José

José (2018 – GUA) 

Mais curioso pela pequena mostra de filmes da Guatemala que surgem no mundo dos festivais, o drama gay de Li Cheng trata a história de José (Enrique Salanic) que vive de maneira precária com sua mãe. Sua rotina consiste em vender comida aos motoristas e transar com estranhos através de encontros via um app. É dessa forma que ele conhece um pedreiro imigrante do Caribe, cujo romance leva José a questionar valores (a mãe religiosa, a necessidade de permanecer em casa) e repensar sua vida.

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Belmonte

Belmonte (2018 – URU) 

O cineasta Federico Veiroj vem fincando uma filmografia interessante nos últimos anos. São filmes de personagens masculinos problemático, em torno dos quarenta anos, vivendo crises, e cuja narrativa foge das respostas fáceis e clássicas. O Apóstata trazia um adulto ainda dependente dos pais, bem mais interessante era A Vida útil com o calvário de um funcionário da cinemateca demitido, e que, coincidentemente, também vivia com sua família.

Belmonte é bem mais independente que esses dois, ainda que sua família seja parte crucial de sua vida. Pintor separado, só encontra refúgio quando está com sua filha. De resto, ele está sempre arisco, comprando pequenas brigas e pouco preocupado com convenções sociais. O filme de Veiroj é sobre essa sensação de não-pertencimento, a complexidade de suas frustrações enquanto se relaciona com clientes, com os problemas familiares, e frequenta ópera. Realmente um cinema de perguntar, jamais de respostas, do amadurecimento que repele as pessoas, de comportamentos que beiram o egoísmo ou apenas confirmação de que tudo aquilo não o satisfaz.


Festival: Toronto 2018

Mostra: Gala Presentations

Culpa

Den Skyldige / Guilty (2018 – DIN) 

Guarda muitas semelhanças com o sucessinho indie que se tornou Buscando… Não só por ambos terem sido lançados em Sundance, se o thriller americano é todo exibido através de câmeras de computador ou telas de dispositivos (celulares), com toda a trama transcorrendo diante de navegação na internet, o filme do estreante Gustav Möller também se concentra longe da correria dos fatos, num local, praticamente, imóvel.

Asger Holm (Jakob Cederbren) trabalha numa dessas centrais de emergência da polícia, em Copenhagen. Quase no fim do turno ele se depara com uma chamada de uma mulher sequestrada. A partir dai, o filme jamais sairá do foco nele, sua arma é o telefone, o banco de dados da polícia e persistência. Liga daqui, perseguição acolá, todo o suspense transcorre entre os telefonemas e os sons, muitos sons (choro, passos, gritos e sirenes da polícia).

A montagem, focalizando, seu rosto de diversos pontos, busca dinamismo, enquanto o roteiro tenta surpreender e agarrar a atenção do público. O filme é bem competente nesse ponto, mas falha um pouco em tentar trazer um drama particular do personagem para margear a trama do sequestro. De resto, vale imaginar a total impossibilidade de um filme deste tipo ser feito no Brasil, imagine a atualização e acesso rápido ao banco de dados com os telefones, endereço e propriedades de todos os cidadãos brasileiros.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Cinema Dramatic

Prêmio: do público

Assunto de Família

Manbiki Kazoku / Shoplifters (2018 – JAP) 

Não são poucos os filmes de Hirokazu Kore-eda com crianças. O cineasta japonês, em boa parte de sua filmografia, deu foco a personagens dóceis e cativantes, ora em quase aventuras dramáticas, ora em dramas destruidores (Ninguém Pode Saber). Dessa vez, ele dá um passo além, não só por ter ganho a Palma de Ouro, mas por complicar a trama com ousadia, sem sair de seu ritmo cinematográfico.

Um garotinha é encontrada quase congelando nas ruas, e acaba “agregada” por uma família meio torta que vive de bicos e pequenos assaltos a supermercados para sobrevivência. Homem, mulher, avó, filhos, a relação familiar não é exatamente essa, mas a posição dentro daquela casa (provalvemente invadida) é essa. São personagens totalmente à margem da sociedade japonesa, que o filme facilmente prova que mesmo “péssimos exemplos” para a sociedade, se tornam amáveis e um lar bem mais indicado do que a casa de classe media cheia de violência em que a garota morava.

Kore-eda nos faz mergulhar por entre as contradições e inseguranças desses personagens, pela moralidade de seus atos e sentimentos, e o quanto a sociedade hipócrita, mas que mantenha seus segredos e defeitos trancafiados, é de fácil aceitação, do que essas imperfeições dos que vivem além dos padrões e etiquetas sociais. No seu filme mais corajoso, Kore-eda nos coloca em tilt, sem sair do tom de cenas melosas, ou até melodramáticas, mas que oferecem a reflexão sobre as convenções e o quanto julgamos pela aparência e não pelo que de fato é importante notar.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Palma de Ouro

Cléo & Paul | Limonada | A Costureira dos Sonhos | A Última Criança | Extinção

Cléo & Paul (Allons Enfants / Cléo & Paul, 2018 – FRA) 

São dois irmãos entre 3-4 anos, brincando no parque, até que um deles se perde. O diretor Stéphane Demoustier pretendia uma aventura poética, uma criança descobrindo-se sozinha e vagando pelo mundo, e outra com o peso da separação e de estar com um adulto nesse momento dramático.

O filme vaga, assim como as crianças, entre bons momentos, e outros nem tanto, obviamente alavancado pela graça das crianças e pelas infinitas possibilidades que crianças sozinhas podem trazer em empatia, carinho e amizade, mesmo que com qualquer desconhecido. A narrativa bem tenta flutuar como a alma pueril das crianças, fica nas boas intenções e na leveza com que personagens se relacionam.


Limonada (Lemonade, 2018 – ROM) 

É a velha história de abusar de quem mais precisa, quando temos imigrantes é ainda mais fácil. Uma enfermeira romena tentando visto permancente para trazer seu filho para viver com ela nos EUA. As coisas saem errado e para tentar consertar, ela é explorada de todas as formas que se possa imaginar. Sob direção de Ioana Uricaru, é outro daqueles filmes que apontam o fragelo humano, a completa falta de orgulho e aceitar humilhamos para chegar em seu objetivo. Outra prova de que a humanidade peca de forma quase incorrigível, mas que como cinema poderia ter algo além de um retrato da falência das políticas de imigração.


A Costureira dos Sonhos (Sir, 2018 – IND) 

Relacionamentos entre classes sociais diferentes, tantos filmes que tratam desse tema, e ainda assim inesgotável. A diretora Rohena Gera traz a história de uma jovem víuva que trabalha em Mumbai para um homem solteiro, de familia rica. Ele vive nuam zona de conforto, ela uma lutadora por seus sonhos e por ajudar sua familia. A trama traz um romance inesperado, obviamente não aceito pela familia dele, e todo o peso dos olhares de não aceitação da sociedade (o “Sir” do título original faz referência a como a empregada chama seu patrão). Na fase final, Gera não consegue escapar das armadilhas que seu filme criou, uma pena porque havia antes algo de genuíno na forma como personagens se relacionavam.


A Última Criança (Last Child, 2018 – COR) 

Não passa de um melodrama simples, dirigido pelo sul-coreano Shin Dong-seok, a cerca da história de um casal que sofre com o luto, pela morte do filho afogado, ao tentar salvar um amigo. E o garoto sobrevivente se aproxima daquela familia após o pai vê-lo sofrendo bullying. É sim sobre preencher um espaço vazio, principalmente sobre carência, mas também sobre recomeços. Dong-seok não parece interessado em nada além de contar uma história


Extinção (Extinção / Extinction, 2018 – POR) 

Mistura de ficção e não-ficção na fronteira da Moldavia e Romenia. Narrativa experimental da diretora portuguesa Salomé Lamas traz soldados russos, KGB, frio e fogueiras. Muitos diálogos, ora com tela escura, ora com planos fechados, sobre Patriotismo, vigilância, os conflitos com Ucrania e Chechenia e outros locais na região. Por fim, um filme para  todos os Estados ainda não reconhecidos.

Nasce uma Estrela

A Star is Born (2018 – EUA) 

Já é a quarta versão no cinema da mesma história, mas há sim algo que explica a repetição. Afinal, são personagens midáticos, e de tempos em tempos, com a mudanças da tecnologias e da importância de cada mídia, uma atualização oferece um frescor a cada uma das versões. As primeiras saíram do cinema, os protagonistas eram atores, as mais recentes cantores. E nesse tempo, a relação da mídia e do público mudou tanto, que mesmo a história de sempre, da moça que se apaixona pelo famoso que está em decadência, enquanto ela em ascenção na carreira, oferece a possibilidade de filmes diferentes em si.

Dessa vez é o ator Bradley Cooper o responsável por dirigir e protagonizar, a história é de um cantor de rock, que já não vive sua melhor fase e sofre ccom consumo de álcool e drogas, e se apaixona pela garçonete que sonha ser cantora (Lady Gaga). O primeiro destaque é realmente a direção de Cooper, sempre fugindo da maeira óbvia de narrar sua história, os diálogos são longos, muitos travelings que circulam entre o rosto e a nuca dos personagens, a presença de cores fortes.

De outro lado, temos a adição do mestre que dá espaço para a aprendiz, mas ela acaba partindo para um outro caminho na carreira oposto ao de seu mestre. Estilos musicais diferentes, a sensação de não pertencimento, por mais que o amor seja tão forte. Nisso, Gaga talvez represente muito de sua própria carreira, a musica erudita que se torna cantora pop. Enquanto isso, Cooper constrói um personagem entorpecido, apaixonado também, mas tão sereno dentro de sua dependência, que só um Oscar servirá para representar a grata supresa de seu trabalho.

Além de coadjuvantes com momentos especiais, o pai dela, o irmão dele. Mas, principalmente, Nasce uma Estrela consegue dialogar com o fã de música de hoje, é um filme mais focado no palco e nos bastidores do que propriamente nas brigas de casal. Cooper nos traz para dentro do palco, para as fragilidades dos personagens, e assim nos entrega um dos destaques do ano.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição

Mostra SP 2018: Dicas

 

Vistos & Comentados

 

Filme Título Original País Diretor
Assunto de Família **** Shoplifters JAP Kore-Eda Hirokazu
Azougue Nazaré *** Azougue Nazareth BRA Tiago Melo
A Valsa de Waldheim *** Waldheims Walzer “The Waldheim Waltz” AUT Ruth Beckermann
Deslembro *** Deslembro BRA Flavia Castro
Belmonte *** Belmonte URU Federico Veiroj
Extinção *** Extinção POR Salomé Lamas
Culpa *** Den Skyldige “The Guilty” DIN Gustav Möller
Cléo & Paul **1/2 Allons enfants “Cléo & Paul” FRA Stéphane Demoustier
A Rota Selvagem **1/2 Lean on Pete RU Andrew Haigh
Chris, O Suiço **1/2 Chris the Swiss SUI Anja Kofmel
Mormaço **1/2 Mormaço “Sultry” BRA Marina Meliande
Fuga **1/2 Fuga “Fugue” POL Agnieszka Smoczyńska
Meu Tecido Preferido **1/2 Mon Tissu Préféré “My Favorite Fabric” SIR Gaya Jiji
Limonada **1/2 Lemonade ROM Ioana Uricaru
A Costureira de Sonhos **1/2 Sir IND Rohena Gera
Gutland **1/2 Gutland LUX Govainda Van Maele
Con El Viento **1/2 Con el viento “Facing the Wind” ESP Meritxell Colell Aparicio
Holiday ** Holiday DIN Isabella Eklöf
Futebol Infinito ** Fotbal Infinit “Infinite Football” ROM Corneliu Porumboiu
A Última Criança ** Last Child COR Shin Dong-seok
Teatro de Guerra ** Teatro de guerra “Theatre of War” ARG Lola Arias
A Caótica Vida de Nada Kadić ** Kaotični život Nade Kadić “The Chaotic Life of Nada Kadić” MEX Marta Hernaiz
O Retorno ** The Return DIN Malene Choi Jensen
Rosas Venenosas ** Poisonous Roses EGT Ahmed Fawzi Saleh

 

Indicações

 

Essa lista contém filmes ainda não vistos, mas que geraram boas expectativas devido a repercussão ou as filmografias

Filme Título Original País Diretor
Em Chamas Boening “Burning” COR Lee Chang-Dong
Diamantino Diamantino BRA Gabriel Abrantes, Daniel Schmidt
Guerra Fria Zimna Wojna “Cold War” RUS Pawel Pawlikowski
Tarde para Morrer Jovem Tarde Demais para Morir Joven “Too Late To Die Young” CHL Dominga Sotomayor
Temporada Long Way Home BRA André Novais Oliveira
Utøya – 22 de Julho Utøya 22. juli NOR Erik Poppe
Infiltrado na Klan BlacKkKlasman EUA Spike Lee
Roma Roma MEX/EUA Alfonso Cuarón
Imagem e Palavra Le Livre D’Image “The Picture Book” FRA Jean-Luc Godard
O Rio Ozen “The River” KAZ Emir Baigazin
A Árvore dos Frutos Selvagens Ahlat Agaci “The Wild Pear Ter” TUR Nuri Bilge Ceylan
Chuva e Cantoria na Aldeia dos Mortos Chuva e Cantoria na Aldeia dos Mortos POR João Salaviza e Renée Nader Mossora
Vidas Duplas Double Vies “Non-Fiction” FRA Olivier Assayas
A Favorita The Favourite RU Yorgos Lanthimos
Carmen & Lola Carmen Y Lola ESP Arantxa Echevarria
Uma Terra Imaginada A Land Imagined CIN Siew Hya Yeo
Vermelho Sol Rojo ARG Benjamin Naishtat
Amanda Amanda FRA Mikhaël Hers
A Madeline de Madeline Madeline’s Madeline EUA Josephine Decker
Não Me Toque Touch Me Not ROM Adina Pintilie
Museu Museo “Museum” MEX Alonso Ruizpalacios
O Silêncio dos Outros The Silence of Others EUA Almudena Carracedo, Robert Bahar
A Névoa Verde The Green Fog EUA Guy Maddin, Evan Johnson, Galen Johnson
Grass Grass COR Hong Sangsoo
Tinta Bruta Tinta bruta BRA Marcio Reolon, Filipe Matzembacher
303 303 ALE Hans Weingartner
Dinamarca Denmark DIN Kasper Rune Larsen
John McEnroe: No Império da Perfeição L’empire de la perfection “In the Realm of Perfection” FRA Julien Faraut
Jovem Solidão Premières solitudes “Young Solitude” FRA Claire Simon
Amor Até às Cinzas Jiang Hu Er Nv “Ash Is Purest White” CHI Jia Zhang-Ke
Verão Leto “Summer” RUS Kirill Serebrennikov
O Anjo Él Angel “The Angel” ARG Luis Ortega
3 Faces Se Rokh “Three Faces” IRA Jafar Panahi
Los Silencios Los Silencios BRA Beatriz Seigner
Almas Mortas LES ÂMES MORTES “DEAD SOULS” CHI Wang Bing
Ray & Liz Ray & Liz RU Richard Billingham
Sobre Pais e Filhos Of Fathers and Sons ALE Talal Derki
Garotos Choram La terra dell’abbastanza “Boys Cry” ITA Damiano e Fabio D’Innocenzo
O Estado Contra Mandela e Os Outros The State Against Mandela and the Others Nicolas Champeaux & Gilles Porte
O Que Você Irá Fazer Quando o Mundo Estiver em Chamas? What You Gonna Do When the World’s On Fire? ITA/EUA Roberto Minervini
As Ceifadeiras Die Stropers “The Harvesters” AFS Etienne Kallos
El Motoarrebatador El Motoarrebatador “The Snatch Thief” ARG Agustin Toscano
A Carga Teret “The Load” SER Ognjen Glavonic
Meu Querido Filho Weldi “Dear Son” TUN Mohamed Ben Attia
Selvagem Sauvage FRA Camille Vidal-Naquet
O Hotel às Margens do Rio Hotel By the River COR Hong Sang-Soo
Alemanha: Um Conto de Inverno Wintermärchen “A Winter’s Tale” ALE Jan Bonny
Família Submersa A Submerged Family ARG María Alché
O Anúncio Anons “The Announcement” TUR Mahmut Fazil Coskun
Poderia Me Perdoar? Can You Ever Forgive Me? EUA Marielle Heller
Muere, Monstruo, Muere Muere, Monstruo Muere “Murder Me, Monster” ARG Alejandro Fadel
La Quietud La quietud ARG Pablo Trapero