EP 152 – Lars Lars Land

“É impossível ficar indiferente a um filme de Lars Von Trier (3:09)”. Essa máxima é apenas um teaser do nosso episódio especial sobre o polêmico cineasta dinamarquês. Um autor pop entre os cults, criador de uma persona controversa e de um cinema manipulador, que causa sensação nos festivais, mas coleciona detratores por ordem passa. Temos a volta especialíssima de Paula Ferraz, que traz experiências de bastidores do lançamento dos filmes do diretor, o envolvimento de Lars na divulgação de seus trabalhos, e outras curiosidades.

E claro que destacamos seu novo filme, A Casa que Jack Construiu (43:21), uma espécie de retrato de um serial-killer, mas também um filme que analisa a trajetória e o temperamento do próprio diretor. Uma novidade que dividiu muito a Varanda.

Outro destaque em pauta é o novo thriller da saga Millennium – A Garota na Teia de Aranha(1:07:50), dirigido pelo uruguaio Fede Alvarez, e com Claire Foy no papel principal da hacker sueca Lisbeth Salander.

Nas Recomendações (1:30:51) tem Operação Overlord, podcasts, o lançamento da Netflix, Legítimo Rei, além de vários destaques para quem vai acompanhar o Mix Festival. No Cantinho do Ouvinte (1:37:50), os comentários do nosso episódio anterior. Bom podcast!


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A Casa que Jack Construiu

The House that Jack Built (2018 – DIN) 

São várias as leituras possíveis no novo filme do provocador Lars Von Trier. Um filme sobre a mente de um serial killer (Matt Dillon) é o que vemos em cena, mas os diálogos e narração em off de Virgílio (Bruno Ganz), o poeta romano que serve de guia entre o Inferno e o Purgatório, na Divina Comédia de Dante, remetem a leituras muito além dessa obviedade.

Uma delas seria matar como uma forma de arte. Talvez seja nisso que Jack acredite quando se torna o Sr. Sofisticação e brinca com fotografar os cadáveres que mantem numa câmera frigorífica. O cineasta dinamarquês novamente subdivide a narrativa em capítulos e se aproveita do narrador em tom irônico didático, além, é claro, de seguir testando os limites do público com cenas de violência repugnante, e não só, mas principalmente feminicídio. Realmente Trier não está preocupado em refletir o mundo atual, sua arte manipuladora segue seus próprios caminhos e temas. E a maldade está lá, sua obra pode parecer um grande estudo sobre a maldade humana, com muitos requintes de sadismos e essa necessidade de provocar a qualquer custo.

A provocação a arte está lá, mas muitos notam outra leitura, um filme autocritico. Seria Jack um alterego do cineasta, e Trier lidando com cada um dos incidentes com as próprias fraquezas de sua vida pessoal (polêmicas, alcoolismo, a descoberta quem é o verdadeiro pai biológico, as crises criativas). Grande parte de seus filmes são relembrandos num clip de pequenas cenas, um sinal dessa possível leitura. O engenheiro assassino tenta construir uma casa, ao seu modo, durante os anos de crime, assim como Trier cria sua filmografia ao longo dos anos. Autorreferencias ou metáfora para seu círculo viciosa, temos claramente Trier zombando da sociedade e da polícia, esfregando que a indiferença impera. Seu filme é todo caricato e cheio de inverossimilhanças, tudo proposital, ele quer a ironia, a reflexão, despreocupado em capturar todos os públicos, mas capaz de provocar os adeptos de sua doutrinação maniqueísta e sádica.

Um Dia

Egy Nap / One Day (2018 – HUN) 

É meio enlouquecer a proposta desse filme hungaro em acompanhar 24 horas na vida de um casal, com três filhos. As questões financeiras, o casamento desgastado, e a rotina com as crianças (comer, brincar, escola, levar, buscar, educar, colocar de castigo, tratar da febre, etc). Dirigido por Zsófia Szilágui, o filme é tão intenso e dinâmico quanto o mar de possibilidades e vontades a serem preenchidas. O foco está na mãe, professora de italiano, mas é quase um documentário de qualquer casa com três filhos.

Facilmente identificável com pais de todo mundo, e desgastante a qualquer um por se colocar na pele daqueles adultos e com tantas demandas para controlar, o tempo todo. A câmera, quase sempre, está próxima das crianças, ou em planos fechados na mãe, o que deixa tudo mais claustrofóbico, ou fraternal, algumas vezes até amanhoso. É uma experiência interessante, amorosa em alguns momentos e angustiante em outros.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Semana da Crítica

EP 151 – O Show tem que Continuar

Bohemian Rhapsody (3:19), a cinebiografia autorizada de Freddie Mercury e do Queen, entra em debate no podcast. As polêmicas da produção, nossos questionamentos sobre a abordagem light de alguns pontos da trama, e até comentário sobre o rock da época. O filme fica, se pendura ou cai da Varanda?

Quem diria que em 2018 teríamos Orson Welles na Varanda, e com filme novo. Mesmo 33 anos após a morte do cineasta, finalmente O Outro Lado do Vento (38:13) foi concluído. E ficam perguntas como: é realmente um filme com assinatura de Orson? O grande lançamento audiovisual do ano? De quebra, comentários sobre o documentário sobre o documentário que também acaba de ser lançado na Netflix, Serei Amado Quando Morrer.

Tudo isso debatido com a presença da convidada e crítica de cinema Cecília Barroso. Além de Recomendações (1:18:00) caprichadas com dicas para o Festival do Rio, a série A Maldição da Residência Hill, os filmes Podres de Rico e Halloween, e comentários rápidos sobre o tão aguardado Roma, de Afonso Cuarón. Além do clássico Cantinho do Ouvinte (1:28:14). Bom podcast!


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Vermelho Sol

Rojo (2018 – ARG) 

Benjamin Naishtat surge como um cinema bem interessante dentro da cena argentina, por mais que seus dois trabalhos anteriores empolgavam mais na proposta do que no resultado final. Bem Perto de Buenos Aires e O Movimento, flertava com a atmosfera de terror ou do western, sempre dentro de uma marca bastante autoral. Segue com esse cinema diferente aqui, dessa vez em ritmo de thriller, nos oferece duas primeiras cenas curiosas. Na primeira, a porta de um casa e um entra e sai de vizinhos, móveis carregados, algo muito estranho. Na seguinte, uma briga, inusitada, num restaurante.

Esses dois momentos quase parecem não convergir com o restante da história, em grande parte da narrativa, até finalmente serem reincorparadas. Até lá estamos seguindo a rotina de um advogado de uma pequena cidade argentina, já sabendo o que se passou e o que ele carrega de segredo. Naishtat preocupa-se muito com a atmosfera de mistério quando um investigador chega a cidade para descobrir o paradeiro do outro envolvido na briga no restaurante.

Aonde toda essa atmosfera vai nos levar que é bastante questionável, a estranheza do embate entre investigador e advogado nos leva a uma festa ou ao deserto, em reações descontrolados na praia. Mas, Naishtat não parece saber, tão bem, o que fazer com tal atmosfera. A parte final não quer ser onírica, mas te um quê, e o resultado final é um avanço em sua carreira.


Festival: San Sebastián 2018

Mostra: Competição

Longa Jornada Noite Adentro

Long Day’s Journey into Night (2018 – CHI) 

A estreia de Bi Gan, com Kaili Blues, trazia essa sensação de que a narrativa é menos importante que a atmosfera. Naquele filme, um road movie de um médico, indo buscar o sobrinho abandonado, cuja parada num estranho local embaralha o passado e o futuro da percepção do público. O próprio diretor acredita que poderia ter feito melhor, ainda assim despertou atenção nos festivais. Seu novo filme é ainda mais calcado em fluxos de tempo e espaço, e, principalmente na memória e seus fragmentos.

Personagens com nomes de cantores, título em referência a famosas obras literárias, um estilo que relembra muito o de Wong Kar-Wai, o jovem cineasta surge como um novo poeta das imagens, dos filmes em que compreender não é o importante. Basta, ao final da projeção, ter vivido a experiência e dialogado com ela. Aqui, o filme é dividido em duas partes, na primeira em 2D, um homem pretende reencontrar a mulher amada e retorna a Kalili. A segunda é realizada num único plano-sequencia em 3D, e dialoga fortemente com alguns filmes de Kar-Wai e Hou Hsiao-Hsien, seja no rito, ou nessa capacidade de encantar com plasticidade e sentimentos sem que os mesmos precisem ser ditos em diálogos.

Seja numa sala de cinema, ao lado de uma mesa de sinuca, ou caminhando à procura de um bordel, o personagem está à procura de uma mulher, ou mais verdadeiramente das memórias de viver aquele sentimento vivido com ela. Se a busca será em vão, se o sentimento será revivido, basta ver, mas, principalmente, mergulhar na atmosfera criada por Bi Gan, se apegar apenas à narrativa totalmente confusa e complexa, é negar o que o diretor pretende realmente entregar.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Un Certain Regard

A Quietude

La Quietud (2018 – ARG) 

Em seu novo filme, Pablo Trapero camufla o tema da ditadura militar argentina com uma história familiar da relação conturbada de três mulheres. Primeiramente a cumplicidade entre as irmãs, afastada do dia-a-dia por viverem em outro país, depois a relação de cada uma delas com a mãe, e com seus maridos ou antigos amores. A trama entrega lentamente a verdadeira relação entre cada um deles, além de detalhes do passado e um capítulo de filme de tribunal que oportunamente resgata, fortemente, o tema político.

Cumplicidade x rivalidade, o luto, está tudo misturado. Trapero eleva a temperatura sexual e as crises (algumas histéricas) para intensificar essa disputa familiar, dessa forma exagera onde sutilezas seriam necessárias, além de aproveitar pouco os homens, mero coadjuvantes. É um Trapero querendo ser mais sensível, flertando com a alma feminina, mas com resultados muito aquém.