Estopô Balaio

Estopô Balaio (2017 – BRA) 

Sempre curioso quando um filme resgata alguma questão afetiva pessoal mais forte, o documentário de Cristiano Burlan me fez recordar da minha avó e de parte da minha infância imediatamente. Explico: durante muitos anos, para as visitar semanais que fazíamos, precisava esperar por horas o ônibus Jardim Romano, que ficava muito perto de sua casa.

Lá, diversas vezes, ouvia histórias das dificuldades dos moradores do bairro, principalmente das enchentes. E o documentário mira exatamente nessas lembranças, as cruéis e absurdas histórias absurdas das enchentes. Um bairro de pessoas tão humildes e que perderam muitos bens materiais (sofá, cama, televisão), mas principalmente enfrentaram semanas vivendo em ruas que se tornaram rios, com água até o joelho, e chegando a se locomover de barco. Entre o absurdo e o descaso, um local só recordado, pelo restante da cidade, quando a situação atinge um ponto de aberração desse tipo.

Entre personagens encatadoras e pequenos movimentos culturais, Burlan nos convida a alternar a tragédia coletiva em pequenas tragédias pessoais aos nos apresentar a vida cotidianda de alguns personagens. Num paralelo recordar histórias e capas de jornal, enquanto faz um paralelo com alguns movimentos culturais do bairro que tentam resgatar a vida em coletivo e as desesperanças pessoais. Dentro da simplicidade de sua proposta, Estopô Balaio deixa registrado quem vive como todos, mas ainda clama apenas pelo básico.

EP 70 – Os Velozes e a Furiosa

Vrummm! A Varanda entra no ritmo acelerado da franquia que bate recordes de bilheteria a cada filme. Chico Fireman, Michel Simões e Tiago Faria batem um papo sobre Velozes e Furiosos 8 (13:32) e relembram os capítulos anteriores da série. Sem tirar o pé do acelerador, elegem os melhores filmes de ação dos anos 2000 (35:33), em mais um clássico Top 5 da Varanda.

Martírio (1:06:42) está em cartaz nos cinemas, e trazemos as impressões sobre esse poderoso documentário brasileiro sobre décadas de perseguições e massacres dos índios Guarani Kaiowá. E mais: um Cantinho do Ouvinte repleto de comentários e, com Cris Lumi, recomendações ecléticas: tem filmes, séries, música e festivais para ficarmos de olho. Bom podcast!

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Loving

Loving (2016 – EUA) 

Em Cannes, o ator Joel Edgerton declarou que o que mais o espanta é este tipo de filme ainda ecoar. É fato, Edgerton, mas não só ecoa, como anda mais em voga do que nunca. É a história de um casal interracional, lutando para ficarem juntos. Detalhe, lutando contra a justiça e a sociedade. Casados em 1958, em Virgínia, e a luta deles ajudou para que a Suprema Corte acabasse com a proibição de casamentos interracias nos EUA.

É uma longa batalha, de prisões e separações, de viver às escondidas, de preconceitos e provocações contra Richard (Joel Edgerton) e Mildred (Ruth Negga) Loving. O filme todo é narrado de forma sóbria, sem sair do tom, sem grandes arrombos, tal qual o comportamento de ambos os personagens, talvez seja o grande filme de Jeff Nichols (que vinha colecionando uma série de quases), mas aqui oferece espaço para duas grandes interpretações, além de não se entregar ao sentimentalismo barato que o gênero poderia oferecer.

É, sem dúvida, um dos destaques do ano, e merecia mais destaque do que tem tido. Imaginar que há cinquenta anos poderia haver uma proibição deste tipo, e que tantas pessoas realmente se importariam em perseguir um casal é um belo exemplo do quanto a humanidade ainda está longe de evoluir.

As Falsas Confidências

Les Fausses Confidences (2016 – FRA) 

O jogo proposto pelo diretor Luc Bondy é tão bobo que diverte, exatamente, por ser clara tão inverossímil. Dentro de um casarão, blefes e artimanhas para um secretário particular (Louis Garrel), interesseiro, conquistar o coração da patroa (Isabelle Huppert) que está prestes a aceitar um casamento arranjado a fim de evitar brigas de posse na justiça.

Empregados envolvidos, ou apaixonados por esses personagens, completam o tabuleiro de xadrez, cuja narrativa varia entre o filme de época atualizado. Importantes ressaltar o forte encontro entre cinema e teatro do proejto, as filmagens ocorreram durante o dia (fotografia tão solar e iluminada), porque à noite os mesmos interpretavam os mesmos personagens na peça de teatro. O sabor maior está em permitir que tais blefes e artimanhas se desenrolem à sua frente, entre o divertido e o ingênuo, com pitadas de frívolo e falsas confidências espalhadas por todos os cantos.

EP 69 – Já Visto, Jamais Visto

Quando algum filme muito aguardado não chega aos cinemas, a sensação entre os cinéfilos é inevitável: decepção. Esta semana, a expert em distribuição Paula Ferraz explica os bastidores desse processo: onde os filmes são negociados e qual o percurso deles até estrear? Por que longas tidos como importantes permanecem inéditos, e jamais vistos (10:43)? Qual o papel do streaming no mercado brasileiro?

Chico Fireman, Michel Simões e Tiago Faria aproveitam para discutir dois desses filmes ainda não lançados. Em Nocturama (46:01), dirigido por Bertrand Bonello, um grupo de jovens terroristas comete um atentado em Paris. Já Quase 18 (1:09:34), da estreante Kelly Fremon Craig, traz uma personagem que parece saída de um filme de John Hughes.

E mais: Cantinho do Ouvinte, nova rodada recheada de Recomendações e uma surpresa para nossos ouvintes. Bom podcast!

ATENÇÃO: Paula trouxe brindes para nossos ouvintes. Para saber quais são, só ouvindo o podcast até o fim.

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A Reconquista

La Reconquista (2016 – ESP) 

O quarto longa-metragem do cineasta Jonás Trueba (indicado a 13 Goyas, e que ficou sem prêmios) dialoga muito com seu trabalho de estreia (Todas As Canções Falam de Mim), e pode ser facilmente comparado à Antes do Por do Sol, de Richard Linklater. Tem no amor o eixo central de sua narrativa, durante uma noite de conversa de um reencontro de um ex-casal.

Ambos na casa dos trinta anos, ela se mudou para Buenos Aires, ele vive com a namorada em Madrid, e cruzam a cidade relembrando o relacionamento de quando tinham quinze anos. Trueba está testando o emocional de cada espectador, o peso do primeiro amor, as frustrações amorosas de pessoas mais maduras, a clara tentação de resgatar algo que estava hibernando, ou morto. Assim como seus personagens, o diretor amadureceu como personagem, usa melhor os recursos narrativos, mas mantém o espírito do amor pungente, e sabe dialogar com quem gosta de acompanhar os encontros e desencontros que a vida proporciona.

Mistério da Costa Chanel

Ma Loute (2016 – FRA) 

O curioso cinema de Bruno Dumont. Seus trabalhos mais recentes carregam esse humor caracterico, de personagens facilmente marginalizados por suas imperfeições, bizarrices, ou leves deformações. São comédias de personagens feios, que carregam outras obsessões de seus primeiros filmes também, como a questão religiosa e o mundo no campo, mas especialmente os dois últimos são de uma crítica feroz a uma sociedade que não aceita nada fora dos padrões estéticos e de etiqueta vigentes.

O Pequeno Quinquin foi mais celebrado, e é compreensível por ser um filme bem mais bem resolvido, por mais que ambos sejam facilmente reconhecíveis como filhos-do-mesmo-pai. Aqui estamos no início do século XX, uma familia aristocrata francesa se relacionando com os moradores da região inóspita, enquanto a polícia investiga o desaparecimento de duas pessoas. Os ricos são pessoas execráveis, os pobres, calados e mais pé no chão são canibais. Entre eles, a dupla atrapalhada de policias, o romance proibido de dois jovens, e a capacidade de Dumont em nos fazer rir com a sofisticação da simplicidade. Pena que, os vinte minutos finais sejam pavorosos e capazes de rapidamente destruir toda a consistente construção de personagens.