Posts com Tag ‘Uma Thurman’

The House that Jack Built (2018 – DIN) 

São várias as leituras possíveis no novo filme do provocador Lars Von Trier. Um filme sobre a mente de um serial killer (Matt Dillon) é o que vemos em cena, mas os diálogos e narração em off de Virgílio (Bruno Ganz), o poeta romano que serve de guia entre o Inferno e o Purgatório, na Divina Comédia de Dante, remetem a leituras muito além dessa obviedade.

Uma delas seria matar como uma forma de arte. Talvez seja nisso que Jack acredite quando se torna o Sr. Sofisticação e brinca com fotografar os cadáveres que mantem numa câmera frigorífica. O cineasta dinamarquês novamente subdivide a narrativa em capítulos e se aproveita do narrador em tom irônico didático, além, é claro, de seguir testando os limites do público com cenas de violência repugnante, e não só, mas principalmente feminicídio. Realmente Trier não está preocupado em refletir o mundo atual, sua arte manipuladora segue seus próprios caminhos e temas. E a maldade está lá, sua obra pode parecer um grande estudo sobre a maldade humana, com muitos requintes de sadismos e essa necessidade de provocar a qualquer custo.

A provocação a arte está lá, mas muitos notam outra leitura, um filme autocritico. Seria Jack um alterego do cineasta, e Trier lidando com cada um dos incidentes com as próprias fraquezas de sua vida pessoal (polêmicas, alcoolismo, a descoberta quem é o verdadeiro pai biológico, as crises criativas). Grande parte de seus filmes são relembrandos num clip de pequenas cenas, um sinal dessa possível leitura. O engenheiro assassino tenta construir uma casa, ao seu modo, durante os anos de crime, assim como Trier cria sua filmografia ao longo dos anos. Autorreferencias ou metáfora para seu círculo viciosa, temos claramente Trier zombando da sociedade e da polícia, esfregando que a indiferença impera. Seu filme é todo caricato e cheio de inverossimilhanças, tudo proposital, ele quer a ironia, a reflexão, despreocupado em capturar todos os públicos, mas capaz de provocar os adeptos de sua doutrinação maniqueísta e sádica.

Ninfomaníaca01Nymphomaniac: Volume 1 (2013 – DIN) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Resumiria o primeiro volume da saga sexual de Joe (Charlotte Gainsbourg) em uma única palavra: estéril. Narrado como mais um capítulo da série de filme de soft Porn, Emanuelle (com Sylvia Kristel), apimentado com comparações filosóficas de um eterno arrogante (Lars Von Trier) que vão desde pescaria até a música de Bach.

O estilo manipulador de Von Trier está ali, suas pretensões faraônicas e a crueldade com que enxerga as relações pessoais também. Mas, ele já parte de uma faísca fraca (não cola aquele papo de narrar as aventuras sexuais ao sujeito religioso que a acudiu no meio da rua), o conjunto de clipes de apelo erótico leve que servem para as tais comparações entre desejo sexual irreprimível e a visão do tal observador (Stellan Skarsgard) são deturpados e nem tão provocativos quanto Lars pretendia.

E ele ainda insiste em cenas de constrangimento particular, especialmente com Uma Thurman em cena. Não que reações enciumadas como aquela não possam acontecer, o inimaginável é a própria Joe se sujeitar, afinal, dona de joguinhos sexuais tão apurados. Mas, é verdade que mais que qualquer outro filme, este carece da segunda parte, onde se espera que o todo faça sentido, e tenha um propósito maior do que parecer uma homenagem prepotente a sagas como as de Emanuelle.

pulp-fictionPulp Fiction (1994 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

“Não odeia isso? O quê? Os silêncios que incomodam. Por que temos que falar de idiotices para nos sentirmos bem? Não sei. É uma boa pergunta. É assim que sabe que encontrou alguém especial. Quando pode calar a boca um minuto e sentir-se à vontade em silêncio.” A seqüência é longa, mas do detalhe do milk shake até a caminhada ao banheiro, há um quê de genial em cada detalhe. A câmera pegando os atores em perfil, o jogo de plano contra-plano, os cortes entre um Vincent (John Travolta) incomodado, e Mia (Uma Thurman) com olhar penetrante, a música compassada ao ritmo do diálogo, o ambiente anos 50, o tom de voz, o uso do canudo, tudo. Quentin Tarantino me ganhou, aliás, já havia me ganhado momentos antes, na primeira aparição de Mia, ou melhor, apenas seus lábios vermelhos ao microfone.

A esta altura do campeonato, falar de Pulp Fiction é chegar atrasado na festa, quando já comeram os brigadeiros. Tarantino teceu uma fascinante homenagem a literatura Pulp, criou um filme cult, inaugurou um estilo próprio e pop. Agradou q a quase todos Gregos e Troianos, ganhou da Palma de Ouro a um público cativo. Tudo isso com essa violência sanguinária, com a forte influência do Exploitation, e com essa pega tarantinesca de humor e fascínio. São inúmeras cenas inesquecíveis, que mereceriam ser detalhadas, revistas. o diálogo pré-assalto de Tim Roth, os dois gangsteres com paletós ensanguentados, os acontecimentos na loja de som, toda as sequencias com Harvey Keitel.

O sangue e a violência estão por toda a parte, a narrativa, com cronologia bagunçada é somente mais uma peça chave desse quebra-cabeças. Referências espalhada por todos os frames (espada, moto, twist), é a maneira como Tarantino orquestra tudo que gera o fascínio. Violência romântica, quase deliramos com um apertar de gatilho, o sangue jorrando, o humor sarcástico dos assassinos. Num filme sem mocinhos, os bandidos ficam mais fascinantes. Pulp Fiction é puro deleite, e delírio, cinéfilo.

Dangerous Liaisons (1988 – EUA) 

É um super jogo de sedução e conquista, inveja, interesse, e por que não vingança, em meio a nobre corte francesa do Século XVIII. Não há limites, apenas objetivos, e quanto maior o desafio, mais prazer ao vencedor. No centro temos um conquistador, Visconde de Valmont (John Malkovich), que prima por sua fama, sem pudor ou arrependimento, e vive como se seu coração jamais pudesse ser conquistado. E a invejosa Marquesa de Merteuil (Glenn Close) que não quer permite que o ex, case-se, com uma jovem virgem (Uma Thurman). É proposta uma troca, seduzir r a dozela primeiro, pela influências que façam o Visconde conquistar o coração de uma esposa fiel e devotada, Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer).

Que delicioso jogo de sedução dirigido por Stephen Frears, no auge de sua carreira e sua estreia em Holywood, sendo agraciado com 3 Oscars. Interpretações envolventes, jogo de palavras para conquista de corpo e alma, e novos personagens, e amores, que ajudam para bagunçar, ainda mais, essa rede de intrigas de época. Baseado no romance epistolar do francês, Pierre Choderlos de Laclos. O cinema como combustível para vaidade.