EP 129 – O Terror das Mulheres

Uma tendência instigante tem marcado o cinema: é cada vez maior o número de filmes de terror dirigidos por mulheres. Na semana do lançamento do francês Vingança, de Coralie Fargeat, elegemos nossos destaques nesse filão entre os filmes produzidos desde 2000 (30:22).

No embalo do Festival Varilux, e sem fugir do tema horror, um papo sobre A Noite Devorou o Mundo (55:31), de Dominique Rocher, uma fita de zumbis que vai muito além dos lugares-comuns do gênero.

Nas recomendações, a temporada nova de Unbreakable Kimmy Schmidt, destaques da mostra Olhar de Cinema, Philip Roth e Kanye West. Bom podcast!


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Vírus Tropical

Virus Tropical (2018 – COL) 

Interessante a quantidade de filmes do subgênero coming of age tem se destacado no cinema atualmente. Agora é a vez do colombiano Santiago Caicedo, em animação em preto e branco, desenvolver a história do crescimento e amadurecimento de uma jovem que viveu entre Equador e Colômbia. Todos lembram de Lady Bird, mas as semelhanças são maiores com Persepolis, por mais que a carga política daquele grande filme, aqui seja trocada por detalhes mais precisos desse amadurecimento e periodo de descobertas femininas.

Do vai e vem entre morar com pais separados ou com as irmãs mais velhas, o filme é singelo ao sempre acompanhar as influências e transformações desde o nascimento até a faculdade de Paola. Os costumes de uma familia tradicional e a forma dos anos que revolucionam a cabeça dos jovens. É de todo simpático, ainda que pode profundo se comparado a alguns dos coming of age que tem conquistado critica e público.

Siti

Siti (2014 – Indonésia) 

Siti é a heroína do dia-a-dia, a mulher que trabalha em dois empregos para sustentar filho, a mãe e seu marido (que não sai da cama após um acidente e praticamente não fala com ela). Num preto e branco charmoso, o diretor indonésio Eddie Cahyono filmas as aguras da vida cotidiana, a relação da sociedade com a opressão militar cotidiana, a questão da mulher protagonista em casa, mas coadjuvante de sua própria vida e até mal interpretada pelo próprio marido. Da beleza da construção dos planos, passando pela opção em fugir do sentimentalismo, Siti é belo pela própria dureza de sua realidade e por como Cahyono consegue condensar tudo na personagem e na melancolia de suas imagens. Um encontro de lirismo e aspereza, de miséria e desesperança, a carência e o orgulho como determinantes para novos rumos dos personagens.

The Tale

The Tale (2018 – EUA) 

Um dos destaques da última edição do Festival de Sundance, o drama autobiográfico de Jennifer Fox tem os temas perfeitos para algumas das grandes bandeiras do feminismo e do empodeiramento: abuso sexual de menores, mulheres fortes.

Laura Dern é o alter-ego da diretora, essa mulher que enfrenta o resgate de quando tinha treze anos e teve um relacionamento com um adulto. Não chega a ser totalmente tradicional em sua narrativa, mas longe de ser um primor de cinema, sua força está realmente concentrada na maneira sóbria e delicada com que trata as mulheres da história (Jennifer em duas épocas, a mãe, a treinadora), enquanto encontra na insegurança das memórias uma forma de dar ainda mais humanidade à personagem.

Dessa forma, Jennifer se lembra dos fatos, e o filme vai contando sua história enquanto ela parte ao reencontro de todos que viveram ao seu lado aquele momento, a memória a confunde, alguns ajudam a completar e assim o filme volta a algumas cenas para reconstruir. Tudo isso, sem perder seu foco nos dilemas do abuso sexual, e na necessidade de discutirmos o tema até que quem sabe a prática seja erradicada e crianças libertadas de situações tão traumáticas e sujas.

Seu filme nem transforma vilões em monstros, assim bem como a frase final em que a pequena Jennifer dá outro significado, que não ser vítima, na situação. Dessa forma, o filme ganha ainda mais força e promete causar impacto, pena que não será visto nos cinemas, foi comprado e já exibido na tv pela HBO nos EUA.

Chris the Swiss | Fuga

Chris the Swiss (Chris the Swiss, 2018 – SUI) 

Fuga (Fuga “Fugue”, 2018 – POL) 

Destacando dois filmes da mais recente safra da Semana da Crítica do recém-encerrado Festival de Cannes. Porém, além de participarem da mesma mostra paralela, e serem dirigidos por mulheres, pouco há de semelhança entre ambos o filme, talvez possamos destacar o desaparecimento como mote nos dois trabalhos, mas cujos diretores seguem caminhos totalmente opostos.

Da Suiça, Anja Kofmel realiza uma espécie de docudrama com toques de animação, sobre o desaparecimento do primo jornalista na Guerra dos Balcãs. Tentando entender, ou reinterpretar, o filme parte nesse misto de memórias, reconstituições de versos dos fatos e depoimentos dos que conheceram esse correspondente de guerra que resolveu abrir mão de seu trabalho e entrar na guerra.

A polonesa Agnieska Smoczynska ficou conhecida no Brasil por A Atração, uma espécie de comédia de terror e fantasia, com sereias-vampiras. Dessa vez, seu filme é menos fantasioso, ainda que tenha algo de inexplicável. Uma mulher desaparece após um acidente de carro e volta após dois anos com amnésia (se lembra de tudo, menos das pessoas). Retorna uma mulher diferente, que conflita com marido e filho pequeno, tem atitudes que não se enquadram nas convenções sociais e fragilidades e fortalezas que se colocam como difícil aceitação. O tema central parece ser resgate dos sentimentos e da representatividade de pessoas que eram vitais em sua vida, e agora você sequer lembra quem são.

As Boas Maneiras

As Boas Maneiras (2017) 

A dupla Juliana Rojas e Marco Dutra ataca novamente, entre o horror e a critica social. Eles são uma espécie de alívio, numa proposta de cinema bem diferente do que a maioria da produção nacional recente. Dessa vez, num tom bem mais leve do que em Trabalhar Cansa, e num alcance bem maior de público.

No primeiro ato, uma interiorana grávida solitária (Marjorie Estiano estupenda) quase confinada em seu apartamento na capital de São Paulo contrata uma empregada (Isabel Zuaa) e a relação profissional se estabelece tambpem no âmbito pessoal. É curioso como a dupla de diretores filma o clima claustrofóbico dessa mulher que nunca sai de casa, as dores do passado recente que a levaram ao distanciamento da policia e a forma como se desenvolve a relação patroa-empregada.

O quê de sobrenatural está lá, mas é bem mais nítido no segundo ato, quando o garoto já cresceu um pouco e a relação mãe-filho pede uma superproteção quase incompreensível à sociedade. É nesse ponto que Rojas e Dutra aplicam sua critica social, a metrópole que guarda ricos e pobres tão próximos e como a cidade se constrói a partir desse distanciamento.

Essa segunda parte é mais alongada, e não tão forte quanto o início. A dupla flerta com o conto de fadas, de lua cheia e lobisomem, tenta entender a incompreensão e encontra nos garotos bem menos espontâneas do que aquela começão que Estiano e Zuaa desenvolve em seu ninho de amor chocante e carinhoso.


Festival: Locarno 2017

Prêmio: Prêmio do Júri

Guia: Olhar de Cinema 2018

O Olhar de Cinema (Festival Internacional de Curitiba) vem se solidificando como um dos mais importantes canais de exibição dos filmes em destaque dos grandes festivais de cinema. Ocorrendo em Junho consegue focar nas novidades do semestre e ajuda a não concentrar que os cinéfilos brasileiros tenham que esperar até Setembro-Outubro para os mais tradicionais festivais disputarem os filmes.

A edição ocorrerá entre os dias 6 e 14, e ficam aqui alguns destaques que a Toca já viu:

Filme Título Original País Diretor Festival Seleção Ano Prêmio
Drvo Drvo “The Tree” Portugal André Gil Mata Berlim Forum 2018
Nossa Loucura Our Madness Moçambique João Viana Berlim Forum 2018
Umas Perguntas Unas Preguntas Uruguai Kristina Konrad Berlim Forum 2018
A Casa Lobo La Casa Lobo Chile Joaquín Cociña, Cristóbal León Berlim Forum 2018
Djon África Djon África Portugal João Miller Guerra/Filipa Reis Rotterdã Competição 2018
Visto e Não Visto Sekala Niskala “The Seen and Unseen” Indonésia Kamila Andini Berlim Generation Plus 2018