Eter

Publicado: setembro 21, 2021 em Cinema
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Ether (2018 – POL)

Nesses tempos de pandemia e de presidentes querendo empurrar cloroquina como salvação chega a ser curioso cair nesse drama histórico do veterano diretor polonês. Ele encontra um caminho para se debruçar sob o mito de Fausto, ainda versar sobre teologia (logo de cara o filme examina um quadro minuciosamente) na história desse médico militar abusando da ciência ao fazer experimentos com eter, no período pré-primeira GM, em busca de desempenho excepcional dos soldados.

Os questionamentos são atuais, mas o jeito de filmar é tão formal e antiquado, principalmente quando o filme se envereda por uma trama de espionagem, ou mesmo quando usa o assistente católico fervoroso para um pretenso embate com o médico ateu.

Iluminação

Publicado: setembro 20, 2021 em Cinema
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Iluminacja / Illumination (1973 – POL)

A estrutura narrativa é simples apenas seguindo os anos na vida de um estudante entre a entrada na Universidade de física até completar seu doutorado. Zanussi mescla a beleza da simplicidade com o experimental, cineasta destacado da nowa fala (a nouvelle vague polonesa), usa e abusa de elipses para sofisticar a singeleza.

Já o discurso não tem nada de simples, já abre com uma definição de Iluminação que servirá de metáfora à trajetória desse estudante que se apaixona, se casa, tem filho, passa dificuldades e “aluga” seu corpo à ciência para sobreviver. Ganhou o Leopardo de Ouro em Locarno 1973, Zanussi foi estudante de física e filosofia, faz sentido gostar dessa abordagem complexa em grandes filmes como esse ou A Estrutura de Cristal.

Casamento a Propósito

Publicado: setembro 17, 2021 em Cinema
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Pouic-Pouic (1963 – FRA)

A partir dos anos sessenta Louis de Funès se tornou um dos mais conhecidos atores do cinema, apenas quando já tinha 40 anos de idade. Seus filmes eram campeões de bilheteria, sempre de linguagem popular e conexão fácil com o público, num paralelo simples pode-se comparar no Brasil a Mazaropi até porque muitas vezes seus personagens era a personificação do típico francês, ácido e mau humorado. A parceria com o diretor Jean Girault rendeu muitos desses sucessos, e Casamento a Propósito é especial porque foi o primeiro sucesso de Funès, onde foi realmente descoberto pelo público.

A trama é simples, adaptado de uma peça de teatro, rende muita confusão envolvendo casamentos falsos, gente interesseira e a concessão de umas terras na América do Sul que, supostamente, tem muito Petróleo. O timing da comédia genuína, cheia de ingenuidade e trambiqueiros, faz de Pouic-Pouic um divertido passatempo de gags e romantismo.

10 Horas Até o Paraíso

Publicado: setembro 16, 2021 em Cinema

Teddy Bear (2012 – DIN)

A aparência bruta guarda uma manteiga, o fisiculturista cuja sensibilidade não combina com seu corpanzil. Quase quarenta anos, ainda vive dominado pela mãe como se tivesse apenas quatorze, tímido, mas de um bom coração fora do comum. Após cansar de seu coração solitário parte em busca de uma namorada na Tailândia, mas ele não se adequa ao turismo sexual, quer conversar, conhecer, se apaixonar. O filme é interessante nessa mistura de músculos e completa falta de jeito para tratar com as mulheres, seja a dominadora sua mãe, seja um flerte ou a futura esposa.

Ema

Publicado: setembro 15, 2021 em Cinema
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Ema (2019 – CHL)

A cada novo filme de Pablo Larraín, a expectativa se renova. Ele tem escolhido temas instigantes enquanto seu nome alcança prestígio a ponto de já ser figura importante em Cannes e ter filmado em Hollywood. Criticar padres pedófilos, falar de Neruda ou um retrato de Jackeline (Kennedy/Onassis) são os indicativos mais recentes, mas sua carreira sempre foi de temas impactantes. Já os filmes… Somente No caiu nas minhas graças, o filme sobre o plesbiscito chileno conseguiu ir além do simples resgate histórico.

Eis que chegamos ao seu novo trabalho, exibido na competição do Festival de Veneza 2019. A A sinopse transparece um filme simples, mas como todo filme de Larraín, simples não se parece com suas entregas. Esperar uma crise conjugal após um casal devolver o filho adotivo, é o mínimo que se espera. Mas, não estamos falando do casal, muito menos das dificuldades com o garoto colombiano, está falano de Ema. A jovem bailarina sente a necessidade de libertação e o filme mistura dança e sexo como maneiras de extrapolar essa personalidade.

O que resta ao filme é o vazio com que ele mesmo se completa, se aproximando de uma cinema executado atualmente por Gaspar Noe, o filme busca a plástica estética, brinca de pequenas orgias sexuais, e não vai além dessa personagem que tenta exalar sexualidade mas é de total incompletude de si mesma. O que sente Ema, o que pretende além de extravasar? E os personagens a sua volta não vão além de coadjuvantes de luxo de um filme mais preocupado com suas cores, com seus planos mais elaborados, quanto mais Ema despiroca, menos se encontra ali dessa nova juventude que ama sem limites de gêneros e corpos, que troca fluídos a seu bel prazer.

A Hora da Religião

Publicado: setembro 14, 2021 em Cinema
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Lora di religione (Il sorriso di mia madre) (2002 – ITA)

“Você está sorrindo?” por diversas vezes personagens questionam nosso protagonista ateu, em meu a diálogos que, suspostamente, deveria ser sérios, afinal o tema aqui é o processo de betificação da mãe dele. Chama atenção como Marco Bellocchio posiciona essa indignação dos personagens, já que eu não imaginaria outra, questionamentos que me parecem pouco coerentes sempre me tiram um sorriso, seio graça, como se fosse o início de um tipo de frase para tais ocasiões, uma espécie de interjeição.

Esse sorriso discreto e incrédulo acompanha esse homem enquanto tenta serr o pai desse garoto adorável que questiona a religião que aprende na escola e os conceitos que seus pais ensinavam. É esse sorriso que lida com a ex-esposa, com sua carreira de pintor e desenhista, e mais precisamente com todo esse processo, que rapidamente percebemos ser uma farsa bem arquitetada. Ao longo da trama descobrimos mais sobre a mãe que pode virar santa, e sobre seus três filhos.

Por trás dessa história “em particular” está também ser um ateu em Roma, veja bem, em Roma, onde o Vaticano é praticamente o coração que faz a cidade pulsar. Bellocchio está menos preocupado com desenrolar a trama (aquele Conde? Não, Bellocchio não pretende fazer sentido, afinal a religião faz algum, as pessoas simplesmente querem acreditar), seu interesse é dar mais complexidade ao personagem e sua não relação com o catoliscimo e a hipocrisia familiar, e no meio de tudo isso se apaixonar, e principalmente ser pai, um pai presente. Daqueles filmes que aprisionam seu personagem na mente, e que facilmente ficarão na memória, principalmente se te questionarem se seguir caminhos religiosos e de fé diferentes do que a sociedade em que você estiver inserido)

O Homem do Prego

Publicado: setembro 13, 2021 em Cinema
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The Pawnbroker (1964 – EUA)

Tem sido mais lembrando por algumas curiosidades como a interpretação destacada de Rod Steiger, que ganhou prêmio de melhor ator em Berlim e foi indicado ao Oscar. E também pela polêmica que atrasou por meses o lançamento do filme, nos EUA. Pode parecer bobagem hoje, mas foi o primeiro filme em Hollywood com mulheres exibidos seus seios.

Mas o filme é muito mais do que essas curiosidades, Sidney Lumet usa de edição rápida, com flashes de memória, para intensificar a mente perturbada do judeu sobrevivente do holocausto que agora vive trancafiado, em outro local, em sua loja de penhores. Entre grades e sua vida sem graça, se passa a história desse homem atormendado por suas lembranças e completamente indiferente a qualquer sentimentalismo que seus clientes usam para tentar dar valor às mercadorias que tenta penhorar. Gangster no Harlem, trilha sonora elegante de jazz, a sequencia que compara como 2 personagens encaram o sexo, me parece um filme que tem destaque bem menor do que merecia.

A Minha Vida Lenta

Publicado: agosto 26, 2021 em Cinema
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Mein Langsames Leven / Passing Summer (2001 – ALE)

Gosto desse cinema da alemã Angela Schanelec que parece apenas observar o cotidiano, e não interferir, seus filmes são ficções que deixam esse sabor de voyeur, mas também ca câmera ser aquela amiga (o) mais caladão da turma, que está sempre junto, testemunha e pouco fala. A câmera observa, as pessoas conversam num café, num restaurante, viajam de trem. Enquanto isso acompanhamos esse grupo de personagens tentando se encontrar em suas vidas profissionais, em seus casamentos, em novos relacionamentos, na relação com filhos. Sim, seu cinema é lento, mas é fluído, e constrói um retrato bem natural do que é viver nos anos 2000.

Sibéria

Publicado: agosto 25, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Siberia (2020 – ITA)

Abel Ferrara já nos ofereceu tantos filmes, mas não lembro de um que mergulhasse tão contundentemente na questão do masculino, ainda mais ao partir desse fiapo de história de um homem com seu bar, num local inóspito da Sibéria, sem nem falar a língua local. Claramente um homem marcado por perdas e cicatrizes até que um sinal de mudança em sua vida o mergulha numa viagem psíquica. Me surpreende pela construção às vezes minimalista, às vezes transcendental, desse homem revisitando sua infância, sua relação com o pai, com seus desejos sexuais, com suas frustrações, e tantas outras leituras que o filme permite. Willem Dafoe sensacional.

Não Há Mal Algum

Publicado: agosto 24, 2021 em Cinema
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There Is No Evil (2020 – IRA)

Pena de morte, tão absurdo para alguns, a solução exemplar para punir e servir de lição para outros. O cineasta iraniano Mohammad Rasoulof sempre prezou por um cinema humanista, aqui ele constrói seu filme a partir de 4 histórias independentes, mas que tem sempre em comum o questionamento de como a pena de morte influencia os intimamente ligados a ela.

Com tons diferentes entre sim, as duas últimas, por exemplo, são melodramas bem tradicionais, Rasoulof é mais feliz no conceito, no mostrar o lado de quem fica, dessa forma indo além da discussão sobre um ser humano julgar a vida/morte de outro humano, seja lá qual crime tenha cometido. Se esse conceito é interessante, e funcional (dentro dele ainda há o serviço militar obrigatório), o filme, como um todo, é bem simplório (ainda que haja planos-sequencias nos corredores da segunda, ou o voyeurismo na primeira, que ajudem a quebrar o totalmente acadêmico), e até arrastado, se valendo unicamente do conceito como tripé para se estabelecer como obra.