Posts com Tag ‘Willem Dafoe’

The Florida Project, 2017 – EUA) 

Sean Baker está de volta, deixa de lado seu iphone, mas continua filmando a luz, o sol, as cores, com beleza rara. Impressiona como o cineasta brinca com a possibilidade do colorido dos prédios, que dialoga tanto com a meninice da arteira Brooklynn Prince. Um grupo de personagens vivendo no hotel do título, uma vida tão próxima, e tão distante, dos parques da Disney. Baker, novamente, dando voz e naturalidade aos que estão à margem do capitalismo, mas que precisam dele para sobreviver. Renegados ao ostracismo, num grito por espaço que choca aos demais por sua falta de pudores, pela ausência de etiqueta, e pela pungência do hoje, como se não houvesse amanhã.

A câmera quase sempre posicionada na altura das crianças, dá dimensão do olhar para os adultos, que tentam, em vão, impor limites, como é o caso do zelador (Willem Dafoe, om uma mão no Oscar de Ator Coadjuvante). A liberdade quase desenfreada para os que precisam de orientação e limites, uma América que pouco se importa com a “sujeira” deslocada aos subúrbios do consumo. Baker sempre de olho naquela faixa de população que a maioria gostaria de varrer para debaixo do tapete, e aqui os retrata com graça, delicadeza áspera, e com a mesma urgência que eles carregam de não se importar com o futuro.


Festival: Cannes

Mostra: Quinzena dos Realizadores

Pasolini

Publicado: novembro 5, 2015 em Cinema
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pasoliniPasolini (2014 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

E quanto o ousado cineasta Abel Ferrara resolve filmar, o último dia, da vida de outro diretor de cinema ultra-ousado, surge um retrato sóbrio, calcado na seriedade de um transgressor. Tanta ousadia dos dois lados e um filme tão sereno, é de se estranhar. Porém, não deixa de ser outra surpresa,

Ferrara escalou Willem Dafoe para reviver as últimas 24 horas na vida de Pasolini, e juntos conduzem esses últimos momentos como quem tenta resumir a vida do italiano escritor, comunista praticamente, e de filmes tão singulares. O rosto fechado, os movimentos lentos, a fotografia em fortes tons cinzas e negros. Da relação carinhosa em família, aos instintos sexuais que levaram a sua morte “misteriosa” (recentemente as investigações de sua morte foram reabertas e fechadas novamente).

Mesmo com espaço tão curto, Ferrara consegue o que grande parte das cinebiografias nem chegam parte, dar dimensão da pessoa retratada. Seja em sua visão da pobreza cultural do momento, seja nas supostas sequencias de seu novo filme (Porno-Teo-Kolossal), o Pasolini de Ferrara nos dá essa sensação de absorver o homem, além de seus escritos ou filmes.

oportaldoparaisoHeaven’s Gate (1980 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Da obra-prima ao fracasso. Na inernet facilmente encontra-se textos que pontuam a importância histórica do grandioso filme de Cimino, a disputa com o estúdio, o fracasso de bilheteria, o orçamento estourado, o ego inflado por aquele jovem promissor que ganhara 5 Oscar’s e pretendia realizar, nada menos, que a obra-prima definitiva do cinema americano. E não venham me dizer que esta não era a intenção, porque o filme dá todos os sinais da eloquência com que Michael Cimino conduz seu filme. Da frustração irrestrita com que o filme foi recebido à aclamação da crítica como verdadeira obra-prima, quando do relançamento da versão do diretor, o filme se tornou maldito e amado.

O tema não era nada palatável, e o clima da época (pós Guerra do Vietña) indica que não era o tema que o público estava ávido em descobrir. Afinal, tratar de um momento histórico americano em que o presidente do país aceita que um grupo faça uma lista, e execute, 125 pessoas (na maioria imigrantes que atrapalhavam seus negócios), está longe de entreter. Do discurso inflamado do orador da turma (John Hurt), à caçada que se torna o condado de Johson, Cimino cria dezenas de planos fabulosos em reconstituição de época, cenários, e a violência sanguinária. O balett da câmera acompanhando os bailes, as cenas com centenas de figurantes, a porção western (há quem considere que o filme matou com o gênero), a trilha sonora precisa entre a emoção e o bucólico. É tudo lindo de se ver.

Porém, de tão grandioso, a almejada obra-prima de Cimino se apresenta como um polvo gigante, desengonçado, que se movimenta em slow motion. O triângulo amoroso (Kris Kristofferson, Isabelle Huppert e Christoher Walken) é instável, falta fluidez. O personagem de Jeff Bridges parece meio perdido na história. O roteiro não consegue dar conta de tamanha grandiosidade, de estruturar seus personagens, o massacre e o triângulo amoroso acabam como as tábuas de sustentação enquanto Cimino apresenta sua desenvoltura em criar cenas lindas. Cavalos, carruagens, os trajes coloquiais, o western como toques de épico, a perseguição à imigração. Talvez fossem necessárias 5 horas de duração para que Cimino conseguisse desenvolver tudo que pretendia, a versão de 219 minutos ainda manté o filme confuso, ainda que belíssimo.

ohomemmaisprocuradoA Most Wanted Man (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Só mais um thriller envolvendo terroristas e Islamismo. Quanto mais se desenvolve a trama, mais difícil de engolir se torna. O filme é todo passado em Hamburgo, imigrante ilegal da Chechênia, serviço de inteligência alemão e americano em conflito, o cinema não precisava de mais uma dessas histórias. Mas, Anton Corbijn filmou cheio de esmero, cores fortes contrastando o clima frio alemão, e achou que levar vários nomes de peso para a Europa seria uma saída comercial.

Um dos últimos trabalhos de Phillip Seymour Hoffman, por isso o filme ganha um interesse além do merecido. Ele é o chefe da inteligência que segue o imigrante, só que o alvo é outro, gente graúda da ONU. Ainda há espaço para envolver um banqueiro e uma advogada (eterna boa-samaritana). Seria apenas chinfrin se não fosse os caminhos finais do desfecho.  O livro de John Le Carré pretendia unir tantos bons-samaritanos num suspense sobre Al-Quaeda?

ograndehotelbudapesteThe Grand Budapest Hotel (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A patifaria de sempre de Wes Anderson, só que dessa vez travestida da década de 30, o Nazismo e o período entre as duas Grandes Guerras. De um lado o fino, o elegante, um luxuoso hotel e seu consierge (Ralph Fiennes) alcançando o cumulo da sofisticação. De outro lado a estrutura estéreo, imersa em cores berrantes (elevador vermelho e uniformes roxos), dos filmes de Wes Anderson. No meio disso uma intricada trama com direito a roubo de quadro, e vilões patifes (Willem Dafoe, Adrien Brody).

É mais uma aventura para unir atores famosos, e eternos colaboradores de Wes Anderson. Assim, Bill Murray e Owen Wilson aparecem em pequenas pontas, enquanto personagens esboçam humor por meio das sequenciais ágeis e picotadas de Anderson. Ele simplesmente traz seu universo para uma época específica, troca os losers da classe média pela alta aristocracia europeia versus um charmoso gerente de um hotel. Com direito a fuga da cadeia e outras patifarias, Wes Anderson é incorrigível.

ninfomaniaca2Nymphomaniac: Volume 2 (2013 – DIN) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Interessante como a segunda parte da saga de Joe (Charlotte Gainsbourg) consegue não se parecer com um soft porn, à lá Emanuelle, mesmo que mantida a estrutura anterior. Trata-se de um filme muito mais denso, e ainda mais pesado, que seu antecessor. A pervertida Joe cruza qualquer limite em prol do saciar da sua sexualidade, vive sua vida através de uma imensurável necessidade por sexo, ainda mais incessante por só ter vivido um único orgasmo verdadeiro (ainda criança, numa cena sobrenatural).

Lars Von Trier, esse provocador. De um lado essa mulher que usa o poder de seu órgão sexual de forma deliberada, de outro um sujeito (Stellan Skarsgard) culto, religioso, assexuado, que ouve com uma curiosidade imensa e comenta com uma sapiência divina (faz metáforas religiosas ou literárias que chegam ao irritante do pertinente). Aliás, ponto fraco notório é essa necessidade de Trier em tentar o culto com simbologias didáticas (aquela da arma numa mancha de líquido da parede é um absurdo). Este é um filme do cineasta mais manipulador do cinema, nunca seria apenas um conto sobre o sofrimento de uma mulher em busca de sua liberdade e autonecessidade (Joe mergulha no sadomasoquismo, em orgias, cenas explícitas e desavergonhadas, como nunca se viu).

Por trás de toda essa provocação diabólica, um cérebro astuto que novamente entrega um trabalho abstrato, contestador e cínico, principalmente nas questões ligadas ao relacionamento humano. Trier revisita temas anteriores (como na questão da maternidade de Anticristo ou a maldade humana de Dogville e Manderlay), despreza o amor, mas abusa de coisas como transformar Joe numa cobradora de dívidas de um agiota (Willem Dafoe). Filma nos mínimos detalhes os cuidados para momentos de violência perversa, sua mente ensandecida traz à tona o que mais se senta jogar pelo tapete, mas por trás de todo esse de sexo explícito e fora dos padrões do “aceito pela sociedade”, estão críticas ferozes a temas que vão desde religião até provocações que devem ter tiro certo (e que nunca saberemos).

4:44 Last Day on Earth (2011 – EUA)

O mundo tem dia e hora para acabar. Abel Ferrara acompanha as derradeiras horas do planeta mirando sua câmera para um casal. Acordar sabendo que aquele é o último dia, acreditar no que dizem, passar o dia todo transando ou tentar encontrar um esconderijo que talvez possa protegê-lo do pior?

Não sabemos as razões que fizeram os estudiosos determinarem que o mundo terminará as 4:44, na verdade pouco importam. Ferrara está interessado no estudo familiar daquele casal. Aos poucos, sabemos que ele é divorciado, que tem uma filha, o Skype o ajuda a manter contato, mas o peso da melancolia é o que salta de cada cena, de cada fala. Afinal, tudo está prestes a acabar, controlar o choro ou se desesperar são algumas das reações possíveis.

Ferrara se fixa nessa questão, o mundo vai acabar, eles vão sofrer e depois perdoar o que puder ser perdoado e se unir no momento derradeiro, porque, na hora do desespero, é quando nos colocamos ainda mais próximos dos que nos são mais queridos, e num dia como esse, esperar que a racionalidade permaneça intacta, seria, no mínimo, pedir demais.