarenta anos depois, a NASA precisa resgatar um satélite de comunicação russo que irá se chocar com a Terra, ou consertá-lo no espaço. O projeto é muito antigo, e os engenheiros de hoje não conseguem entender o sistema. O diretor da NASA, Bob Gerson (James Cromwell), é obrigado a procurar seu antigo desafeto, Frank Corvin (Clint Eastwood), que foi quem projetou o satélite (que teria sido roubado pela KGB).

Resumindo, o satélite não pode ser resgatado, e Corvin só aceita ajudar, se ele mesmo for ao espaço consertá-lo, juntamente com sua antiga equipe Daedalus, de astronautas sexagenários. A chantagem é aceita desde que todos passem nos testes físicos. Empecilhos inesperados e o clima de única chance de salvar o mundo, Clint se envereda pelo nacionalismo exacerbado, a arrogância do cinema americano de teimar em sempre ser a solução da humanidade. Há ainda o romance descabido, e aquele humor prazeroso ganha o amargo dos últimos 30 minutos dos veteranos heroicos protagonizando um western espacial. Ficando apenas as boas lembranças de Donald Sutherland roubando a cena.