Sportin’ Life

Publicado: dezembro 3, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Sportin’ Life (2020 – ITA)

O que é esse documentário? Abel Ferrara e Williem Dafoe dizem ser sobre fazer um documentário. Será? Acaba sendo sobre os dois, e sobre o cinema que construíram juntos. E também sobre os bastidores de um festival, e sobre Ferrara tocando música, sobre entrevistas e mais entrevistas. A estrutura é simples, e ainda assim consegue ser caótico, divertido, e bem mais interessante que a maioria dos filmes que serão vistos pelo ano todo.

Tommaso

Publicado: dezembro 2, 2021 em Cinema
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Tommaso (2019 – ITA)

Nos mais recentes filmes de sua safra italiana, o cineasta Abel Ferrara vem construindo um outro tipo de retrato da masculinidade. Ficaram de lado a máfia, o marginal, o sexo sujo e até o degradante, a figura central (interpretado por Willen Dafoe) é um artista americano vivendo na Itália, aprendendo o idioma, convivendo com sua filha e esposa mais jovem. Nele estão as angústias de um casamento que nem sempre entrega o que ele gostaria, suas criações artíticas, os encontros no AA, fantasias sexuais e possíveis aventuras, tudo dentro de um misto de realidade e ficção na mente do protagonista que ao invés de confundir, auxilia a mergulhar nessas aguras masculinas de decepção, libido, fúria necessidade de ser o protetor, choque cultural e tantas questões. Ferrara é íntimo de outra maneira, não são só os planos-fechados, o estudo psicológico, há ali suas experiências, sua maturidade, e um cinema mais apurado e menos extravagante.

A Casa e o Mundo

Publicado: dezembro 1, 2021 em Cinema
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Ghare-Baire / The Home and the World (1984 – IND)

Sei lá porque tanto adiamento, o fato é que chego tarde, e pelo fim, mas já impressionado pelo cinema do celebrado diretor indiano Satyajit Ray no primeiro filme que finalmente vejo. O título do filme já é curioso ao retratar a dualidade entre tradição e modernidade, o marido com inclinação à cultura ocidental incentiva a esposa a aprender idioma, música e costumes, a sair de casa e se abrir para o mundo. O ano é 1905, o país ainda sob domínio britânico é dividido (a outra parte se tornaria Bangladesh), a burguesia é contra e lança um movimento de boicote a produtos importados (ingleses). Um dos pontos chave é a amizade com um dos líderes do movimento, o marido empurra sua esposa ao movimento político e a situação das ruas se mistura com a tensão sexual entre a esposa e esse líder revolucionário. Dessa forma, Ray retrata a história política e religiosa, os interesses pessoais e ainda permite espaço a questão feminista. É um cinema falsamente simples, de muitos diálogos dentro de casa, de discursos de convencimento e pontos de vista distintos. Um cinema rico que usa da simplicidade narrativa, e dela transborda complexidade.

The Small Back Room / Hour of Glory (1949 – RU)

Pouco após o fim da 2a Guerra Mundial a dupla de cineasta Michael Powell e Emeric Pressburger entregava esse misto de suspense e drama sobre um soldado especializado em desarmar bombas que voltou dos campos de batalha sem uma das pernas. A dor física e o consumo de remédios o leva ao alcoolismo, e o filme se estabelece entre o vício e a crise conjugal até uma nova bomba cruzar seu caminho. É interessante como Powell e Pressburger são tão cuidados com a grande sequencia de suspense, daquelas realmente de tirar o folego ao dar muita ênfase ao grupo de apoio que assiste o desarmador trabalhar, mas até lá criam esse drama denso e cheio de dor e conflito, como se Farrapo Humano se encontrasse com um filme de Hithcock.

The Humans

Publicado: novembro 28, 2021 em Cinema
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The Humans (2021 – EUA)

Com lançamento no TIFF 2021, Stephen Karam estreia na direção adaptando a peça de teatro que o consagrou na Brodway, inclusive ganhou o Tony. A família se encontra num velho apartamento no Dia de Ação de Graças, e como todo bom encontro familiar está repleto de afeto, provocações, lições de moral, discussões e união. De conversa a fora às crises particulares, o drama de Karam é lento, bastante arrastado e tenta se aproveitar de ruídos e portas rangendo para dar um clima mais fantasmagórico ao encontro. O diretor também prefere por planos bem abertos, muitas vezes abdicando do personagem que fala, e de travellings lentos que em slow motion vão se aproximando da ação. Essa conjunção de escolhas sugerem presunção e dão um tom solene de um drama vigoroso cujas revelações não estão à altura, assim como as interpretações do elenco de famosos.

Unrelated

Publicado: novembro 27, 2021 em Cinema
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Unrelated (2007 – RU)

Joanna Hoog vem se firmando pelos festivais de cinema como uma das principais diretoras britânicas da atualidade. Seus quatro longas-metragens já formam uma sólida carreira marcada por personagens burgueses, em dramas de relacionamento. O maior destaque foi seu último trabalho, The Souvenir, escolhido melhor filme na seção World Cinema Dramatic, em Sundance, narrando a história de uma jovem diretora sofrendo em seu relacionamento com um homem mais velho. Exibição trata a história de um casal de artistas em crise conjugal, o filme é ainda mais lento e minucioso, mas é interessante como Hoog explora todo o espaço do apartamento, dosando drama e arquitetura.

Esse aqui é sua estreia no cinema, sobre uma mulher infeliz no casamento, que vai tirar férias na Toscana com a família de uma amiga. Lá se aproxima dos jovens, joguinhos alcoolicos, confissões, pular na piscina de madrugada. O clima de tensão sexual se eleva, e as irresponsabilidades batem à porta com suas consequencias. É um filme que já indicava a predileção pelas crises conjugais, pelo viés feminino, e os primeiros sinais de um estilo narrativo que a cineasta foi “radicalizando”. Me parece um filme mais solto, menos preocupado em ser tão “artístico”, com diálogos que combinam bem a diferença de idade e a sensação de liberdade, de rejuvescimento da mulher infeliz.

Everything Went Fine

Publicado: novembro 27, 2021 em Cinema
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Tout s’est bien passé / Everything Went Fine (2021 – FRA)

O tema da eutanásia tem sido bastante debatido na Europa, alguns países aprovaram essa prática e talvez por isso François Ozon tenha se interessado por adaptar o livro que narra a história de um caso real desses. Um octagenário que sofre um avc (ou enfarto, não lembro ao certo) e que mesmo em reabilitação, com dificuldades, não quer mais viver. O filme está mais centrado nas filhas, em especial a que interpreta Sophie Marceau, a homossexualidade do personagem é quase coadjuvante. É um tema atual, incontestavelmente, e que foge das questões mais costureiras do cinema engajado (que seriam politica ou de migração), mas a opção de Ozon é por um melodrama familiar típico, uma narrativa simples, e aquele grande dilema que eesse tipo de situação traria: apoiar a decisão do pai morrer ou brigar contra? Preparem seus argumentos, mas pouco provável que se encantem pelo filme especificamente.

Hospital dos Malucos

Publicado: novembro 25, 2021 em Cinema
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Britannia Hospital (1982 – RU)

Você está achando uma bobagem completa, realmente não embarcou naquele humor, até que começam os protestos e a greve dos funcionários na porta do hospital, que está prestes a receber a visita da rainha da Inglaterra para inaugurar uma nova ala. Eis que o filme pega fogo, e você entende porque é um filme de Lindsay Anderson. E por mais que essa fase final apoteótica não salve o todo, você entende que ali tem um manifesto interessante e que se passaram décadas, mas estamos parados no mesmo lugar de injustiças, privilégios e uns lunáticos que acreditam que tem a cura do mundo

Nossas Mães

Publicado: novembro 23, 2021 em Cinema
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Nuestras Madres (2019 – GUA)

Acima de tudo é um filme sobre dignidade e memória, a dignidade de poder enterrar seus entes queridos, de confirmar o que se sabe sobre suas mortes. A Guatemala não é diferente da imensa maioria de países da América Latina, a ditadura militar causou milhares de mortes, muitos deles indígenas. Os corpos estão espalhados em covas clandestinas. O filme de Cesar Diaz ganhou o câmera d’or em Cannes 2019, depois de concorrer na Semana da Crítica, e abre e fecha com um plano em uma ossada. Quase todos os personagens estão em busca de algum ente perdido, uma busca que não tem preço, que não se mede esforços, uma forma de aliviar o vazio que ficou. Sem brados políticos, apenas a dor, a luta por dignidade e a memória que não enfraquece apesar dos anos.

Fighting Delinquents

Publicado: novembro 22, 2021 em Cinema
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Kutabare Gurentai / Fighting Delinquents (1960 – JAP)

Um jovem operário acredita ser órfão e não abre mão de viver pelo que considera ético e correto até descobrir que tem direito a uma grande fortuna e a oportunidade de conhecer a mãe. A trama está sempre colocando à prova essa ética das convicções do protagonista, porém o mais interessante do primeiro filme colorido de Seijun Suzuki é esse choque de cultura entre o conservadorismo dos mais idosos e o estilo moderno da juventude. E, inclusive, o cineasta japonês representada essa juventude de maneira ainda mais exagerada por personagens órfãos, delinquentes, inconsequentes, mas que não deiam de lado seu apegado ao importante alicerce dos sentimentos familiares.