Judas e o Messias Negro

Publicado: fevereiro 8, 2021 em Cinema

Judas and the Black Messiah (2021 – EUA)

Com os cinemas abertos e vida normal, o filme até poderia ser a gasolina que faltava para incendiar as fogueiras das discussões raciais que estão acaloradas nos EUA, e em outros lugares. Afinal, trata da morte, aos 21 anos, de um dos líderes dos Panteras Negras em Chicago, nos anos 60. Com essa distribuição fragmentada e interesse de um público menor por cinema nessa pandemia, não espero o impacto todo. Mas, eu disse poderia porque o filme tem boas doses de engessamento em sua narrativa, e o que poderia ser furor, também pode soar cansativo.

Começa bem charmoso entre trilha sonora, num bar, um plano que deu errado para um assaltante de carros que acaba nas mãos da polícia e a proposta de ficar preso ou se infiltrar nos Panteras Negras. Baseado em fatos reais, o filme recria esse aproximação de O’neal (Lakeith Stanfield) com Fred Hampton (Daniel Kaluuya) até sua morte. Depois desse início, apenas a cena do tiroteio é destacável, o restante parece bem preso a necessidade de contar cronologicamente fatos, de mostrar o envolvimento do FBI, além de alguns discursos e aspectos da vida particular de Hampton. Fica entre a cinebiografia política e o cinema policial, sem encontrar seu corpo ideal, mas tem Kaluuya formidável, como sempre.

The United States vs. Billie Holiday

Publicado: fevereiro 1, 2021 em Cinema

The United States vs. Billie Holiday (2021 – EUA)

Depois de duas tragédias em forma de filmes que ele cometeu (Preciosa e O Mordomo da Casa Branca, não vi Obsessão), o nome de Lee Daniels me dá arrepios, e por isso é um grande alívio o resultado final dessa cinebiografia sobre a genial Billie Holiday. Não se trata da biografia completa de uma das maiores cantoras de jazz da história, o foco se dá na perseguição que ela sofreu pelo Departamento Federal de Narcóticoperseguição essa que ela acreditava ser planejada para puni-la por cantar Strange Fruit (poderosa música sobre linchamento de negros nos anos 30, e considerada algumas vezes a música do século).

Felizmente o cinema americano dessa temporada abriu as portas para filmes dirigidos por negros, é bem verdade que a maior parte dos que tiveram mais destaques são de personagens músicos negros, mas faz sentido porque foi talvez o primeiro espaço importante conquistado nessa luta eterna por justiça social. E o trabalho de Lee Daniels consegue escapar da sensação de teatro filmado que Uma Noite em Miami ou A Voz Suprema do Blues. Há boas doses de charme nas apresentações musicais, na relação com o agente do FBI, e uma clara preocupação em manter o tema perseguição e Strange Fruit em detrimento a questões de saúde ou focar nos relacionamentos amorosos conturbados.

Mas, é um filme de Lee Daniels, logo a sua busca pela compaixão do público por seus personagens é incessante, seu didatismo é latente, e o que se configurava como um filme que parecia surgir insinuante vai se desfazendo a cada nova fase na vida de Billie. Todo o arco dramático é sempre visual, você enxerga as dificuldades e sofrimento na pela da ótima atriz Andra Day, mas o filme é de complexidade rasa, a vida de gato e rato com a perseguição policial não dá cabo de sua personalidade e o próprio filme sofre dessa cegueira parcial.

Voltei!

Publicado: janeiro 24, 2021 em Cinema

Voltei! (2021)

É mais um tijolo dessa bonita construção que a dupla Glenda Nicário e Ary Rosa vem criando com sua filmografia. Ainda que a estreia tenha sido o mais saboroso dos trabalho, o conjunto de agora quatro longas-metragens é rico em fincar suas posições políticas e sociais, além de trazer uma baianidade que o cinema brasileiro deveria estar carente.

O novo filme também é sobre o reencontro de irmãs numa noite, mas dessa vez a política está no centro da trama. O ano é 2030, o STF pode finalmente seguir com um pedido para acabar com um governo militar que está 8 anos no poder após fechar o Congresso e instaurar o caos. As casas vivem sem energia elétrica. No radinho de pilha as irmãs ouvem os votos de cada juiz até que a irmã reaparece dos mortos.

Ironia, bom humor, por lembranças e pequenas histórias o que se constrói são os ecos de uma ditadura moderna, com as violências e absurdos do que vivemos não faz tanto tempo. O contexto parece melhor desenhado do que o conjunto de diálogos, mas dentro de sua irregularidade há esse contexto forte, essa mensagem direta de quem imaginou um futuro que ameaçam, mas que esperamos que esteja completamente fora de qualquer horizonte possível.

Até o Fim

Publicado: janeiro 23, 2021 em Cinema

Até o Fim (2020)

Outro bom trabalho de Glenda Nicácio e Ary Rosa. A noite de encontro de 4 irmãs que se preparam para a anunciada morte do pai. A câmera frenética se movimenta entre rostos e mãos, enquanto elas riem e brigam, lamentam passado e escolhas, quase sempre diferentes níveis de abuso masculino são a tônica da conversa, mas há também a diferença de idade e mentalidade, o choque de gerações evidenciado por quem se distanciou da cidade natal. Um cinema interessante e consistente tem feito essa dupla, ainda gosto mais de Café com Canela que dialoga com grande parte do interior desse Brasil, mas esse é um curioso misto do íntimo dele com a questão estética e pulsante de Ilha

Querência

Publicado: dezembro 19, 2020 em Cinema, Mostra SP
Tags:

Querência (2019)

Interior de Minas Gerais, fazenda e rodeio, o diretor Helvécio Marins Jr utiliza seus amigos vaqueiros como atores para sua história. Ao invés de qualquer glamour, cenas da beleza bruta do campo, do gado, da natureza. Nos diálogos a simplicidade, o sotaque carregado, o estilo documental que lembra seu trabalho anterior (Girimunho). Na trama há sonhos, decepções, um crime, muitas rimas, Helvécio nem parece tão interessado assim pela trama, ela talvez esteja lá só para cumprir um espaço, e por isso seja irregular. A sensação mais genuína é de o diretor está realmente filmando o que lhe interessa, e daquilo criando uma história que possa entreter.

O que Arde

Publicado: dezembro 15, 2020 em Cinema, Mostra SP
Tags:, ,

Lo Que Arde / Fire Will Come (2019 – ESP)

Oliver Laxe vai se firmando como um cineasta de sensações. O faroeste em Marrocos de Mimosas não me cativou, mas ficou muito a sensação do sol, da areia, do calor. Aqui ele filma na Galícia (onde cresceu) e transfere esse cinema sensitivo para a floresta, para uma cidade pequena e o ritmo pacato de vida da região. Um piromaníaco volta à cidade para cuidar da mãe octagenária depois de alguns presos por incêndio criminoso.

A segunda metade do filme é acalorada com um incêndio propriamente dito, a luta por controlá-lo, flamejante e pungente, se divide com o pré-julgamento de que seria, novamente, o piromaníaco que tenha o causado. E a reação popular é forte, com dedo em riste. Oliver Laxe não parece querer poetizar nada, mas reflete bem a busca por vilões, a intolerância e a pressa da humanidade por decidir pontos que nem vão solucionar a questão em si.  

Di Jiu Tian Chang / So Long, My Son (2019 – CHI)

Que saga dolorosa construiu aqui o diretor Wang Xiaoshuai. A incurável dor do luto, que atravessa décadas. O cineasta chinês acompanha dois casais de amigos durante anos, principalmente o casal cujo filho morre tragicamente. O filme é situado na década de 80, a partir das mudanças política, culturais e econômicas chinesas. 

A dor é comovente, o melodrama dolorido, por isso os atores foram premiados no festival de Berlim (e realmente merecem), mas Xiaoshuai vai além ao traduzir um pouco do instinto de família que move o povo chinês. É uma relação que o brasileiro tem se afastado, mas o povo chinês ainda cultiva a família como as pessoas mais presentes em suas vidas. As transformações do país são represntadas na dos dois casais, alegrias e tristezas, sucessos e insucessos, além de todo o peso da tragédia que cada um carrega, a seu modo. Prepare os lenços porque são três horas valiosas de um cinema simples e certeiro.

A Febre

Publicado: dezembro 7, 2020 em Cinema
Tags:,

A Febre (2019)

Interessante como há jeitos, e jeitos, de se fazer as coisas, e no cinema não é diferente. A fórmula latina do slow movie focado nas aguras de um único personagem já cansou o pouco, mas Maya Da-Rin rapidamente me fez esquecer desse possível desgaste da fórmula até porque a fórmula representa não apenas esse personagem, ele está ali identificando todos os índios que migraram para a cidade e vivem nesse processo de “adaptação”. Então o filme o segue no ônibus, entre os containeres em seu emprego no porto de Manaus, mas também guarda os momentos em família, em sua casa, quando ele fala sua própria língua, conta histórias, pode se aproximar, mesmo que um pouquinho, do que ele é, era, ou gostaria de ser.

Pode-se encontrar traços de Apichatpong aqui e ali, mas Da-Rin não está imitando ninguém, seu filme é cativante exatamente por incluir a questão indígena no aspecto do drama social, e nisso a cena final é crucial e eleva o todo, talvez fosse o único caminho do possível depois da trajetória que a narrativa constrói. O índio é quieto, quase todas as interações são no vestiário, na troca com o outro guarda, e como incomoda aquele personagem, de piadinhas hostis, de preconceito vil, aquele que está enraizado em todos nós, de diminuir quem já se coloca num status inferior por definição

Samy e Eu

Publicado: dezembro 6, 2020 em Cinema
Tags:,

Samy y Yo (2002 – ARG)

Um típico produto do cinema argentino do início dos anos 2000, quando eles conquistaram o mundo (o circuito alternativo do  Brasil então…) com doses de humor e narrativas populares, além, é claro, de Ricardo Darín.

Dirigido por Eduardo Milewicz, uma comédia de crises amorosas e familiares, e também um olhar para a crise dos 40 anos. Aqui a história é de um roteirista de tv, de vida estagnada e crise existencial, que tem a vida revirada quando aparece uma colombiana maluquinha e transforma o tímido e atrapalhado em sucesso frente as telas. Além das interações românticas e/ou divertidas entre Cepeda-Darín, há ainda no filme essa crise da idade, a complexidade das relações familiares (mae-filho, pai-filho), tudo travestido de momentos cômicos de todo tipo que são o combustível da história.

Pacarrete

Publicado: dezembro 5, 2020 em Cinema, Mostra SP
Tags:,

Pacarrete (2019)

Sensação no Festival de Gramado, o longa-metragem dirigido por Allan Deberton oferece a Marcélia Cartaxo palco para ela brilhar numa personagem controversa, divertida, e profundamente triste. Ela nos faz rir com sua empolgação dos tempos de bailarina em Fortaleza, sua mania de misturar o francês e o português, e de beber de um tipo de cultura artística que não dialoga muito com o gosto popular. Na pequena cidade de Russas, tudo soa como excêntrico, e suas manias e egocentrismo apenas a tornam uma moradora peculiar, imcompreendida, quase uma megera.

Em entrevistas, o cineasta afirma que conheceu a verdadeira Pacarrete na infância, e não é de surpreender que alguém assim viva alimentada de seus sonhos, suas paixões obsessivas e dessa fuga da realidade. De outro lado, toda essa empolgação e via cômica guarda uma pessoa tão solitária, e amargurada por suas decepções. Nesses momentos, Cartaxo volta a surpreender com com essa sensação de pesar, com o desencanto de quem não perde a pose, mas por dentro vive em frangalhos.