Café Society

cafesocietyCafé Society (2016 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Como todos os anos, Woody Allen vem lançando um novo filme, ou quase sempre uma variação de um mesmo tom. Algumas vezes acerta mais, outras menos, e invariavelmente agrada grande parte de seu público cativo. Lá se foram os tempos em que tentou experimentar, agora com oitenta anos que ele usa e abusa das fórmulas infalíveis de garantir sua presença nos circuitos de cinema. Romances com um personagem alter-ego seu, quase sempre em Nova York, com boas doses de comédias, neuras, famílias judias e jazz. São assim seus filmes.

Suas lentes retornam aos anos 30, mais precisamente Hollywood. No mundo de sonhos da indústria do cinema que o diretor cria sua história de amor, um local onde a fantasia tão presente que o roteiro cria personagens com traços de pés-no-chão. Longe da originalidade, depende do subjetivo para se entregar mais, ou menos, ao relacionamento vagaroso entre o aspirante a roteirista (Jesse Eisenberg) e sua colega de trabalho ( Kristen Stewart). A moça tem um relacionamento secreto, que se torna a chave para os destinos de diversos personagens.

Pela história passam-se anos, e Allen cria um curioso estudo (permeado por toda essa embalagem de seus filmes a qual estamos acostumados) das mutações do amor pelo tempo, das relações entre as pessoas, e da quebra da ilusão de nem sempre conseguir viver aquele que se considera o grande amor de sua vida.

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Homem Irracional

homemirracionalIrrational Man (2015 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A concepção da trama do professor de filosofia (Joaquin Phoenix) angustiado e alcoolatra, que causa fascínio imenso em sua aluna (Emma Stone) durante conversas pelo campus ensolarado ou à beira do mar, traz repetição da filmografia de Woody Allen, mas não é problema algum. A causa se complica quando, efetivamente, entra em operação a terceira adaptação de Allen de Crime e Castigo.

O didatismo dominante está presente em todas as falas, na narrativa em off, por todos os lados. Allen não deixa uma sombra sem explicação, de forma além de explícita. Chega ao irritante, algumas cenas até mesmo patéticas. Que há tempos que a vida não é um filme de Woody Allen, nós sabemos, mas tratar o público com tamanha incapacidade de compreender o que está acontecendo, sem se repetir, explicar tudo, já vai se tornando um desserviço ao cinema.

E não adianta florear com bonitos planos de por do sol, caminhadas por belor parques arborizados, e o jazz característico, a racionalidade humana e a discussão da moralidade requer argumentos mais elaborados do que simplificar, de maneira tão ingênua, a obra de Dostoiévsky.

Magia ao Luar

magiaaoluarMagic in the Moonlight (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Um filme novo, de Woody Allen, a cada três anos. Já venho falando nisso há anos, agora vou lançar a campanha. Quem sabe ele não se sensibiliza e amadurece melhor suas ideias. Ele voltou ao mundo da burguesia, dos romances fofos, dos roteiros desenvolvidos a partir de 2-3 ideias de cenas (nada me tira da cabeça que a cena final foi chave, de onde grande parte da trama começou).

Mágicos e médiuns, o imaginário humano pelo oculto, pelo indecifrável. Sophie (Emma Stone) é a bela jovem que tem visões, conversa com mortos, descobre segredos. Para descobrir seus truques e provar ser uma charlatã é convocado Stanley (Colin Firth), ilusionista respeitado em Londres. Filme de época, na França, belos casarões e vestidos, milionários e o charme de um cético racional. Woody Allen filma mais uma daquelas histórias para se assistir enquanto arruma o quarto, se prepara para dormir, dando uma olhadela na tela da tv, sem muita importância. Seu filme tem estilo, algumas ideias, e uma história que faça tudo isso se encaixar.

Blue Jasmine

bluejasmineBlue Jasmine (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Woody Allen faz San Fracisco parecer Nova York, se bem que sua cidade predileta é foco de boa parte da trama. A vida de Jasmine (Cate Blanchett) vem narrada em dois tempos, um deles, num passado recente, na sofisticada Manhattan. Enquanto, no tempo presente, ela busca refazer sua vida, na casa de sua irmã, na California. Blanchett impressiona na construção da personagem, do luxo e a sofisticação, aliados à futilidade, ao desprezo nas comparações com a vida suburbana real, uma adaptação inconcebível.

É um novo conto moral de Allen, no ritmo de sempre, aquela coisa de comédia dramática (dessa vez, menos preocupado em “vender” a cidade). O jazz que acompanha as confusões entre personagens, oferecendo aquela suavidade de uma proposta leve, porém ambiciosa. Alec Baldwin (novamente como um endinheirado mulherengo, repetindo suas atuações de 30 Rock) é o ex-marido, Sally Hawkins a irmã que a acolhe e acaba influenciada diretamente pela presença temporária de Jasmine.

Jasmine vive na gangorra entre o fundo do poço e o luxo, e esse vai-e-vém acontece em velocidade impressionante, típica de quem já esteve lá e sabe os caminhos. Aulas de informática e sonhos de faculdade para quem já viveu os luxos de Manhattan? Allen se tornou o cara dos bons roteiros, a crítica ama, mas não dá tanto valor ao resultado como um todo. E esse é outro desses filmes para assistir, depois ir jantar, e trocar meia duzia de palavras sobre o filme. O que vai ficar mesmo é a força da atuação de Cate Blanchett, o verdadeiro presente que Allen nos deixou.

Todos Dizem Eu Te Amo

todosdizemeuteamoEveryone Says I Love You (1996 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Visto atualmente ele parece mais que um típico filme de Woody Allen, e sim um típico e atual filme do cineasta. Afinal, além do tom positivo, ele é filmado entre NYC, Paris e Veneza, quase um precursor dessa fase mais turista do diretor.

As inserções musicais, o humor padrão, o universo enorme de personagens e atores consagrados, as manias do personagem de sempre interpretado por Allen, está tudo ali. A trama principal sobre um romance nascido de uma falsa relação (o cara pega as dicas das lamentações da mulher na psicóloga e se mostra como o “homem dos sonhos”), divide muito espaço com os outros casais que se amam, se separam, vivem suas vidas de emoções. É Allen doce com o amor, vendo no brega a beleza, acreditando que nas aventuras que se tem certeza do amor.

Para Roma, com Amor

To Rome, with Love (2012 – EUA/ITA/ESP)

Woody Allen peca pelo excesso de vontade. Já falei sobre isso, ele filma demais, tem ideias demais e dá tempo de menos para elaborar melhor cada uma delas, ou desistir das que fossem desnecesárias. Fora que essa fase “turística” pode cair no mundo dos videos institucionais em prol do turismo para os ricos de gosto médio.

Ele chega a Roma e parece ter lido o manual, escrito por um estrangeiro, dos costumes para se achar engraçado dos italianos. Em pequenas histórias que se passam em Roma, Allen brinca com a celebridade instantanea, com a dificuldade de se localizar pela cidade, com situações inusitadas (que só numa comédia desse tipo caberiam) como o casal que se desencontra e só entra em confusão. São ideias demais de possíveis piadas, para efetivaçao de menos em risos, e em requinte que ele encontrou tão bem em seu filme anterior (em Paris).

O próprio Woody Allen volta a interpretar, pega a piada pronta dos cantores de banheiro e leva a sério, e a repete tantas vezes que dá a sensação de que apenas ele poderiam estar se divertindo com aquilo. A beleza de Roma aparece, mas tão de lado, já que Allen está tão preocupado com suas piadas “nada geniais”.

Dirigindo no Escuro

Hollywood Ending (2002 – EUA)

Novamente Woody Allen vem com um grande argumento, sua capacidade de criar histórias pequenas e cheias de diferencial é invejável. Um cineasta com cegueira psicossomática, tendo de esconder o problema para não ver sua carreira ir pelos ares. E se pensarmos que Allen sempre tem pequenos ensinamentos de vida para expor em seus filmes, já temos aqui a garantia da necessidade em conferir mais uma de suas obras.

O porém é que o filme para na ideia e nessas falas isoladas e cheias de ensinamentos do cineasta já que as gags não funcionam, as piadas parecem pouco desenvolvidas, a verdade é que o humor falha, e temos apenas mais um de seus trabalhos diluídos, com exageros de seu próprio toque pessoal (chega a ser irritante a incapacidade do cineasta “cego” não olhar para o lado certo quando fala com alguém), uma tentativa que não deu certo, mesmo que assim mesmo ele cutuque a critica Americana dizendo que os franceses é que o entendem, ou a fala genial dizendo que  todo marido devia ficar um pouco cego para perceber a esposa que têm (mesmo raro, mas há os casos inversos também).