Dolor y Gloria (2019 – ESP)

O tempo vai passando, as pessoas comentando com você, e mesmo depois de alguns meses, fica essa vontade de revistar, mesmo que não seja revendo, nem que seja recordar. E esse recente trabalho de Pedro Almodóvar é um desses casos. O que fica na memória depois de algum tempo?

O mais forte é essa sensação de proximidade, uma intimidade que o cineasta nos convida a visitar, a sua própria intimidade. Antonio Banderas é seu alter-ego, seu apartamento, seu armário, algumas pequenas cápsulas da própria vida de Almodovar, que ele se aproveita para desenvolver a história de um personagem em angustia, mas também dor (inclusive física), e da força interior de se reconectar com pontos e pessoas da sua vida.

Da solidão ao redescobrimento, o passado e presente ajudam a construir esse alter-ego que, realmente, não é o próprio cineasta, mas está embriagado dele mesmo. Dessa forma, ele volta a nos emocionar, logo ele que já fez isso tantas vezes, e vinha ensaiando a acertar em cheio novamente, aqui conseguiu porque é difícil não se envolver com a cólera, o corpo entorpecido, as memórias que criam novas histórias, e como uma fênix, o renascimento para um novo personagem, uma nova pessoa, que é uma variação amadurecida daquele que conhecemos no início, e mesmo assim não deixa de ser o mesmo, inclusive ele, Almodovar.

Anúncios

Bacurau (2019 – BRA)

É catarse, é resistência, é o grito dos esquecidos. O trabalho da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles está sacudindo o Brasil. E se vivemos num país tão polarizado, pode ser que o filme nem esteja dialogando com um lado dessa disputa, mas tem sim sacudido parte da turma que se sente exprimida pelos dois lados que dominam nossa política recente. Claro que é um filme político, extremamente político, quem acompanha a dupla sabe de suas posições. Mas ao fugir do panfletário e universalizar questões, os diretores conseguem ir além do pregar para torcida única.

Western futurista, praticamente uma nova vertente do cinema de gênero, o filme vai causando frisson e chegando a mais e mais cidades porque ele tem seus momentos apoteóticos mesmo, sem deixar de lado as homenagens a cineastas importantes na cinefilia dos criadores (John Carpenter principalmente). Afinal, em meio ao suspense e à violência, o que temos é a luta pela sobrevivência, do povo oprimido versus a força do opressor (que pode ser o rico Sudeste x pobre Nordeste, países ricos x terceiro mundo), através de uma metáfora sangrenta, que deve sim desagradar parte do público, mas uma alegoria tão justificável.

E Kleber e Juliano filmam tudo sem perder o genuíno daquela gente, criando mistérios ou personagens que ficarão, eternamente, no imaginário. Bacurau é um desses filmes-fenômeno que dá esperança aos que andam desanimado, e que provoca alguns que nem percebiam pontos óbvios que o dia-a-dia nos cega.

Once Upon a Time in… Hollywood (2019 – EUA)

O título já sugere o conto de fadas, mas um conto de fadas tarantinesco, com tudo que o liquidificador do cineasta consegue bater até produzir outro filme delicioso. Delírios de cinéfilos à parte, com ênfase nas referências que Tarantino tanta gosta de usar, o que temos é uma homenagem à Hollywood dos anos 70. E uma homenagem que se concentra num ator em decadência e em seu dublê, e a partir dele transitar por um grupo de personagens reais que vão desde a família Manson, até Roman Polanski e Sharon Tate, até desembocar no trágico momento em que esses dois grupos se encontraram na história.

Em tom de comédia dramática, Tarantino nos guia pelos bastidores da indústria do cinema: casting, series genéricas, jantares de emprego, famosos arrogantes,  mansões e suas festas, mas também pelo prazer da estrela em ascensão. Enfim, um apanhado de comportamentos e personagens que revelam um belo raio-x da época.

Personagens carismáticos, grandes sequencias em que Tarantino destila todo seu estilo, até um final apoteótico e sanguinário que leva muitos ao delírio. O diretor novamente entrega muito do que se esperava. Ainda me permito questionar se suas escolhas não possam soar ofensivas, quando sabemos como a história real transcorreu, e a violência debochada pode parecer agressiva, mas que condiz totalmente com seu cinema, isso não se pode negar, por isso que é um questionamento, e não uma afirmação. O filme de Tarantino está ai, para ser admirado, questionado, porque indiferentes eles nunca serão.

A Longa Caminhada

Publicado: setembro 5, 2019 em Cinema
Tags:

Walkabout (1971 – RU/AUS)

Walkabout faz referência a um costume aborígene de lançar jovens, quando chegam na adolescência, a passar um tempo vagando no deserto, uma forma de acelerar a maturidade. O diretor britânico Nicolas Roeg parte do conceito para criar o walkabout de uma jovem, e seu irmão pequeno, vagando perdidos pelo deserto, após a morte do pai, até encontrarem com um aborígene em seu período de walkabout.

Os três passam alguns dias vagando, criando uma forma de comunicação, se adaptando entre si. E assim, o cineasta cria um filme tão cru e inesperado em seus caminhos, tanto no que se refete à sobrevivência, quanto à comunicação, ou os sonhos. A paisagem árida, o tom de aventura e de total noção de estar perdido dá lugar a essa possibilidade de explorar o desconhecido, de vivenciar  a caça para ter o que comer, ou cavar a terra para encontrar água.

E Roeg não fica apenas com essa vivência das diferenças, ele também ousa ao inserir imagens, entre cortes secos, que fazem referência ao nosso capitalismo perverso. Em provocar a proximidade sem que haja tensão sexual explicita, ou sensualizar uma Lolita. Prefere a poesia dura do final do filme, quando a esperança renovada de um marca a desesperança de outros. É o tipo de filme que só cresce na memória.

Alice et Le Maire / Alice and the Mayor (2019 – FRA)

Diretamente da Quinzena dos Realizadores, de Cannes 2019, o filme dirigido por Nicolas Pariser é uma comédia dramática política de uma jovem (Anaïs Demoustier) recém-formada em Filosofia que entra para a equipe do prefeito de Lyon, porque ele está sofrendo um bloqueio criativo de ideias.

Entre apresentar um pouco do caos da administração da prefeitura, jogo de egos, mudanças de direção, o filme ainda tenta se estabelecer na vida da própria jovem: vida amorosa, capacidade de sintetizar ideias, ou rapidamente criar uma relação de admiração e ascenção politica sob o prefeito. Tirando o plano-sequencia com sua chegada à prefeitura, o restante varia entre um cinema pouco criativo e uma personagem que agrada sem parecer se encaixar no grupo de personagens que orbitam à sua volta.

O Rio

Publicado: agosto 22, 2019 em Cinema
Tags:

Ozen / The River (2018 – CAZ)

Agora em seu terceiro filme, Emir Baigazin segue fiel as características marcantes de sua filmografia. Pelos temas, novamente partindo do prisma de crianças e adolescentes, bullying, conflitos, amadurecimento precoce e rivalidade. O Anjo Ferido trazia quatro contos, de diferentes jovens, em suas situações desse tipo. Mais vigorosa era sua estreia, Lições de Harmonia, com mais foco em bullying e e violência caseira. Não é diferente nessa história de cinco irmãos vivendo numa vila remota, longe de tudo e de todos. O pai nunca os levara ao rio, perto de casa, e a descoberta desencandeia a trama.

Agora podemos falar na questão visual, e Baigazin segue com seus planos que mais parecem fotografias belíssimas, um cuidado meticuloso com cada posicionamento de câmera, com cada ângulo que possa entregar a conjunção perfeita entre homem e natureza, as vezes flertando com a natureza morta de quadros de Paul Cézanne, em outras com o resplendor do encontro entre céu e rio. A trama em si pouco se desenrola além dos conceitos morais de crianças tão ingênuas, um deles desaparece e há o peso da culpa recaindo. Além disso, as interpretações não são nada naturais, quase sempre falam em posição estática (assim como os planos fixos permanentes). Ocasionando assim, em mais um filme lindo, mas que não instiga.

Cubra Libre

Publicado: agosto 15, 2019 em Cinema
Tags:

Cubra Libre (1996 – ALE)

Em outro filme feito para a TV, Christian Petzold filma inspirado pelo clássico noir Curvas do Destino. Personagens marginais, fotografia suja, o cineasta alemão deixa tudo muito cru enquanto retrata os encontros e desencontros de um homem e uma mulher, com um passado de mágoas e desconfianças, que ainda nutrem o sonho de fugir, com dinheiro, para Cuba. Trambiques, gangsters, chave de cofre de um banco, sexo, sangue e morte. Por meio de personagens tão encardidos, Petzold filma os sonhos de uma vida fácil, de pessoas à procura do atalho no meio de uma estrada barrenta e cheia de competidores.