Em Ritmo de Fuga

Baby Driver (2017 – EUA) 

Nos fones de ouvido, que não tira em nenhum momento, música pop para disfarçar o zunido intermitente (resultado de um acidente quando ainda era criança). Baby (Ansel Elgort) é o ás ao volante, com feições de anjinho, que espera para acelerar com seu arrojo e habilidade, após mais um assalto da quadrilha liderada por Doc (Kevin Spacey). Sua figura de bom moço, que cuida do pai adotivo debilitado, e se apaixona pela garçonete da lanchonete de beira de estrada, não parece se encaixar com a de tímido, e fechado, motorista de fuga de assaltos espetaculares.

A trama irá cuidar de explicar esses detalhes, enquanto o romance e as sequencias de ação alucinantes, sempre acompanhadas de música pop antiga, deixam alucinados grande parte do público. Ação, comédia e romance, não é de hoje que o britânico Edgar Wright vem se destacando por um estilo próprio de cinema, mas sempre acabava preso a um público restrito, praticamente um nicho dentro da cinefilia geek. Seu humor,a edição acelerada, e um quê de super-herói nerd, que encontrou em Scott Pilgrim Contra o Mundo, praticamente, a tradução do êxtase, entre super-poderes, muito videogame e romance – e aquele filme realmente é uma delícia.

O que temos dessa vez é um Edgar Wright para um público mais amplo, filmando nos EUA. E não decepciona, e talvez até entregue o seu melhor filme. O impressionante é como ele não traiu suas origens, e conseguiu implementar outras características que deixaram seu filme: mais pop, mais frenético, porque não mais família? E também mais caricato, é verdade, mas, acima de tudo, mais visível (já é o seu maior sucesso de bilheteria). Consegue ser o Velozes e Furiosos que alguns (eu) gostariam de ver, mas nunca encontraram essa leveza pop, essa descontração moderna. Wright nos entrega planos-sequencias de triar o fôlego, enquanto a trilha sonora vital, e vibrante, mistura essa energia com um swing que dificilmente não te deixe o sabor de querer revê-lo em breve.

EP 84 – Corra, Baby, Corra

O destaque da semana é o badalado Baby Driver (30:52), no Brasil chamado Em Ritmo de Fuga. Um filme que mistura gêneros, com doses de comédia, action movie e referências a musicais. A arrancada do diretor britânico Edgar Wright aos Estados Unidos indica mudanças de estilo? E, afinal, quem é este cineasta cult (9:30) e quais as suas principais referências? Chico Fireman, Cris LumiMichel Simões e Tiago Faria dão opiniões bem divididas sobre um dos longas mais comentados da temporada.

Na segunda parte do programa, um papo sobre spoilers (54:52). Alguns lidam bem com as informações sobre tramas de filmes e séries. Outros morrem de ódio de quem espalha segredos das narrativas. Você já deixou de assistir um filme, ou série, por conta de algum spoiler?

E mais: Cantinho do Ouvinte, Varandeiro do Zodíaco sobre leoninos (1:25:00) e Recomendações (1:30:00), com uma pitada das novidades da Comic-Con. Bom podcast!

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História de Taipei

Qing Mei Zhu Ma / Taipei Story (1985 – TAW) 

As transformações econômicas da Taiwan dos anos 80 traduzidas num único filme. Quase podemos definir assim a proeza do cineasta Edward Yang, em seu terceiro longa-metragem. O país cresce, se moderniza, ganha destaque econômico, as transformações trazem adaptações (muitas vezes não tão fáceis). Yang se notabiliza pela narrativa cinematográfica hipnótica, através de silêncios, de personagens olhando para a cidade que não pra de crescer, ou apoiado pela musica pop que se mistura com adultos ativos e suas dificuldades dessa adaptação.

No centro temos o ex-promissor jogador de baseball (ninguém menos que Hou Hsiao-hsien atuando) e que agora trabalha numa fábrica de tecidos, e sua esposa (Tsai Chin), executiva de uma construtora à beira da falência. A chegada de capital e da cultura ocidental e suas mutações são sentidas por esse casal, Yang desenvolve histórias e conflitos de personagens que orbitam o casal, enquanto a velocidade das transformações engole o saudosismo e os que não estão preparados à adaptação.

De Canção em Canção

Song to Song (2017 – EUA) 

Atualmente, é possível observar que A Árvore da Vida era o prenuncio da nova fase da carreira de Terrence Malick. Fase esta que testa a paciência de seus fãs, e pouco se esforça em angariar novos. Os três filmes a seguir (Amor Pleno, Cavaleiro de Copas e este novo) quase formam uma obra única, fechada nesse cinema sensorial, de narração em off com frases edificantes, enquanto a câmera baila por enquadramentos que buscam a intimidade máxima e elegante de corpos que se encontram ou que refletem o vazio.

Amor Pleno tinha o triângulo amoroso e a dor, já o Cavaleiro de Copas é ainda mais próximo que esse novo filme, ali um escritor (Christian Bale) vivia de festas luxuosas, sexo farto e grandes vazios. Malick mergulha seus personagens em Austin, o berço da cultura indie americana. Todos os personagens ligados a festival de rock, formando dois triângulos amorosos. Mesmo com a tendência de explorar a classe artística, não se nota em Malick a preocupação sua critica sobre o vazio existencial, a vida de luxos e luxúrias. Não, Malick parece mesmo sensibilizado pelo amor, pelas relações pessoais vindas do amor e do sexo. Além da separação, a dor, a reconciliação, o desprezo e a dependência. E seus filmes flutuam, sempre com as narrações em off que traduzem sentimentos, enquanto tentam ensinar (elucidar) ao público. Em todo esse contexto, surgem algumas cenas lindas, mas não deixa de ser um cinema cansado e circular.

EP 83 – Desconstruindo Malick

De quase unanimidade entre cinéfilos a um autor que divide opiniões: esta semana, Chico FiremanMichel Simões e Tiago Faria batem um papo sobre os altos e baixos do cinema de Terrence Malick (13:01). Os varandeiros discutem a carreira do diretor, destacando os dois longas mais recentes (28:13): Cavaleiro de Copas, disponível na Netflix, e De Canção em Canção, que chega às telas esta semana.

A estreia na direção do roteirista Felipe Sholl também tem seu espaço no podcast: o drama Fala Comigo (50:27) traz um tema polêmico e personagens instigantes.

E mais: Cantinho do Ouvinte, as primeiras impressões sobre a nova temporada de Game of Thrones, recomendações (com participação de Cris Lumi) e nossa homenagem a George A. Romero e Martin Landau. Bom podcast!

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Mulher do Pai

Mulher do Pai (2016) 

O que há de melhor no filme da diretora Cristiane Oliveira, que foi exibido numa das mostras paralelas do Festival de Berlim, é permitir a mudança a seus personagens. Num canto asfaltado dos grandes centros, na divisa do Rio Grande do Sul com o Uruguai, temos a história da adolescente Malu (Maria Galant) e seu pai cego (Marat Descartes). Pelos olhos atentos e singelos da diretora, acompanhamos a mutação desses dois personagens quando a avó vem a falecer. Sem a matriarca, e epicentro da família, temos a jovem que precisa assumir afazeres da casa, enquanto vive a descoberta da sexualidade. E um homem que vê a necessidade de criar o diálogo que nunca manteve com a filha, nesse momento em que orientação e limites são assuntos complexos e passíveis de desgaste.

A sexualidade de pai e filha colocados à prova, o ciúmes pela aproximação de qualquer estranho a esse habitat, o futuro de baixas expectativas, está tudo ali naquela casa simples, naquela relação que parece ter se reconstruir, em que a guerra de egos pode tornar tudo uma panela de pressão. Em um dado momento, a filha narra uma sequencia do filme Transformers, que passava na tv, pode parecer um momento simples, mas é possível entender um pouco do aprendizado em ser pai e da filha meio adulta, meio criança.