Posts com Tag ‘Toni Servillo’

agrandebelezaLa Grande Bellezza (2013 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Na visão de Paolo Sorrentino, a cidade de Roma é um daqueles ecossistemas incompreensíveis, recheado das mais possíveis diversidades e bizarrices. Uma cidade de aristocracia falida e cafonice na moda, há décadas. É por esse habitat que sobrevive, à la bon-vivant, o escritor e jornalista Jep Gambardella (Toni Servillo). Entre festas da alta sociedade e uma lucidez ácida, Sorrentino faz de seu protagonista o provocador necessário para que ele próprio mostre como ama e odeia a cidade.

Com clara inspiração em Fellini, é daqueles filmes que o todo resulta meio deformado, enquanto alguns momentos isolados quase chegam ao brilhantismo (vide a cena em que Jep destrói a mulher que o adora provocar). Jep vive dessa sociedade decadente, como uma esponja se aproveita da futilidade, e alimenta sua zona de conforto de uma vida de excentricidades. Roma é o palco para essa pluralidade, o ferrugem que corrói cada esquina de um lugar que já viveu sua era de ouro, mas ainda sobrevive, aos trancos e barrancos, como toda a Itália.

Bella Addormentata (2012 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Marco Bellocchio resgata a polêmica da eutanásia que mobilizou a Itália com o caso da mulher que viveu 17 anos, em estado vegetativo, e o pai solicitou ao governo a autorização para eutanásia. Ele foge do que se poderia esperar de uma biografia/cronologia do caso. Traçando um perfil das pessoas envolvidas em casos semelhantes, mantendo a eutanasia como assunfo enfoque, em cada um dos núcleos, porém dando vida a cada um dos personagens/familiares dos que vivem sob aparelhos.

Com isso surgem romances, crises pai-filha, uma mãe que abdica de sua carreira para estar próxima da filha. Enquanto isso o país católico ferver, os políticos discutem o caso, manifestações nas ruas, uma confusão à italiana.

Fugir do óbvio é interessante, Bellocchio segue por esse caminho, por mais que a irregularidade de núcleos e personagens não permita um desenvolvimento mais interessante à trama. O painel de personagens não se transforma num retrato delicado, nem em sufocante, nem mesmo a questão política, Bellocchio mantém a panela tampada, um filme abafado.

ildivoIl Divo (2008 – ITA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Há biografias, histórias, ou situações marcantes que não podem passar despercebidas. E este era um daqueles filmes considerados “necessários”. Mais cedo ou mais tarde, alguém teria que contar a trajetória de Giulio Andreotti, personagem cuja carreira política, entre a relação com Aldo Moro, e os sete mandatos como primeiro-ministro, ocuparam mais de quarenta anos ativamente na vida pública da Itália.

A construção de personagem orquestrada por Toni Servillo é qualquer coisa de excepcional, fora-de-série. Andreotti sempre mostrou-se um sujeito singular, uma figura estranhíssima cujos trejeitos físicos destacam-se largamente. De estilo antagonicamente pacato e implacável, sua forma de fazer política (acordos, negociatas, “amizades”) o mantinham blindado de tantos escândalos de corrupção (olhando a política brasileira percebe-se que ele fez escola), envolvimento com a máfia e assim por diante.

Por outro lado, manter-se no poder tanto tempo e não sofrer acusações parece impraticável, não é? Pena que Paolo Sorrentino só se interesse pelos anos 90, pelo período de decadência de Il Divo, e numa chuva de fatos, nomes e escândalos (tão distantes de nossa realidade). O público seja afogado por esse mundaréu de informações pautadas num estilo classudo e aristocrático de cinema, disfarçado por algum maneirismo tecnológico. Trata-se de um filme burocrático, rebuscado de moderninho. Um filme que se atem a narrar fatos mantendo-se distante de uma dramaturgia. Um filme poderoso, de conteúdo histórico inegável. E nessa enxurrada de escândalos e fatos pequenos detalhes interessantes sobressaim-se, como a excelente seqüência da votação indireta para escolha do presidente, a briga entre os membros do congresso é algo espetacularmente italiano.