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Te Doy Mis Ojos (2003 – ESP)

O primeiro encontro se dá na porta da casa da irmã, há poucos dias ela fugira de casa com seu filho e se refugiara ali. Marido e mulher, parcialmente frente a frente, ele tenta se controlar, grita, bate na porta, ela com medo, se lembra de tudo que já passou, mágoa e amor se conflitam, ele toca-lhe o rosto, a cena é linda, difícil, espremida como os corpos pela janelinha da porta.

A diretora Icíar Bollaín discute a violência familiar, maridos que espancam suas esposas, os lares destroçados pelo medo, insegurança, ciúmes, pela falta de respeito e individualidade. Antonio (Luis Tosar) busca auxílio em terapias em grupo com outros homens que cometem violência doméstica, se esforça para controlar seus ímpetos de fúria. Pilar (Laia Marull) passa a trabalhar numa igreja de beleza impecável que repleta de obras de arte recebe turistas e visitantes; assim descobre as artes e uma paixão em compreender os quadros e a história de cada um deles. Não são mais as mesmas pessoas, numa cena ela empolgadíssima conta sobre seu trabalho, seu entusiasmo bate de frente com um muro, aquele homem egoísta e xucro só deseja que as coisas voltem a ser como antes, que sua esposa fique cuidando da casa e do filho para que ele chegue e encontre sua cerveja, a janta pronta e uma mulher sedenta por fazer amor.

Na reaproximação do casal o despertar da paixão faz novamente parte daqueles corpos e almas, mas é difícil entender que as pessoas amadurecem, aprendem, e Antonio acredita que meia dúzia de sessões de terapia foram capazes de controlar seus ímpetos agressivos, quer possuir sua esposa, ser dono de cada parte do seu corpo, só que nessa nova relação ela não mais lhe pertencem tem por ele amor, desejo, porém as coisas são diferentes e o ciúmes corrói o vendedor de geladeiras. Numa das grandes cenas do filme, Antonio conversa desesperado com o terapeuta, Pilar não havia atendido o celular e ele entrega seus sentimentos, seu medo de que ela encontre alguém interessante já que ele enxerga que no fundo ele tem muito pouco a lhe oferecer. Pelos Meus Olhos é daqueles filmes que guardam dois ou três momentos que ficaram guardados na memória, pela realidade crua, e principalmente pela capacidade de trazer a tona (em forma de metáfora ou não) os mesmos problemas que enfrentamos em nossas relações pessoais.

 

Anjos do Arrabalde – As Professoras (1986) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Lembro bem da decepção em assistir ao filme, numa sessão da Cinemateca, onde havia, além de mim, apenas mais uma pessoa na plateia. Coisas do interesse pelo cinema nacional. Por outro lado, a força da memória afetiva não está nessa pequena decepção, e sim na mágica maneira com que Carlos Reichenbach pôde me fazer reviver pequenos detalhes da infância. Objetos em cena como aparelhos de TV, as estampas das cortinas, os bichinhos de pelúcia, a bolsa de manicure, um bule, a carteira. Objetos que estiveram tão presentes na minha casa, e resumem a classe média baixa dos anos oitenta, hoje artigos de museu ou de alguma decoração retrô.

O filme se passa num bairro suburbano paulistano, o foco em quatro mulheres, mais precisamente nas angústias da violência urbano-familiar, espécies de “anjos tortos” entre tantas mazelas e maus-tratos. Ele discorre apresentando essas mulheres: da manicure estuprada às três professoras amarguradas pela opressão de maridos, a narrativa retrata basicamente as desilusões amorosas e violência familiar. Não por coincidência, a cada mulher desamparada há um homem cruel, mesquinho, violento. Retrato da sociedade à época, onde a posição feminina passiva era mais flagrante que nos dias atuais.

Fácil notar o exercício de estilo de um cineasta, a preocupação de fugir a uma narrativa tradicional, o cuidado em retratar cidadãos comuns (como comuns), os traços enraizados do cinema marginal. Reichenbach flerta com a violência, coloca em cena características marcantes de seu cinema, posiciona seu público dentro do subúrbio que retrata com deliciosos movimentos de câmera. Sempre gentil e justo, Reichenbach homenageia os amigos cineastas como Luiz Sérgio Person e José Carlos Burle, que se tornam nome de escola, de hospital, manchetes de jornal e refletem parte importante da história.

O que é positivo acaba causando efeitos colaterais. A presença de Carlão, às vezes, parece maior que o próprio filme, o poder da imagem em detrimento das atuações. A câmera extenua cada imagem, o corte brusco não permite aos atores destilar mais profundamente suas emoções. Entre os eles, Clarisse Abujamra, Vanessa Alves e Ricardo Blat conseguem exprimir melhor seus sentimentos, com personagens contraditórios e cernes, que vivem cercados pela violência, marginalizados por seus entes ou por sua própria situação.