Maya

Publicado: julho 17, 2019 em Cinema
Tags:

Maya (2018 – FRA)

O novo trabalho de Mia Hansen-Love é um novo capítulo de frescor em sua filmografia. Uma viagem à Índia num prisma bem diferente do que estamos acostumados pela visão ocidental naquele país. Ao invés do estranhamento com relações sociais, alimentação e outras características, o protagonista tem é um fascínio admirável pelo país que o acolheu quando criança. E, logo após um trauma complicado (o filme tem início quando ele, jornalista, é liberado por terroristas sírios e retorna à França), busca refugío onde guarda boas lembranças.

Sem dúvida é um personagem cheio de feridas em busca de cicatriz, e como um road movie, nos faz viajar por diferentes lugares, aproveitar a paisagem, lidar com a pobreza com naturalidade, redescobrir o amor. Pode até parecer clichê na questão romântica, com tantos contrastes e sonhos diversos entre eles, mas a cineasta filma com tanta leveza que mesmo as questões mais complexas (como a predatória sede imobiliária) são duras, mas com sabor especial. Mia Hansen-Love mantém a riqueza de seu cinema através de uma disfarçada simplicidade, e mostra uma Índia a ser descoberta.

Anúncios

Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (2019)

Marcelo Gomes é um dos cineastas com filmografia das mais interessantes do cinema nacional contemporâneo. Vai desde ficções e documentários (Cinema, Aspirinas e Urubus ou Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), com forte carga pessoal, a dramas históricos, no caso Joaquim, sobre Tirandentes. Todos são filmes em que a paisagem, o ambiente, são quase personagens, e o deslocamento é figura importante nas narrativas.

Não é diferente nesse novo trabalho, partindo de lembranças de quando era garoto, Marcelo Gomes parte para um estudo sobre a cidade de Toritama (no agreste pernambucano). Não se sabe bem porque, mas a cidade se tornou um dos maiores polos produtores de jeans no Brasil. Microfabricas arranjadas nas garagens ou mesmo na calçada das casas de quase todos os moradores configura uma paisagem em que é difícil não ver todo mundo com um jeans nas mãos.

Todos trabalham na base da produtividade, ganham por quanto produzem e assim fazem suas longas jornadas de trabalho. Surge a primeira questão: vale a pena não ter chefe e trabalhar 16 horas por dia? Muitos deles respondem a questão, mas a dúvida permanece ao público, porque a vida parece fadada ao trabalho, exceção feita ao Carnaval, momento em que tudo para, todos abandonam os jeans e vendem tudo que tiver só para pagar a viagem e pular o Carnaval.

Marcelo Gomes nos faz lembrar o estilo de Eduardo Coutinho enquanto conversa com seus personagens, tão simpáticos e simples, mas que bebem dos mesmos objetivos e opiniões. Uma sociedade moldada através de uma liberdade questionável, de um capitalismo perverso, mas que parece consenso de seu preço é bem-vindo a todos de Toritama.

A Grande Dama do Cinema

Publicado: julho 3, 2019 em Cinema

El Cuento de Las Comadrejas (2019 – ARG)

Juan José Campanella está de volta, dessa vez uma homenagem ao cinema num remake de um clássico argentino da década de 70. Los Muchacos de Antes No Usaban Arsenico chegou a ser escolhido pela Argentina para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro, dirigido por José A. Martínez Suárez, conta a história dessa grande atriz do passado que vive com seu marido e dois amigos, num casarão afastado, e pretende voltar à região metropolitana.

A nova versão muda alguns personagens, mas consegue manter a essência da historia, só que aumenta a intensidade do sarcasmo e do veneno entre os personagens. E bem nesse ponto que Campanella falha, porque o filme atual é muito mais pomposo, tem o quê melodramático que o cineasta conduz como poucos, mas o roteiro exagera nos plot twists, no jogo de gato e rato e de tantas reviravoltas na trama que vai se afastando a pureza doce que a versão original se estabelecia.

The Old Man & The Gun

Publicado: julho 1, 2019 em Cinema

Robert Redford as “Forrest Tucker” in the film THE OLD MAN & THE GUN. Photo by Eric Zachanowich. © 2018 Twentieth Century Fox Film Corporation All Rights Reserved

The Old Man & The Gun (2018 – EUA)

Parece que teremos outro filme dirigido por David Lowery que não terá lançamento nos cinemas brasileiros. Dessa vez temos Robert Redford interpretando um incorrigível assaltante de bancos octagenário, que desfila charme e um sorriso marcante, enquanto abre sua bolsa e exige que os bancários limpem suas caixas registradoras.

Passa muito longe da complexidade que Clint Eastwood entregou com A Mula, aqui é mais um caso pitoresco de um homem que precisa dessa adrenalina, que vive da obsessão, ainda que encontre espaço para um amor maduro, que chega a rivalizar com essa paixão de assaltar bancos.

Jiang Hu Er Nü / Ash is the Purest White (2018 – CHI)

É perceptível que o cineasta chinês Jia Zhang-ke entrou em uma nova fase na carreira, desde Um Toque de Pecado. É um cinema mais saudosista, em As Montanhas Se Separam já se apresentava como um novelão através dde décadas, e aqui essa estrutura se repete quando a dançarina apaixonada por um mafioso é presa, e ao sair da cadeia tenta reencontrar seu amor.

Soam ecos de seus filmes e temas mais celebrados, mas aquele ar mais poético deu espaço para um sentimentalisto a seu modo enquanto as mutações da sociedade chinesa seguem correndo, paralelamente, aos personagens. É um cinema menos criatvo, mais carinhoso, e ainda assim atraente, por mais que um pouco distante de seus melhores momentos.

The Miseducation of Cameron Post (2018 – EUA)

A homossexualidade tratada, por alguns, como doença, não é novidade na história do cinema. Adaptando o livro homônimo de Emily M. Danforth, a diretora Desiree Akhavan conta sobre a jovem que é mandada para um acampamento religioso “especializado” em jovens que tenham essa propensão de atração pelo sexo oposto. Praticamente um AA para quem tem comportamentos “atípicos”.

O filme aponta a fragilidade da visão moralista que grande parte da sociedade carrega sobre a homossexualidade, e a maneira como esse grupo acredita que possa corrigir esse deslize. Passa longe de ser um coming-of-age transformador, ainda que consiga construir relações interessantes entre personagens marginalizados por essa sociedade. Akhavan não escapa muito do estigma do filme indie típico de Sundance, e pouco avança nos personagens, além da protagonista, interpretada por Chloë Grace Moretz que trafega bem entre a doçura e a solidão de sentimentos reprimidos. Bater no moralismo não é tarefa tão difícil, mas em tempos como os atuais, volta a ser mais que necessário.

Take Me Somewhere Nice (HOL – 2019)

A jovem bosnia mora com a mae na Holanda e volta a seu país para visitar o pai hospitalizado. Ela nao consegue abrir a mala, o primo é nada amistoso, e ela ali para visitar um pai que ela nem conhece. Vazio, indiferença e ingenuidade se misturam com liberdade, aventuras, tristeza, melancolia e sexo num road movie curioso, e meio torto, numa sociedade que ainda tenta se refazer das feridas de guerra. Dirigido com jovialidade  por Ena Sendijarević, com traços de um cinema nórico mais gélido, com um quê de indie americano dos balcãs.


Festival: Rotterdam 2019