Posts com Tag ‘Valeria Bruni-Tedeschi’

Ma Loute (2016 – FRA) 

O curioso cinema de Bruno Dumont. Seus trabalhos mais recentes carregam esse humor caracterico, de personagens facilmente marginalizados por suas imperfeições, bizarrices, ou leves deformações. São comédias de personagens feios, que carregam outras obsessões de seus primeiros filmes também, como a questão religiosa e o mundo no campo, mas especialmente os dois últimos são de uma crítica feroz a uma sociedade que não aceita nada fora dos padrões estéticos e de etiqueta vigentes.

O Pequeno Quinquin foi mais celebrado, e é compreensível por ser um filme bem mais bem resolvido, por mais que ambos sejam facilmente reconhecíveis como filhos-do-mesmo-pai. Aqui estamos no início do século XX, uma familia aristocrata francesa se relacionando com os moradores da região inóspita, enquanto a polícia investiga o desaparecimento de duas pessoas. Os ricos são pessoas execráveis, os pobres, calados e mais pé no chão são canibais. Entre eles, a dupla atrapalhada de policias, o romance proibido de dois jovens, e a capacidade de Dumont em nos fazer rir com a sofisticação da simplicidade. Pena que, os vinte minutos finais sejam pavorosos e capazes de rapidamente destruir toda a consistente construção de personagens.

Nennéte et Boni (1996 – FRA)

Claire Denis expõe de maneira tão naturalista alguns temas que parecem os dramas mais corriqueiros do mundo (ok, talvez sejam mesmo). A gravidez na adolescencia aqui é tratada com pesar, com drama, mas de maneira tão comum que mais parece uma mera briga de casais. Novamente a cineasta voltava a esse contato com o universe jovem, os atores Grégoire Colin e Alice Houri atuam como irmãos novamente. E como irmãos brigam, uma relação conturbada, não que não haja fraternidade (principalmente nos momentos dificeis). Ela foge do colégio e da casa do pai, ele mora sozinho e se mantém afastado da figura paterna. Enquanto essa relação familiar conturbada se desenvolve, o garoto vive como pizzaiolo num trailer por Marselha, e tem sonhos eróticos com a esposa (Valeria Bruni-Tedeschi) do padeiro (Vicent Gallo). E nesse universo Claire Denis começa seu “estudo” sobre os corpos, desvendando seus mistérios em cenas que não são só eróticas, e sim contemplativas.

Domingo de eleição e as militâncias vão às ruas, enquanto esperava minha sessão no Unibanco Artplex reparava no pessoal que perambulava pela bilheteria. Incrível como tipos tão diferentes frequentam o mesmo ambiente, são jovens de todas as tribos, tipos de roupa e cor de cabelo, misturados com requintados casais de idade, além do público gls que anda livre sem preconceito. E o povo levava no peito adesivos dos seus partidos e candidatos, melhor dizendo, os petistas porque do PSDB eu vi um mísero adesivo. Já o vermelho desfilava absoluto pelo domingo até a hora da apuração, porque depois do resultado…

5×2 (5×2 – Cinq Fois Deux, 2004 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Silenciosamente e levemente aéreos, Gilles (Stéphane Freiss) e Marion (Valeria Bruni Tedeschi), ouvem os detalhes proferidos pelo juiz a cerca do divórcio amigável do casal. Detalhes sobre a partilha de objetos, pensão e a guarda do pequeno Nicolas de três anos, nada desejam além do fim daquela incômoda situação. Dali o ex-casal parte para um motel, a última, maquinal e fria transa. François Ozon desconstrói uma história de amor sem derramar um pingo de romantismo.

Dividindo esse relacionamento em cinco atos, narrados do fim pro começo, numa tendência fria e sutil, começamos do divórcio, passando pela fase de crise, o nascimento do filme, a festa de casamento, até encerrar no encontro que fora a chama do despertar de um amor.

Enquanto os atores se desdobram para marcar as diferenças na mudança de tempo com cortes de cabelo, barba e maneira de se vestir, Ozon dá ao filme um alto tom racional e equilibrado, parece desacreditar na força do amor, há ressentimento na tônica geral. Cada quadro é encerrado com uma romântica musica italiana, talvez para dar ao filme um pouco do que não tem: amor.

Falta um toque maior de emoção, mesmo no ápice a sensação de desmoronamento do relacionamento é presente. A maneira triste e melancólica que marca o fim, absorve o fervilhar da paixão, e o formato com cronologia ao contrário prometia um final onde houvesse um quê daquela alegria contagiante.

aintrusaLa Balia (1999 – ITA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A Itália no início do século XX andava inquieta, os socialistas tomam as ruas em passeatas com suas grandes bandeiras vermelhas. O médico e professor aristocrata Mori (Fabrizio Bentivoglio) trabalha numa clínica de doentes psiquiátricos e leva uma vida artificialmente feliz com sua esposa, até que ela fica grávida. Ela não demonstra nenhuma satisfação em tornar-se mãe, e desde o parto não se força nenhum pouco por seu filho, o bebê acaba rejeitando o leite materno talvez sentindo essa rejeição. Sem outra opção, Mori procura uma ama-de-leite, entre as esposas dos presos políticos que estão sendo deportados. Annetta (Maya Sansa) é escolhida e acaba obrigada a deixar seu filho, recém-nascido, para morar nesta casa.

Um forte sentimento de ciúmes toma conta de Vittoria Mori (Valeria Bruni Tedeschi) ao ver seu filho sendo tratado, com muito afeto, por Anetta, e aceitando seu peito imediatamente. Essa situação criada por Vittoria toma dimensões incontroláveis, cada vez mais sente-se trocada, já que as atenções da casa são direcionadas para o bebê e sua ama-de-leite. O marido assiste pacato e acredita que com um pouco de tempo tudo se resolve, mas essa mulher mimada não consegue viver ofuscada e a crise conjugal é inevitável.

De um lado temos uma crítica a sociedade tal como foi formada nos primórdios do século, a dama paparicada por seus empregados é colocada para escanteio com a simples chegada de uma mulher simples e analfabeta. Levemente também tocamos no assunto da liberdade, na presença do médico insatisfeito e apaixonado pela paciente, ou mesmo em Anetta e seu amor pelo marido preso, desejando escrever-lhe uma carta de amor.

Marco Bellocchio dirige de maneira sutil, como uma narrativa lenta e correta, e algum exagerado prolongamento em cenas desnecessárias. Pela falta de objetividade do roteiro, nada nos faz vibrar, penetrar na história, talvez o erro esteja na eterna tranqüilidade de Fabrizio Bemtivoglio, onde seu personagem aceita tudo de maneira tão simples. Faltam momentos contundentes, uma escolha mais direta no que exatamente priorizar, não faltavam argumentos para se utilizar no filme. São crises conjugais, ciúmes e a sensação de ser dispensável para seu próprio filho recém-nascido que deve ser a relação mais próxima que alguém pode viver neste mundo. Baseado no livro de Luigi Pirandello.