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Where Has the Time Gone? (2017 – BRA/CHI/IND/RUS/AFS) 

Essa pergunta respondida com a visão de cinco diretores tendo os países do BRICS como palco. Idealizado e produzido por Jia Zhang-ke, o filme sofre dos maiores males do filme-coletivo. A falta de unidade é tão gritante que é difícil encontrar conexões entre eles. Walter Salles abre com o acidente ambiental de Mariana, é o primeiro a levantar ao mundo a catástrofe ocorrida no Brasil. Da pungência do tema, Salles concentra no drama de uma familia cujo pai acaba sendo um dos desparecidos do desastre.

Jia fecha o filme com uma reflexão precisa da sociedade chinesa atual, a abertura para ter um segundo filho modifica diversas questões sociais, e o filme tem no cerne um casal discutindo sobre a possibilidade de uma nova gravidez, mas não fica apenas nessa única questão. De resto, melhor passar bem longe da amizade de um idoso e um garoto na Índia. Ou insosso do drama de um casal na Rússia, e mais ainda de outra ficção futurista sul-africana.

O cinema nacional continua sobrevivendo de comédias muito populares, ou filmes para um público super restrito. Esses filmes menores ganham pequenos lançamentos, com pouquíssimas sessões, de forma que assisti-los se torna um esforço logístico. A exibição no Canal Brasil ou no Now tem sido mais interessante do que o circuito comercial deles. Entre esses dois tipos de filmes restam poucos lançamentos que estejam entre essas duas características, e normalmente eles são boa parte do que de melhor nos é apresentado. Segue abaixo meus 5 filmes nacionais lançados em 2015 nos cinemas brasileiros.

 

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  1. Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert
  2. Ausência, de Chico Teixeira
  3. Jia Zhang-ke, Um Homem de Fenyang, de Walter Salles
  4. Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós
  5. California, de Marina Person

 

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

jiazhangkeumhomemdefenyangJia Zhang-Ke, Um Homem de Fenyang (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Ao mergulhar em Jia Zhang-ke, na obra e na vida do cineasta chinês, Walter Salles prefere um anonimato criativo. Talvez por respeito, ou a opção de deixar o retrato intacto, sem interferências, deixando assim que Jia seja o fio-condutor da imagem que ele prefere passar de si. É sempre curioso a maneira como cineastas retratam outros cineastas, a mão de Waltinho pouco aparece frente à câmera, como se a viagem à China não oferece transformação ao criador, sendo apenas um retorno do personagem às origens.

E esse retorno mostra o que já se sabia, o quanto dos filmes de Jia tem de sua visão da China, de suas experiências, e do olhar crítico que muitas vezes o afasta das salas de cinema (com tantos filmes proibidos pela censura chinesa). Waltinho segue Jia em longos planos-sequencias por ruas onde foram feitas filmagens, na confusa casa (que já foi uma prisão) onde cresceu. Jia Zhang-ke voltando a ser Jia Lalai (significa moleque no dialeto da região onde cresceu). Os relatos e encontros com amigos e familiares contribuem muito na formação do quebra-cabeças das referências de Jia.

O título não poderia ser mais correto, Jia é um homem de Fenyang, mesmo rodando o mundo, e tendo acesso a outras culturas e influências, está nele enraizada toda a formação do chinês médio, que vive longe dos grandes centros. Ele apenas expõe, de maneira sagaz, um olhar sob seu próprio eu (ou das comunidades que ele conhece bem), e o documentário prova essa ligação umbilical a cada conexão da filmografia e a bagagem de experiências que Jia carrega. Um homem de Fenyang, mas que sabe enxergar os problemas à sua volta, questionar comportamentos, enquanto respeita sua cultura como um todo.

Se o documentário é contido, Jia proporciona alguns inesperados momentos dramáticos, quando fala do pai, ou quando Um Toque de Pecado é reprovado pela censura. Mas, até lá, já corremos tanto aquela região, revivendo as ruas onde Plataforma forma filmadas, a maneira como as histórias chegaram a seu conhecimento antes de se tornarem filmes, e os detalhes que tanto preocupavam a família por suas contestações políticas. Engraçado olhar para uma cultura tão diferente, e perceber a preocupação do pai, em olhar para Plataforma, e enxergar no filho um homem de “direita”, afinal tudo que é oposto ao comunismo de “esquerda” só pode ser de direita. Já, no lado ocidental, suas críticas seriam facilmente vistas como de “esquerda”, são mundos tão díspares que absorvem é a única opção. Jia não nos deixa esquecer da história que ele mesmo viveu.

centraldobrasilCentral do Brasil (1998) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Lembro bem de uma das primeiras vezes em que fui à Cinemateca e fui parar numa mesa, com desconhecidos, discutindo sobre cinema. E um senhor começou a falar sobre o filme, que havia escrito um grande artigo acusando-o de deslavada propaganda em prol do governo FHC (o texto não foi publicado, por escolha do próprio autor, segundo suas palavras), que aquele conjunto habitacional do final do filme era o ápice da propaganda governista e etc. Hoje, voltando ao filme após tantos anos, considero que se fosse filmado no governo Lula, imagino que pudesse haver o mesmo tipo de observação, podem aproveitar ainda argumentos como o bolsa família.

Talvez a observação fosse correta, e eu não consiga até hoje capitar esse ar tucano que aquele socialista convicto enxergava. Sob minha ótica, o filme de Walter Salles retrata o momento do país, de maneira genuína, um momento que começou a ser desenhado pelo plano Real e que, com mutações e correções na rota, segue até hoje de forma sustentável (por mais que não haja crescimento sustentável nesse país).

O primeiro terço do filme é arrebatador, a escrevedora de cartas (Fernanda Montenegro), o desejo do garoto (Vinicius de Oliveira) de conhecer o pai, o retrato da Central do Brasil. Há tanta brasilidade ali, tanta poeira e sentido de sobrevivência que só os brasileiros conhecem. Depois começa ao road movie, propriamente dito. Surge Othon Bastos como um caminhoneiro, surgem dificuldades e percalços. Levar o menino ao pai torna-se uma aventura dramática, e Walter Salles narra toda essa estrada com trilha doce e tom de fábula nordestina, com lágrimas por cada quilômetro rodado.

Decepção, esperança, aconchego, Salles continua resumindo a pobreza do sertão nordestino, o culto à religião, tenta incorporar o máximo de elementos possíveis, e consegue de forma genuína. Tantos quilômetros distantes da Central do Brasil, e a realidade é a mesma, uma banquinha na rua escrevendo cartas para analfabetos, que em poucas palavras poderiam ser tão fundamentais a tanta gente. A saga da busca por um pai, que não deve ser nenhum exemplo de vida (e a presença de Caio Junqueira e Matheus Nachtergaele comprovam isso), ainda assim um pai, pessoa fundamental navida de qualquer um.

terra-estrangeiraTerra Estrangeira (1996) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Depois de sua estreia no cinema, com A Grande Arte, Walter Salles voltava a filmar misturando influencias de seu trabalho anterior com um flerte inicial ao road movie (a qual se tornaria especialista). Voltamos ao governo Collor, o presidente e sua ministra da economia (Zelia Cardoso de Melo) tomavam o dinheiro de toda a população, tudo em prol do bem da nação.

Sonhos castrados, economias transformadas em pó, desespero. Salles (dividindo a direção com Daniela Thomas) volta ao mundo da marginalidade, da violencia por entre esquinas. Só que dessa vez fala de toda uma população sem perspectivas. Os personagens (jovens) apelando para formas ilicitas de sobrevivência (Alexandre Borges e Fernanda Torres), ou pecando pela ingenuidade (Fernando Alves Pinto), mas de maneira geral buscando a fuga do país.

Desse retrato caótico de situação econômica o filme migra para Portugal, brasileiros e mafiosos invadindo a Europa. A distancia de casa, os desencontros amorosos, a ausência de um alicerce. Do sonho à fuga desesperada pela sobrevivência, da esperança à necessidade de não confiar em ninguém. O road movie vira uma fuga, contrabando de jóias, o desejo de conhecer a cidade de seus antepassados, tudo se mistura com aquela fotografia preto e branco, que à beira da praia mostra um barco e um casal, na cena mais bela do filme, que mesmo irregular guarda seus momentos.

On the Road (2012 – EUA/FRA/BRA)

Quando Jack Kerouac saiu pelos EUA naquele esquema uma calça jeans e duas camisetas, não pensava em se transformar em símbolo da contracultural, da geração beatnik, nem nada. Queria viver sem limites, aproveitar da vida o que ela tivesse a oferecer no presente. Experimentar, experimentar, e experimentar, e isso quer dizer diversão, prazer, sexo, alcool e drogas. Seu único objetivo era se tornar escritor.

E seu livro virou o que virou, as aventuras vividas entre Sal Paradise (alter-ego de Kerouac) e Dean Moriarty, cruzando os EUA (e México) se tornaram símbolo de liberdade, a vida libertária por excelencia, a falta de responsabilidade como forma de burlar o sistema. Sob a adaptação de Walter Salles (o Sr. Road Movie do cinema atual) o material do livro ganha em dramaticidade e melancolia (que estava lá, aqui eclipsada), falta filme de estrada.

Os corpos vem e vão, o carro anda quilometros entre NY, Denver, São Francisco. As estripulias sexuais e químicas dominam os personagens. Ainda assim, falta a continuidade do livro, essa dimensão de que eles estão se afogando, de que o frenético é diário, sem pausa. Não há descanço. Falta poeira nessa estrada, falta brilho a Sal Paradise (Sam Riley apgado) enquanto sobra essa energia no personagem de Moriarty (Garrett Hedlund, que transpõe bem a essencia de Moriarty no livro).

 As palavras estão nas bocas dos personagens, mesmo assim, falta a impressão de que eles estão contando os centavos no bolso para pagar uma bebida, e não tem o que comer amanha. Falta essa essencia, Salles foca nos personagens e transforma as cidades em apenas letreiros informando onde estão. Porém, consegue resgatar muito bem a relação entre Sal, Dean e Marylou (Kristen Stewart sexy como o personagem pedia), esse triangulo (não exatamente amoroso, a relação entre eles poderia ser considerada destrambelhada) torto dá uma outra vida ao filme de Salles. Talvez o espírito do livro fosse inadaptável mesmo.