EP 57 – Canta, Dança, Sem Parar!

A temporada dos musicais está de volta? Campeão absoluto no Globo de Ouro e favorito ao Oscar, La La Land – Cantando Estações (21:47) é o tema do episódio da semana. Chico Fireman, Michel Simões, Tiago Faria e Cris Lumi batem um papo sobre o tão comentado (e, entre cinéfilos brasileiros, polêmico) filme de Damien Chazelle. A homenagem a clássicos de Hollywood traz novidades? E a história de amor narrada pelo cineasta, convence?

No embalo da estreia, os varandeiros elegem os cinco melhores musicais de todos os tempos (53:25). E mais: o terror iraniano À Sombra do Medo (1:22:19), disponível na Netflix, Cantinho do Ouvinte e Boletim do Oscar. Bom podcast!

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Margaret

margaretMargaret (2011 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O nome de Kenneth Lonergan talvez fosse mais conhecido como roteirista dos filmes Máfia no Divã e Gangues de Nova York, mas devido ao sucesso de Manchester à Beira-Mar (seu terceiro longa), essas referências tendem a ser deixadas de lado em prol da carreira desse habilidoso e promissor diretor da cena indie dos EUA.  Vejamos o caso deste, que foi seu trabalho anterior.

A referência à Margaret do título vem de um poema estudado em aula e que a estudante Lisa Coehn (Anna Paquin) vê claras referências a sua vida, no momento. Aos 17 anos, a garota vive da efervescência adolescente, das crises com a mãe e os telefonemas do pai. E também, da relação com garotos, da descoberta do sexo, das liberdades e as besteirices. E, em uma dessas bestericies, a garota se vê envolvida num acidente de um ônibus (Mark Ruffalo interpreta o motorista)  atropelando uma mulher.

É do trágico que Lonergan constrói camadas e mais camadas de personagens, digressões morais, e ambiguidades humanas capazes de desenvolver personagens de forma tão sólida. Não só a garota, mas o pai (o próprio Lonergan), a mãe atriz (J. Smith-Cameron) meio desequilibrada, meio egoísta. Até mesmo coadjuvantes menores, que engrossam o caldo dessa bolha dramático de um estudo das fragilidades e sensos de justiça do ser humano.  É impressionante a força com que Lonergan conduz personagens em suas conectividades, tanto no coletivo, quanto no individual, enquanto a vida de cada um deles segue, paralelamente ao desfecho do acidente.

La La Land

lalalandLa La Land (2016 – EUA)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

De vez em quando um novo musical traz a sensação de frescor ao cinema, e a pergunta: será que os musicais podem voltar dessa vez? E o filme passa, o momento passa, e os que odeiam musicais respiram tranquilizados. Mais que qualquer outro gênero, o musical talvez tenha sido o que mais envelheceu, ou o que menos consegueu dialogar com o público moderno, ao mesmo tempo em que seja o que mais exige dos atores. É curiosa essa relação, e talvez por isso, alguns filmes sejam tão bem recebidos, de vez em quando.

Damien Chazelle já tinha a música como tema em seus dois trabalhos anteriores, Whiplash o mais conhecido. Agora, realiza uma brincadeira de trazer ao tempo presente, personagens que poderiam estar, facilmente, nos anos 50. Carregam seus celulares, mas se vestem como na época, combinam de ir ao cinema ver filme do James Dean. Ele (Ryan Gosling), então, ama o jazz, e tem como lema de vida, ser dono de um clube daqueles tempos.

Dividido por estações do ano, o filme conta a história do casal, poderia ser um filme de Woody Allen (Emma Stone como protagonista só corrobora com a semelhança) no espírito, mas a trama repete, em muito, o musical clássico francês Os Guarda-Chuvas do Amor. Não que isso seja problema algum, mas lhe escapa a orginalidade.  Ficar procurando problemas no filme talvez seja uma tarefa desnecessária, aparentemente Chazelle está tomado pelo clima romântico platônico (tal qual um musical deve repirar) e realiza um trabalho impecável tecnicamente, além de garantir bons sorrisos no rosto em qualquer um da plateia.

Planos-sequencias que dão ritmo à narrativa, aliados a detalhes que flertam com o sensível, e dois atores na crista da onda do cinema mundial. Eles cantam, em alguns momentos encantam, em outros nem tanto. Stone no típico papel que tem atuado, e Gosling com cara de um bronco-bonzinho, romântico enrustido. O que Chazelle não consegue tão bom é manter suas cenas além da mecânica planejada, é tudo tão bem ajeitadinho, mas no miolo essa tentativa de provar o amor infinito do casal, o nasceram-um-para-o-outro, está nas imagens, nem sempre no coração. Excesso de engenharia para um musical romântico.

Chega como favorito ao Oscar, nessa altura da temporada, e realmente vai estar entre os melhores filmes do ano, e todos estes senões citados acima podem ser excesso de rigor, mas La La Land não transforma em amor inflamado todo este romance, de altos e baixos, como todos os romances verdadeiramente são, que Chazelle tenta nos vender. Não se acanhe, entre romance e melancolia, o despertar desse relacionamento e o desfecho seminal, já fariam o filme valer muito a pena. Ainda vou me pegar, por um bom tempo, cantarolando City of Stars, assim, meio que de repente, a rat-tat-tat on my heart.

Assim que Abro Meus Olhos

assimqueeuabromeusolhosÀ Peine J’ouvre Les Yeux (2015 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Merecia um pouco mais de atenção do que ganhará no circuito comercial, por mais que seja apenas outra variação do mesmo tema. Mas, é um tema ainda tão necessário e que o cinema tem sido uma das vozes mais reverberantes. A história se passa na Tunísia, pouco antes da Primavera Árabe, e da Revolução de Jasmim que culminou com a queda do regime de Bem Ali.

Vocalista de uma banda de músicas politizadas, a jovem Farah (Baya Medhaffer) enfrenta a desaprovação da mãe (Ghala Benali), enquanto vive a efervescência da descoberta, da liberdade, do amor e etc. O confronto familiar parece ser a maior batalha de Farah, e já teria assunto o bastante par ao filme. O final guarda o encontro dessa personagem com o governo truculento, capaz de transformar todo esse movimento de libertação familiar e cultural em vilanismo e perigo nacional.

A diretora estreante Leyla Bouzid coloca em seu filme toda a ebulição da protagonista, os altos e baixos de uma jovem imatura e idealista, repreendida, arrependida, que luta por cada uma de suas vontades enquanto enfrenta o conservadorismo e o bom-senso a partir de seus erros e acertos.

EP 56 – Eu, Meryl Streep

Do discurso contundente de Meryl Streep na cerimônia do Globo de Ouro (10:10), exibida na noite de domingo (9), ao filme mais recente de Ken Loach, Eu, Daniel Blake (38:15): os temas inflamados tomam conta da edição da semana. Quem surpreendeu e quem decepcionou na festa da imprensa estrangeira de Hollywood? E por que o longa de Loach está provocando reações tão extremadas entre os cinéfilos brasileiros? Os varandeiros Chico Fireman, Michel Simões, Tiago Faria e Cris Lumi não desviam do vespeiro.

E mais: em uma semana de muitos filmes, a conversa também passa pela animação da Disney Moana (1:06:05), pelo drama iraniano O Apartamento (52:30), de Asghar Farhadi, e pela ficção científica Passageiros (1:10:26). Bom podcast!

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O Apartamento

Salesman

Salesman

Forushande / The Salesman (2016 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Duplamente premiado na última edição de Cannes (melhor roteiro e ator), o iraniano queridinho do festival está de volta. Asghar Farhadi não se afasta dos problemas conjugais, dos casos que poderia ir parar no tribunal de justiça, mas, desta vez, tenta um paralelo entre a história de um casal de atores e a peça que interpretam – A Morte do Caixeiro Viajante.

Tudo começa num prédio sob risco de desabamento, e a necessidade de um novo apartamento enquanto não se resolve a situação do anterior. Um incidente, envolvendo a antiga moradora da moradia provisória desestabiliza a esposa e o casamento. Um pouco de conhecimento da peça de Arthur Miller ajuda no processo de traçar o paralelo entre as duas histórias. Farhadi segue com seus filmes de discussões intermináveis, mas aqui ele  parece um degrau abaixo, a câmera flutua mais pelo ambientes, os diálogs não são tão longos, e talvez nem tão explícitos.

Por outro lado, não há tantas metáforas quanto ele gostaria, sua simbologia é didática. Ele expõe questões culturais e deixa com o público o julgamento do certo e errado, enquanto seus personagens fraquejam por justiça, vingança ou apenas pela estabilidade emocional. Talvez nem tanto amor, e nem tantas criticas, seus filme mereceriam. Ele apenas coloca em seus trabalhos situações muito arquitetadas, mas que conseguem criar essa tensão do público em dar palpite, se intrometer, essa vontade de aconselhar e resolver os conflitos. Já quando chega o final, assim como em À Procura de Elly, o tom de tragédia, o clímas dramático, tudo poderia ser evitado para que o filme não se tornassem um dos apartamentos daquele prédio, prestes a desabar.

Beautiful City

beautifulcityBeautiful City / Shah-re Ziba (2004 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Não deixa de ser curioso, e revelar muitas semelhanças com seus filmes mais recentes, este é que um dos primeiros trabalhos do cineasta iraniano Asghar Farhadi. A semelhança mais vívida é a predileção por diálogos, rápidos, longos, discussões e a verbalização constante como forma de convencimento. Por outro lado, é mais uma oportunidade de conhecer leis e costumes muçulmanos, aos que não estão familiarizados com algumas diferenças capitais.

Na trama, um garoto acaba de completar dezoito anos e prestes a ser enforcado. Sua única esperança é o perdão que pode ser concedido pelo pai da vítima. Começa uma blitz da irmã e um amigo tentando o perdão. Parece fácil, como uma vítima poderia perdoar um assassinato? Mas há agravantes, a vitima precisaria pagar, quando precisa de dinheiro para uma cirurgia da própria filha.

O filme não sairá desse círculo de personagens tentando um acordo, uma forma de agradar a todos. A complexidade envolve conceitos religiosos, questão financeira, familiar e justiça. Com orçamento menor, o filme de Farhadi fica mais escuro, mais pessimista, tal qual este pai que tenta equilibrar justiça e necessidade de vingança, com necessidades e uma possível saída racional.