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Nos últimos dias estava quebrando a cabeça, vasculhando nos filmes que entraram no circuito comercial, aqueles dez que seriam os meus preferidos do ano – doença de cinéfilo. E, simplesmente, não consigo fechar uma lista com dez merecedores-de-um-top-10. Talvez 5 ou 6, vá lá, mas o restante são apenas bons filmes, em que há outros 4 ou 5 que estão ali, no mesmo nível. Desse critério tão subjetivo (e maluco) que é classificar filmes. Conversando com meu amigo Superoito, realmente não parece haver sentido nessa lista, afinal, o circuito brasileiro vive atrasado. Se a oferta em quantidade tem crescido, ainda assim a quantidade de salas “alternativas” são tão restritas, que os filme permanecem nas prateleiras das distribuições, esperando melhor momento de estrear, muitas vezes perdendo seu “momento”.

Os cinéfilos que realmente acompanham a cena internacional de cinema, o que está sendo filmado, as novas tendências, novos limites que os cineastas quebram. Estes cinéfilos buscam os filmes por outras plataformas, de outras maneiras que não exclusivamente o circuito. Nesse ponto, os festivais tem ajudado muito, não só o Indie, Festival do Rio, e Mostra SP, como outros festivais menores, tem trazido grande parte da produção atualizada, cobrindo parte expressiva dessa produção. O resto chega através de outros formatos, viagens, Netflix, internet e etc. Estamos quase em 2015, hora de mudança.

Portanto, trabalhar numa lista de melhores, tendo o circuito comercial como critério, me parece abster-se do cinema que o próprio cinéfilo acompanha, discute, vive. Não, não vou esconder meus 10 preferidos, vou apenas deixá-los no final, apenas como referência, afinal eles serão meus votos para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos.

A lista mais importante é a que vem logo a seguir (comentada), são filmes que foram vistos em 2014, com produção de até 2 anos (que finalmente foram vistos, ou ficaram acessíveis). Eles formatam melhor o panorama do ano do cinema, os principais festivais, o que a imprensa especializada ou os grupos de cinéfilos discutiram, veneraram, xingaram, amaram. Há ausências, como toda lista, afinal, ela é subjetiva. Alguns filmes não foram vistos (a Godard a mais sentida, mais a versão em 3D precisa ser vista em tela grande), outros não agradaram tanto, mas ela indica caminhos, preferências, e, acima de tudo, é coerente com esse cinema atual.

O Top 10

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  1. Do que Vem Antes, de Lav Diaz
  2. A Imagem que Falta, de Rithy Panh
  3. A Princesa da França, de Matias Piñeiro
  4. Redemption, de Miguel Gomes
  5. Era Uma Vez em Nova York, de James Gray
  6. E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto
  7. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan / Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Olhando para essa pequena amostragem percebo que é uma lista heterogênea, grande parte dela da seleção dos dois últimos festivais de Cannes. Quase todos diretores consagrados, que apontam para dois caminhos: filmes grandiosos em temas e pretensões; ou pequeninos na pretensão, porém grandes na arte de filmar. São dois lados de uma mesma moeda, cineastas que enxergam suas próprias carreiras e tentam escapar dos caminhos fáceis do piloto automático.

Alguns destes filmes tem o aspecto moral como excelência, o perturbado conto de Ceylan ganhou a Palma de Ouro. O dos Irmãos Dardenne traz um melodrama nunca antes visto na carreira dos belgas. São filmes antagônicos na forma, ligados por essa questão da vida em sociedade, dos princípios. James Gray continua com poucos e fiéis fãs. Ele até flerta com o melodrama, mas seu estilo sofisticado deixa tudo tão chamuscado e charmoso que esse melodrama fica chique entre tão belos planos.

Há o lado teatral forte, é o segundo trabalho seguido de Polanski que remete ao teatro filmado, dois de seus melhores filmes em anos. O argentino Matias Piñeiro surge como uma descoberta, tardia deste blog, com uma construção irrepreensível, uma espécie de poesia teatral filmada. Assayas mergulha em seus filmes anteriores, e em Bergman, trilha novo caminho via metalinguagem.

De Portugal duas pérolas, o documentário autobiográfico de Joaquim Pinto e as biografias escondidas por Miguel Gomes num curta sobre doces fluxos de memórias. O cinema português segue produzindo pouco, mas muito bem. O japonês Isao Takahata promete ter entregue seu último trabalho, e o resultado é um primor ao refletir as tradições culturais orientais com leveza e sofisticação.

No topo da lista Pahn e Diaz, os dois revivendo cicatrizes dolorosas de seus países. Seja pelos bonecos do Cambodja, ou pelas florestas filipinas, os horrores das ditaduras sem que a violência precise ser exposta. Seus filmes são registros hipnóticos de um cinema rigoroso, que usa da simplicidade para aproximar-se de seus próprios personagens, e do virtuosismo de seus diretores para cativar os que enxergam novos rumos para o cinema. A conjunção exata entre fazer arte e contar histórias.

No Letterboxd deixo a lista mais completa com meus 25 filmes favoritos do ano.

O Top 10 do Circuito Comercial

  1. A Imagem de Falta, de Rithy Pahn
  2. Era uma Vez em Nova York, de James Gray
  3. Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  4. Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara
  5. Mais um Ano, de Mike Leigh
  6. Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais
  7. Boyhood – Da Infância à Juventude, de Richard Linklater
  8. Vic + Flo Viram um Urso, de Denis Côté
  9. O Abutre, de Dan Gilroy
  10. O Ciúme, de Phillipe Garrel

INDIE14.bannerJá passou por BH, e chega hoje a SP, o Indie Festival 2014. Que a cada ano se fortalece como um dos mais importantes festivais de cinema do país. Focado em produções “mais alternativas”, o festival tem intensificado a presença de filmes que estiveram presentes no Festival de Locarno, além de outros destaques de Roterdã, por exemplo. Além de se mostrar altamente conectado com os novos expoentes do cinema autoral, em suas retrospectivas.

Este ano não é diferente, o espanhol Albert Serra (que venceu Locarno em 2013 com História da Minha Morte) e o franco-americano Eugène Green são os homenageados, a obra completa de ambos marca presença, e são o grande destaque da programação (incluindo A Sapência, o novíssimo filmes de Green que passou em Locarno).

Entre os demais principais destaques estão os 3 filmes  argentinos, 2 que integram a Mostra Competitiva de Locarno (A Princesa da França e Dois Disparos) e História do Medo (que esteve na competição de Berlim), o russo Ida (que fez sucesso em Sundance e bem crescendo em repercussão mundial), o japonês Anatomia de um Clipe de Papel (que ganhou a última edição em Roterdã) e o americano Listen Up Phillip (outro de Locarno). Isso, sem falar em Tsai Ming-Liang e o seu curioso Jornada ao Oeste, e o britânico Exibição, outro de Locarno, só que de 2013. Enfim, ainda há outros que merecem atenção, a programação está recheada de filmes interessantes.

Abaixo link para os filmes já comentados aqui na Toca. Os filmes serão exibidos no Cinesesc, gratuitamente, basta chegar 1 hora antes das sessões para garantir seu ingresso.

Ida, de Pawel Pawlikowski

O sétimo código, de Kiyoshi Kurosawa

Jornada ao Oeste, de Tsai Ming-Liang

História da minha morte, de Albert Serra

Honra dos cavaleiros, de Albert Serra

O canto dos pássaros, de Albert Serra

A Religiosa Portuguesa, de Eugène Green

A Ponte das Artes,  de Eugène Green

O mundo dos vivos, de Eugène Green

Todas as noites, de Eugène Green

journeytothewestJourney to the West / Xi You (TAW/FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

No curta de 2012, Walker, Tsai Ming-Liang filmava um monge caminhando lentamente por Hong Kong (passos de tartarugas seriam carros de F1, se comparados). O monge com sua vestimenta vermelha se funde a cidade, é uma forma de elevação do voyeur a um plano sensorial de percepção de cada detalhe que constitui o plano.

Agora, nesse média-metragem, Lee Kang-sheng reedita o monge vagoroso. Dessa vez cruza a cidade de Marselha. A câmera sempre estática, a límpida união de som, sombra, cores. A cidade com seus letreiros em francês, e o monge que segue sua jornada, sabe-se lá porque. Passa despercebido por alguns, chama atenção de outros. Denis Lavant passa a perseguir o monge, no mesmo ritmo, quase um ritual. A pressa da vida contemporânea elevada ao seu oposto, monge desce escadarias do metro, cruza praças movimentadas, a cidade aparece de ponta cabeça, e Tsai pede para que possamos ver o que nos está condicioando, seja uma nuvem, um sonho ou uma miragem.

rebeldesdodeusneonQing shao nian nuo zha/ Rebels on Neon God (1992 – TAW) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Alguns cineastas tem controle tão impressionante e preciso de suas capacidades e obsessões. A coerência da obra de Tsai Ming-Liang é algo assim… assombroso. Seus filmes bebem da mesma fonte, ao mesmo tempo, tão parecidos, e tão únicos. O primeiro plano deste, que marca sua estreia, focaliza uma cabine telefônica, lá fora uma chuva torrencial. A água, a posição da câmera, são mais que suas marcas, são formas de linguagem entre Tsai e seu público, uma linguagem cinematográfica espontânea sob um olhar passivo, sem deixar de ser contundente.

A presença constante e ameaçadora da água, a melancia, a câmera que se distancia e consegue focalizar dois ambientes (como se estivesse posicionada numa vértice), Lee Kang-sheng interpretando o silencioso Hsiao-Kang, são pontos que se repetem em seus filmes em pontos de intersecção que ganham significados ainda maiores pelo conjunto da obra.

rebeldesdodeusneon2Há a irreverência marginal na estreia de Tsai, os tais rebeldes do título são jovens fissurados por fliperamas. Dois deles vivem de pequenos golpes, de roubar máquinas. Hsiao-Kang é mais jovem e passa a perseguir um deles após um incidente entre este (de moto) e o táxi do seu pai. A explosão da juventude exposta de suas formas, dentro do núcleo familiar imposta pelo confronto com os pais. E nos irmãos que moram sozinho, num apartamento nojento cuja a água invade constantemente eclipsando essa sensação de caos.

Talvez seja o mais claro dos filmes de Tsai, isso não quer dizer didático, muito pelo contrário. Mas, as relações humanas estão clarividentes (irmãos, namorada, pais x filhos, o garoto que admira e repudia aquela mini-gangue), os conflitos juvenis tratados sem complexidade e nem um lado pueril, e sim de forma direta (vida marginal, falsos-malandros). A rebeldia de uma geração sob o brilho das luzes de neon.

apassarelasefoiTianqiao bu Jian le / The Skywalk is Gone (2002 – TAW) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Curta-metragem onde Tsai Ming-Liang retoma os personagens do filme Que Horas São Ai? A passarela onde o vendedor de relógios (Lee Kang-sheng) conhece a garota (Chen Shaing-chyi) foi derrubada. Ela voltou de Paris e agora o procura, no lugar da passarela ela atravessa avenida, e toma bronca do guarda. Enquanto isso, nosso vendedor de relógio faz exames/testes para a profissão que a qual ele aparecia em O Sabor da Melância (espécie de trilogia dos dois personagens). Com uma visão da caótica urbanização das metrópoles, Ming-liang promove um encontro frustrado dos dois, numa belo plano numa escadaria escura. Um trabalho curioso, principalmente a quem acompanha sua filmografia, e pode respirar um último suspiro daquele romance melancólico pela distancia.

37_mostra_cinema_sp_divulgaçãoA primeira sensação é de alívio ao término de mais uma edição da Mostra SP. Continuam os problemas técnicos, entre cancelamentos de sessões com antecedência até o ridículo de haver problemas na hora da sessão e acabarem trocando filmes e atrapalhando e a vida de todo mundo (isso precisa acabar, já). Mas, alívio porque a programação segue diversificada, mas dessa vez com qualidade, conseguindo trazer uma boa safra dos destaques do ano entre os festivais de cinema.

Fora as acertadíssimas retrospectivas, que deram show. Foi impossível passar longe de filmes de Stanley Kubrick, Lav Diaz e Eduardo Coutinho. Cinéfilos se dividindo entre as retrospectivas e os filmes novos. As filas maiores voltaram, sessões esgotadas, as mesmas incomoda quando voce fica sem o ingresso para o seu filme, mas é bom ver os cinemas cheios e o burburinho pela procura pelos ingressos.

É uma pena que grande parte do público só se mobilize pelo status do “vi na Mostra”, por esse fenômeno bizarro que uma sessão de um clássico como O Sol por Testemunha tem ingressos esgotados, num sábado à tarde. Tente colocar esse filme em algum cinema ou cineclube ao longo do ano, terá meia dúzia de ingressos vendidos, e olha lá. O importante são os cinéfilos verdadeiros, os que o ano inteiro acompanham os festivais e partem em busca dos filmes.

Como todo ano, abaixo destaque para os que mais me agradaram nessa edição da Mostra SP:

O Filme

norteofimdahistoria

 

  • Norte, o Fim da História, de Lav Diaz

Os Melhores:

  • Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-ke
  • Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  • Peixe e Gato, de Sharam Mokri
  • Instinto Materno, de Calin Peter Netzer

 

caeserrantesJiao You / Stray Dogs (2013 – TAW/FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Tsai Ming-Liang volta, ainda mais radical em seu estilo, e com o discurso afiado e poderoso como sempre. Continua sendo o cineasta das águas, ela está em toda parte. Na chuva torrencial que cai sobre Taipei, quase o filme todo, e até na urina, em cenas fisiológicas que Tsai teima em filmar, trazendo o cinema ao convívio da intimidade pessoal, de cada um de nós.

Aliás, Tsai abusa do incômodo causando ânsia no público em boa parte das cenas que retratam o mais comum possível, um homem se alimenta com um frango, ou com um repolho, o longo plano registra atentamente o homem ruminando sobre aquele alimento. Puro asco! Porém, longe de um plano barato, estilo cinema grego, de causar desconforto puro, Tsai insiste em lembrar que pobres ou ricos, todos executam suas necessidades básicas diariamente, não há como se fugir.

caeserrantes2Os óbvios planos de cães errantes (nem precisaria deles, Tsai), se alimentando por entre escombros, são a metáfora daquela família. Nas primeiras cenas a mãe os abandona. Resta o pai (Lee Kang-sheng), que trabalha carregando aquelas placas de propaganda (faça chuva, faça sol), e os dois filhos. Fome, não ter onde morar, todas as mazelas de uma vida de mendigo são eclipsadas por Tsai e seus planos poderosos, de câmera fixa, longos, retratando a crueldade humana para com seus semelhantes.

Uma cena se repete três vezes, debaixo de chuva o homem segue trabalhando, com sua capa amarela e a propaganda de venda de algum imóvel. O filme volta adiante, agora um plano mais fechado daquele homem, Um pouco além, outro plano, um close-up dos olhos lacrimosos, aquele corpo moído, o desespero de uma alma que passa por moléstias por tentar o de comer a seus filhos.

caeserrantes3Fala-se muito na sequencia final, um longo plano-sequencia estático de 13 minutos, que só no final descobriremos para onde aqueles dois estão olhando. Duram 13 minutos, mas aos que estão hipnotizados por aquela história de um roteiro tão minúscula, a cena dura 2-3 minutos. Quanto maior a duração, mais emoções, e a representatividade deles, passam por nossa cabeça. Mágica essa capacidade de tirar muito de praticamente nada, mas eu ainda prefiro o momento em que um repolho serve para preencher um vazio que, na verdade, não consegue ser preenchido de forma alguma. Tirem suas próprias reflexões.

The Hole (1998 – Taiwan)

A presença metafórica da água no cinema de Tsai Ming-Liang ganha aqui a condição praticamente de um personagem, ou, ao menos, de fato gerador. A virada do século está chegando a Taiwan, o que se vê é o caos, a chuva torrencial que jamais cessa, uma epidemia toma a cidade causando nas pessoas comportamentos de baratas que se rastejam e fogem da luz, os noticiários só falam desse caos. As paredes não escondem toda a presença dessa umidade, ambientes fétidos, o governo pede a evacuação, nem todos atendem. Um encanador abre um buraco na sala do apartamento do protagonista (Lee Kang-Sheng) e a obra fica inacabada. É aberto o contato com a vizinha debaixo (Yang Kuei-mei) que estoca centenas de rolos de papel higiênico pela sala de sua casa. Dois solitários, angustiados pelo silencio, pela solidão, vivendo de sonhos (representados pelas inserções musicais românticas e otimistas) e da incomunicabilidade.

É nesse absurdo, num caos total, que Ming-Liang se propõe discutir o mundo contemporâneo, do incomodo  inimaginável (pense em dias com um buraco onde o vizinho de cima pode te espionar, e vice-versa) surge uma convivência (não necessariamente harmônica) permeada pela curiosidade e pelo incomodo, enquanto o país segue assolado pelo pandemônio instalado. Toda a miscelânea proposta por Ming-Liang em sua visão totalmente pessimista do mundo (porém otimista para os personagens) conflita entre esse mundo onde o que se sugere não é exatamente o que está estampado nesses dois personagens que tentam representar todos nós dentro de nossa egocêntrica existência.