Posts com Tag ‘Vincent Cassel’

O Filme da Minha Vida (2017) 

Selton Mello está empenhado no lançamento de seu novo filme, talvez mirando a escolha do Brasil para concorrer ao Oscar. Entrevistas, festas e pré-estreias, pelo Brasil, é assim que se lança um filme no exterior. Que se faça assim mais vezes. É uma adaptação do livro Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármeta e resgata bem o que conhecemos do livro mais famoso desse autor: O Carteiro e o Poeta.

Desde que Selton começou a também dirigir, surgiu um contador de histórias, com olhar sentimental e melancólico. Flertando muito com um cinema mais clássico (nesse novo trabalho, talvez, até envelhecido). Selton narra, cheio de lirismo estético e silêncios estudados, a transformação para vida adulta de um garoto, que pouco se encaixa no tipo normal que vive no interior das Serras Gaucha. Professor de francês, sofre com a inexplicada ausência do pai, enquanto descobre o amor, o sexo, e desenvolve sua paixão por cinema.

Não deixa de ser uma homenagem à sétima arte, que deixa mais o gosto de repetição do que já foi visto tantas vezes, do que o sabor de algo novo e inspirador que esse início de carreira de Selton poderia indicar. É um tamanho de filme que falta ao cinema brasileiro, e tomara que ocupe seu espaço, mas, tomara também que possa trazer algo novo, e que Selton continue com seu entusiasmo nesse desafio colossal que é fazer cinema no Brasil.

eapenasofimdomundoJuste La Fin Du Monde / It’s Only the end of the World (2016 – CAN) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Quanto falta para Xavier Dolan deixar de ser histérico? Não fosse isso, seu novo filme poderia ser bem mais interessante, mas o histerismo é mais forte do que o ainda jovem diretor. Lá está ele com novos diálogos à flor da pele, planos bem fechados nos atores, e cortes e mais cortes com conotação de grande intensidade. Fica tudo a ponto de explodir, mas diferente de um Segredos e Mentiras, são apenas todas as cenas assim, apenas todas, e desse excesso histérico que o que há de melhor escapa-lhe pelas mãos.

Louis-Jean (Gaspard Ulliel) vem visitar sua família, após doze anos só por cartas. A visita não é à toa, ele é um doente terminal, e vem contar seu drama à família. Lá encontra todos amargurados pela distância, em discussões intermináveis e recorrentes, que nada resolvem e muito machucam. Com mais sensibilidade, esse encontro de Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard e Léa Seydoux poderia ser um filme não menos que inesquecível. Acabou sendo apenas estridente aos ouvidos.

Meu Rei

Publicado: setembro 22, 2016 em Cinema
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meureiMon Roi (2015 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A diretora Maïween não esconde as proximidades autobiográficas do filme com seu relacionamento com Luc Besson (quando ela tinha quinze anos). Por isso, a carga sentimental que carrega o filme todo é bem forte. Narrado em dois tempos diferentes, o presente traz Tony (Emanuelle Bercort – ganhou melhor atriz em Cannes 2015) se recuperando de um acidente. A dor e o sofrimento da recuperação formam paralelo a degradação de sua alma e coração, narrada no longo flashback que constrói seu relacionamento com Georgio (Vincent Cassel).

Intensidade e instabilidade são a tônica do relacionamento. Entre os altos e baixos, um amor destrutivo, que corrói os corpos enquanto ilude os sentimentos. Dessa forma que Maïween tenta se libertar dos fantasmas de seu passado. Como cinema, é um filme de poucas alternâncias, e uma trama que conhecemos amplatamente após ter sido tantas vezes explorada. Os dois momentos da narrativa estão apenas interligados pela consequências, mas não chegam sequer a ter representatividade como conjunto.

ocontodoscontosIl Racconto Dei Racconti / A Tale of Tales (2015 – ITA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Em seus últimos filmes, Matteo Garrone não se contenta com assuntos pequenos. Do retrato da máfia italina (Gomorra), ao mundo italianos dos reality shows (Reality), o cineasta parte agora mais profundamente em grandiosidade. São três contos do período das grandes monarquias, sempre cercado de fantasia, e o título já deixa bem expressada essa grandiosidade “O Conto dos Contos”.

Sim, Garrone quer realizar o filme definitivo, ele vem tentando, e passa cada vez mais longe. Este aqui carrega a pompa da idade média, três reinados e suas historias que sobrevivem desse quê de conto de fadas. Do rei que tem uma pulga gigante de estimação e por sua promessa acaba entregando a filha a um ogro, ao rei mulherengo que se encanta por uma voz de uma velha que consegue se tornar jovem, ou então a rainha que não mede esforços e consequências pela possibilidade de ser mãe. São apenas contos, tolos, interessantes, mas que jamais representam a eloquência que Garrone permanece em busca. Contos de fadas para adultos, envergonhados na sexualidade, e que buscam na estranheza a sua forma de se expressar moralmente.

Still from the trailer for Danny Boyle's TranceTrance (2013 – ING) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

As manias de Danny Boyle estão espalhadas por todos os lados, desde os cortes de camera rápidos (melhor estilo videoclipe), passando pela trilha sonora acelerada e outros maneirimos visuais que deixam tudo forçadamente cool. Boyle quer ser grande, o diretor deve ter visto A Origem (Inception) e pensado que também poderia fazer um filme com roteiro cheio de reviravoltas e grandiosidade.

E ele tentou, e não deu certo. Abusando da psicanálise e da hipnose, e deixando os segredinhos para o fim, Boyle tenta realizar um filme de ego inflado. O ponto que pretendia ser chave, o roteiro, é o mais problemático de tudo. Enquanto James McAvoy, Rosario Dawson e Vincent Cassel se esforçam em tornar crível aqueles absurdos, você vai se ajeitando na poltrona e esperando que aquilo tudo acabe logo, ou que pelo menos alguém imponha limites às possibilidades da hipnose que Boyle e sua turma de roteiristas resolveram criar.

Black Swan (2010 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O mundo do balé não é composto só de flores, dança, coreografias expressivas e boa dose de graça e sutileza. Por trás das apresentações encantadoras há jogos de ego intermináveis, muito suor e dor, superação. Não, Darren Aronofsky não traz um melodrama de uma bailarina tentando se superar, seu filme vai muito além disso. Ele flerta com os bastidores, as disputas internas. Dá uma esnobada na sutileza em prol de uma violenta invasão de privacidade Com o foco em Nina (Natalie Portman), o cineasta ganha armas para ousar, e aprofundar-se numa personagem meiga, doce. Garota inocente, educada com mão de ferro da mãe (ex-bailarina).

Uma nova adaptação de O Lago dos Cisnes, o novo diretor  (Vincent Cassel) a considera perfeita para o Cisne Branco (com sua doçura, ternura, leveza), mas totalmente incapaz de assumir a sensualidade e poder controlador do Cisne Negro. Sem dúvida, um filme sobre sexualidade, sobre libertação, Nina luta por uma transformação fundamental. Tenta, de todas as formas, se livrar de uma adolescência tardia, que a mãe a enjaulou. Pouco a pouco se entrega ao personagem, num misto de libertação sexual e paranoia, que a tira da realidade, aflorarando seu lado mais agressivo e autodestrutivo. É como se o Cisne Negro tomasse sua alma lentamente, Aronofsky flerta até com o horror, enquanto Portman brilha nessa mistura antagônica de filhinha da mamãe, e o mundo das artes, com toda a inveja, e poder de dominação, que as estrelas que transbordam sex appeal impõem.

O drama torna-se claustrofóbico, as tintas escuras tomam conta da tela, enquanto essa transformação de personalidade nos salta aos olhos, nos fazendo mergulhar num mundo de luxúria, de relações promíscuas, e de rara beleza nas formidáveis apresentações performáticas dos bailarinos.

inimigopublicon1Mesrine: L’Instinct de Mort (2008 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A figura de Jacques Mesrine (Vincent Cassel) é extremamente cinematográfica, no sentido showman da coisa. Um bandido desmiolado capaz de atitudes mirabolantes, como a fuga, e posteriormente auxílio para a fuga de outros que com ele estavam presos num presídio de segurança máxima no Canadá (só em dois num carro e como único plano sair atirando para todos os lados), já é argumento para um filme de ação. Nas mãos de Jean-Fraçois Richet (e sua passagem pelo cinema de ação hollywoodiano) o filme perde os laços com o cinema europeu para flertar um pouco com o que estamos acostumados no mainstream, se bem que há um ar, um toque de Richet, principalmente na montagem rápida, nos cortes secos e no estilo “moderninho” de filmar.

A primeira parte da saga de Mesrine narra o início de sua vida no crime, sua relação com o chefão da máfia Guido (Gerard Depardieu), dois grandes amores à espanhola, Sofia (Elena Anaya) e Jeanne Schneider (Cécile de France), que trabalhando em dupla ganharam o apelido de Bonnie & Clyde. Richet recorre a participação de Mesrine na Guerra da Argélia (no fim da década de 50) numa forma de justificar a opção de Mesrine pelo mundo do crime, ao tomar partido escancara essa adoração por parte dos franceses a uma figura truculenta, violenta, e faz do seu filme um grande entretenimento com um personagem desajustado. É válida toda a seqüência inicial que deixa no ar uma armadilha para matar Mesrine, a seqüência se impõe com estilo, mas não chega ao impacto esperado (torna-se diapasão do próprio filme).