Querência

Publicado: dezembro 19, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Querência (2019)

Interior de Minas Gerais, fazenda e rodeio, o diretor Helvécio Marins Jr utiliza seus amigos vaqueiros como atores para sua história. Ao invés de qualquer glamour, cenas da beleza bruta do campo, do gado, da natureza. Nos diálogos a simplicidade, o sotaque carregado, o estilo documental que lembra seu trabalho anterior (Girimunho). Na trama há sonhos, decepções, um crime, muitas rimas, Helvécio nem parece tão interessado assim pela trama, ela talvez esteja lá só para cumprir um espaço, e por isso seja irregular. A sensação mais genuína é de o diretor está realmente filmando o que lhe interessa, e daquilo criando uma história que possa entreter.

O que Arde

Publicado: dezembro 15, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Lo Que Arde / Fire Will Come (2019 – ESP)

Oliver Laxe vai se firmando como um cineasta de sensações. O faroeste em Marrocos de Mimosas não me cativou, mas ficou muito a sensação do sol, da areia, do calor. Aqui ele filma na Galícia (onde cresceu) e transfere esse cinema sensitivo para a floresta, para uma cidade pequena e o ritmo pacato de vida da região. Um piromaníaco volta à cidade para cuidar da mãe octagenária depois de alguns presos por incêndio criminoso.

A segunda metade do filme é acalorada com um incêndio propriamente dito, a luta por controlá-lo, flamejante e pungente, se divide com o pré-julgamento de que seria, novamente, o piromaníaco que tenha o causado. E a reação popular é forte, com dedo em riste. Oliver Laxe não parece querer poetizar nada, mas reflete bem a busca por vilões, a intolerância e a pressa da humanidade por decidir pontos que nem vão solucionar a questão em si.  

Di Jiu Tian Chang / So Long, My Son (2019 – CHI)

Que saga dolorosa construiu aqui o diretor Wang Xiaoshuai. A incurável dor do luto, que atravessa décadas. O cineasta chinês acompanha dois casais de amigos durante anos, principalmente o casal cujo filho morre tragicamente. O filme é situado na década de 80, a partir das mudanças política, culturais e econômicas chinesas. 

A dor é comovente, o melodrama dolorido, por isso os atores foram premiados no festival de Berlim (e realmente merecem), mas Xiaoshuai vai além ao traduzir um pouco do instinto de família que move o povo chinês. É uma relação que o brasileiro tem se afastado, mas o povo chinês ainda cultiva a família como as pessoas mais presentes em suas vidas. As transformações do país são represntadas na dos dois casais, alegrias e tristezas, sucessos e insucessos, além de todo o peso da tragédia que cada um carrega, a seu modo. Prepare os lenços porque são três horas valiosas de um cinema simples e certeiro.

A Febre

Publicado: dezembro 7, 2020 em Cinema
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A Febre (2019)

Interessante como há jeitos, e jeitos, de se fazer as coisas, e no cinema não é diferente. A fórmula latina do slow movie focado nas aguras de um único personagem já cansou o pouco, mas Maya Da-Rin rapidamente me fez esquecer desse possível desgaste da fórmula até porque a fórmula representa não apenas esse personagem, ele está ali identificando todos os índios que migraram para a cidade e vivem nesse processo de “adaptação”. Então o filme o segue no ônibus, entre os containeres em seu emprego no porto de Manaus, mas também guarda os momentos em família, em sua casa, quando ele fala sua própria língua, conta histórias, pode se aproximar, mesmo que um pouquinho, do que ele é, era, ou gostaria de ser.

Pode-se encontrar traços de Apichatpong aqui e ali, mas Da-Rin não está imitando ninguém, seu filme é cativante exatamente por incluir a questão indígena no aspecto do drama social, e nisso a cena final é crucial e eleva o todo, talvez fosse o único caminho do possível depois da trajetória que a narrativa constrói. O índio é quieto, quase todas as interações são no vestiário, na troca com o outro guarda, e como incomoda aquele personagem, de piadinhas hostis, de preconceito vil, aquele que está enraizado em todos nós, de diminuir quem já se coloca num status inferior por definição

Samy e Eu

Publicado: dezembro 6, 2020 em Cinema
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Samy y Yo (2002 – ARG)

Um típico produto do cinema argentino do início dos anos 2000, quando eles conquistaram o mundo (o circuito alternativo do  Brasil então…) com doses de humor e narrativas populares, além, é claro, de Ricardo Darín.

Dirigido por Eduardo Milewicz, uma comédia de crises amorosas e familiares, e também um olhar para a crise dos 40 anos. Aqui a história é de um roteirista de tv, de vida estagnada e crise existencial, que tem a vida revirada quando aparece uma colombiana maluquinha e transforma o tímido e atrapalhado em sucesso frente as telas. Além das interações românticas e/ou divertidas entre Cepeda-Darín, há ainda no filme essa crise da idade, a complexidade das relações familiares (mae-filho, pai-filho), tudo travestido de momentos cômicos de todo tipo que são o combustível da história.

Pacarrete

Publicado: dezembro 5, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Pacarrete (2019)

Sensação no Festival de Gramado, o longa-metragem dirigido por Allan Deberton oferece a Marcélia Cartaxo palco para ela brilhar numa personagem controversa, divertida, e profundamente triste. Ela nos faz rir com sua empolgação dos tempos de bailarina em Fortaleza, sua mania de misturar o francês e o português, e de beber de um tipo de cultura artística que não dialoga muito com o gosto popular. Na pequena cidade de Russas, tudo soa como excêntrico, e suas manias e egocentrismo apenas a tornam uma moradora peculiar, imcompreendida, quase uma megera.

Em entrevistas, o cineasta afirma que conheceu a verdadeira Pacarrete na infância, e não é de surpreender que alguém assim viva alimentada de seus sonhos, suas paixões obsessivas e dessa fuga da realidade. De outro lado, toda essa empolgação e via cômica guarda uma pessoa tão solitária, e amargurada por suas decepções. Nesses momentos, Cartaxo volta a surpreender com com essa sensação de pesar, com o desencanto de quem não perde a pose, mas por dentro vive em frangalhos.

Malina

Publicado: novembro 14, 2020 em Cinema
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Malina (1991 – AUT)

É menos a história dessa mulher dividida entre amores com dois homens tão diferentes, e bem mais um frenético mergulho na autodestruição psique de uma poetisa, cujo dois relacionamentos intensificam esse processo. Werner Schroeter adapta o livro da austríaca Ingeborg Bachman, notória feminista de morte precoce, as cores fortes, o constante uso de ópera, além de outros elementos de seu cinema colaboram muito em intensificar esse estado destrutivo. A protagonista sem nome escreve cartas, traz lembranças demoníacas do pai, encontra diversão e prazer sexual entre seus parceiros e cria acessos de loucura nessa mente perturbada que caminham para sua destruição. É um filme vibrante, cheio de paixão e cigarros e cartas, enfim, dos excessos Schroeter descontroi sua personagem entre fogos e autoflagelo.

Tenet

Publicado: novembro 13, 2020 em Cinema
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Tenet (2020 – EUA)

A Origem, Interestellar, e até Dunkirk, mas tudo começou mesmo com Following e Amnésia. É clara essa obsessão de Christopher Nolan por linhas do tempo, inclusive seu cinema é muito combatido por um excesso de explicações, mas, afinal, fazer o publico entrar na lógica dessas histórias requer explicações 

Tenet é o Nolan abusando das linhas do tempo e do superlativo, seu thriller de espionagem nega o time travel, mas realiza um vai-e-vem no tempo que requer muita, mas muita explicação, com linhas paralelas, e outras artimanhas que vou evitar os spoilers.

O conceito é interessante, permite ao filme cheio de ação inúmeras possibilidades que o desenrolar da trama apresenta. Porém, a trama de espionagem em si já é tão cheia de discussões sobre bombas, elementos químicos e etc, que por si só pedem inúmeras informações. Fora isso, a coisa da linha do tempo requer ai da mais explicações. O resultado não é só um filme, mas uma enxurrada de informações a todo instante. Massante, confuso. E ha ainda o superlativo, quando a ambição de inovar é tão grande que o fodo nem parece caber ali.

E o que deveria ser o trunfo, algumas das cenas de ação, padecem exatamente do conceito inovador, em especial as cenas de ação quase parecem em câmera lenta, Coreografadas, tudo muito teleguiado. Nolan, não deu.

Monos

Publicado: novembro 13, 2020 em Cinema
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Monos (2018 – COL)

O cineasta Alejandro Landes nos convida à selva amazônica colombiana. Em planos belíssimos, o filme abre com um grupo jogando futebol, com os olhos vendados, numa espécie de ruínas, no alto de uma montanha. A seguir descobrimos que se trata de um grupo jovens guerrilheiros que sequestraram uma engenheira americana. Uma organização, um braço da Farc, que aprende com os guerrilheiros mais experientes, mas tem sua independência. Um bando de jovens inexperientes, seguros de si, que empunham armas e se embrenham na selva. Talvez sem nenhuma inclinação político-social, a não ser o único estilo de vida que conhecem, ou podem imaginar viver.

O filme de Landes é intenso, entre o lamaçal, mosquitos e violência, o grupo tem disputa de poder, romances, e a imaturidade colocada à prova. Mas, o instingante do filme é esse mergulho instintivo em personagens e o meio em que vivem, algo que vai ao primitivo, que consegue ser aflitivo e triste por energar a juventude que se esvai tão fácil, que luta pela sobrevivência sem nem saber quais outras opções poderia viver.

Verão de 85

Publicado: novembro 12, 2020 em Cinema
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Été 85 (2020 – FRA)

François Ozon não cansa de mencionar em entrevistas que encantou pelo livro, quando o leu em 1985, que tinha a mesma idade do protagonista naquela época, e escreveu um roteiro há trinta anos, e gostaria que tivera sido seu primeiro filme. Realmente o filme consegue ser puro cinema de Ozon, thriller, romance e sexo, momentos de leveza, e outros uma atmosfera que flerta, mas nunca chega nem perto, com o horror. Ao mesmo tempo, essa condensação de seu cinema, ainda passa longe dos momentos mais gloriosos de sua filmografia.

Há um romance prazeroso, os dois jovens, velejar, aventuras, a praia na Normandia, a trilha pop (Cure, Rod Stewart, etc), a mãe destrambelhada, é fácil cair nas garras do filme. Por outro lado, desde o primeiro momento, já sabemos que um deles está morto, e que o outro deve explicações na justiça. O thriller e o romance se encontram, Ozon realiza um filme tão solar, que mesmo os picos dramáticos, as questões mórbidas, os arrombos de mágoas, se entrecruzam para desaguar muito mais no simpático e bonitinho, do que no desconcertante e emocionante.