Posts com Tag ‘Wim Wenders’

osaldaterraThe Salt of the Earth (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Nos últimos anos Wim Wenders tem se dividido entre filmes de ficção, e documentários sobre artistas destacados: músicos cubanos, a performance/bailarina Pina, e agora o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Aliada à proximidade com o 3D (não empregada nesse novo filme), indica um cineasta flertando fortemente com o artístico, mesmo que nem sempre ele consiga resultados satisfatórios. O formato indica essa concepção, quase todo em branco e preto, os planos que se dividem entre as fotos e o rosto de Salgado comentando sobre sua vida e seu trabalho. O resultado é um vislumbramento do cineasta para com o documentado (o filme é codirigido pelo filme de Salgado, Juliano Ribeiro Salgado).

Se as fotos de Salgado guardam momentos poderosos – a fome na África ou a vida primitiva na Serra Pelada – histórias que poderiam ser fabulosas, em seu discurso de parcimônia, e na posição passiva adotada pelos diretores, soam apenas como tentativas do fotógrafo se tornar um poeta. O homem é imaculado, não o trabalho. É muita contemplação ao artista e pouca criatividade cinematográfica, aproximando-se muito de um Power Point com efeitos de montagem e o áudio do fotógrafo que vende exatamente a imagem que pretende colocar ao público. Sem sair do tom, sem transpiração, as fotos cheias de vida, o documentário monocromático em sua alma.

palermoshootingPalermo Shooting (2008 – ALE) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Muito curioso que no mesmo dia faleceram, dois monstros sagrados do cinema mundial, Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni. Algo dessa coincidência sensibilizou Wim Wenders, trazendo-lhe a ideia de unir Blow-up e O Sétimo Selo num mesmo filme. Para isso, o cineasta alemão vai até a Itália, cria uma estrutura gráfica futurista e high-tech, contraste do fotógrafo nas belas edificações de Palermo.

O bem-sucedido fotógrafo de estrelas (como Milla Jovovich) entra num jogo com a morte, enquanto o público entra num espécie de filme de autoajuda permeado por essa riqueza técnico-visual, mas tão pobre de autoafirmação, de um drama consistente, que rapidamente se vê enjaulado pelo cinza que pouco evoca de lúcido e próspero. Wenders tenta homenagear, mas fica tão abobado pela tecnologia que se torna quase um arquiteto narrando uma história qualquer.

Pina

Publicado: setembro 25, 2011 em Cinema
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Pina (2011 – ALE/FRA/RU)

Pina Bausch rompeu com o balet ao colocar em prática o teatro-dança. Este ano foi a vez de Wim Wenders romper com o universo do documentário ao trazer em 3D o mundo fabuloso da dança de Pina. Ao invés de entrevistas enaltecendo sua figura ou traçando sua biografia, Wenders apenas filmou a companhia de danças, o esquema são pequenos depoimentos (normalmente falando do dedo professional de Pina em suas próprias interpretações) e a seguir exibições de dança (sejam pelas ruas, em teatros, seja só com quem deu o depoimento ou com todo o grupo). Wenders penetra no universo da arte, sem se importer com os meandros, bastidores, é a pureza do resultado plastico, o enaltecer dessa mulher por seus resultados práticos (e magníficos).

É daqueles filmes que voce tem vontade de deixar a tv ligada o dia todo, porque a trilha te contagia, as danças, o espírito. Há certo humor, mas principalmente há esse brilho de uma arte em erupção, a sensação de leveza dos corpos que nos tomam de sobressalto, a beleza límpida da imagem que nos transporta à poltrona do teatro e embasbacados aplaudimos com fervor aquelas apresentações magistrais. Documentários devia ser assim, carregados da emoção do tema ou do entrevistado, e aqui funciona exatamente assim, um documentário carregado pela dança que fez a vida de Pina Bausch. Pra rever todo dia, toda hora, a todo instante.

estrelasolitariaDon’t Come Knocking (2005 – EUA/ALE) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A certa altura da trama, o protagonista senta-se num sofá, que havia sido arremessado pela janela, e está no meio da rua com outras quinquilharias. Fica ali naquela rua deserta e a câmera fazendo movimentos de 360º contínuos, ora horários, e ora anti-horários. O dedilhar de um violão ao fundo, aquela visão de construções, e de uma poeira seca que o vento traz. O protagonista passa o dia sentado ali, sem proferir uma única palavra, sem alterar suas feições. Está perdido, mas não desesperado, vendo apenas o sol no caminho de se pôr, é a própria estrela solitária. Cena antológica.

Um decadente ator de faroestes (Sam Shepard), no meio de mais um set de filmagens, simplesmente desiste do filme e desaparece sem deixar vestígios. Larga na mão diretor, atores e toda a equipe de produção, partindo numa jornada existencial. Seu primeiro destino é visitar a mãe após trinta anos. Através dela descobre ter um filho, numa pequena cidade onde filmou um de seus sucessos do passado.

A nova parceria da dupla Wim Wenders e Sam Shepard, traz a repetição de muitas coisa vistas no clássico Paris, Texas. Mas, Wenders filma como gente grande, e por mais que não tenha agrado tanto a crítica assim, me parece um filme maduro, de quem sabe onde está pisando. O cineasta alemão trata de uma geração que agora percebe que sua fase já passou, e tenta aprender a lidar com o ostracismo. A câmera disseca o vazio que Howard carrega, por ter tido tanto e não ter construído nada. E agora no fim da vida percebe a solidão que os caminhos que escolheu o levaram.

Busca então se agarrar em resquícios do que deixou, a garçonete por quem fora apaixonado, o filho que ele nunca soube existir. E essa estranha garota loira que o persegue carregando as cinzas da mãe. Quem curtiu cada momento da vida regado a festanças, álcool e drogas, agora percebe que pouco valeu a pena, perto do que deixou de lado. É um drama existencial sim, personagens que tentam expurgar seus fantasmas.

Sam Shepard conduz esse caubói, no rosto e na suas expressões a dose certa para caracterizar o personagem, mas Shepard que me desculpe, Jéssica Lange roubou-lhe o filme, com aparições carregadas de emoção, com destaque para a cena em frente a academia.