O Rio

Publicado: agosto 22, 2019 em Cinema
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Ozen / The River (2018 – CAZ)

Agora em seu terceiro filme, Emir Baigazin segue fiel as características marcantes de sua filmografia. Pelos temas, novamente partindo do prisma de crianças e adolescentes, bullying, conflitos, amadurecimento precoce e rivalidade. O Anjo Ferido trazia quatro contos, de diferentes jovens, em suas situações desse tipo. Mais vigorosa era sua estreia, Lições de Harmonia, com mais foco em bullying e e violência caseira. Não é diferente nessa história de cinco irmãos vivendo numa vila remota, longe de tudo e de todos. O pai nunca os levara ao rio, perto de casa, e a descoberta desencandeia a trama.

Agora podemos falar na questão visual, e Baigazin segue com seus planos que mais parecem fotografias belíssimas, um cuidado meticuloso com cada posicionamento de câmera, com cada ângulo que possa entregar a conjunção perfeita entre homem e natureza, as vezes flertando com a natureza morta de quadros de Paul Cézanne, em outras com o resplendor do encontro entre céu e rio. A trama em si pouco se desenrola além dos conceitos morais de crianças tão ingênuas, um deles desaparece e há o peso da culpa recaindo. Além disso, as interpretações não são nada naturais, quase sempre falam em posição estática (assim como os planos fixos permanentes). Ocasionando assim, em mais um filme lindo, mas que não instiga.

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Cubra Libre

Publicado: agosto 15, 2019 em Cinema
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Cubra Libre (1996 – ALE)

Em outro filme feito para a TV, Christian Petzold filma inspirado pelo clássico noir Curvas do Destino. Personagens marginais, fotografia suja, o cineasta alemão deixa tudo muito cru enquanto retrata os encontros e desencontros de um homem e uma mulher, com um passado de mágoas e desconfianças, que ainda nutrem o sonho de fugir, com dinheiro, para Cuba. Trambiques, gangsters, chave de cofre de um banco, sexo, sangue e morte. Por meio de personagens tão encardidos, Petzold filma os sonhos de uma vida fácil, de pessoas à procura do atalho no meio de uma estrada barrenta e cheia de competidores.

Ilha

Publicado: agosto 8, 2019 em Cinema
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Ilha (2018)

Depois do sucesso de critica, a dupla Glenda Nicário e Ary Rosa volta com altas doses de experimentação. Começando pela trama onde um jovem da periferia quer fazer um filme sobre sua vida e sequestra um cineasta baiano e o obriga a realizar as filmagens. Muita licença poética na forma de convencer, de evoluir entre ficção e docudrama, enquanto os diretores filmam ângulos mais que inusitados e um ritmo narrativo que foge, completamente, dos padrões estabelecidos.

Tanta experimentação é um risco que a dupla corre, e nem tudo funciona. Algumas cenas são vistosas e funcionais, outras ficam apenas na vontade de experimentar formatos e maneiras de abordar esse misto de repulsa, amizade e atração. Música, o beira-mar, o vento do fim de tarde, e o resgate de memórias afetivas ou traumáticas, está longe do onírico, mas quase radical em muitas de suas propostas.

Heartboud: A Different Kind of Love Story

Publicado: agosto 1, 2019 em Cinema

Hjertelandet / Heartbound (2018 – DIN)

Janus Metz é um cineasta para ficar atento, após seus dois bons filmes anteriores: o documentário Armadillo e a ficção Borg vs McEnroe. Aqui ele divide a direção com sua esposa, Sine Palmbech, e juntos acompanharam por mais de 10 anos um grupo de mulheres tailandeses que se mudaram para a Dinamarca para arranjar marido.

São histórias de todos os tipos após os encontros arranjados, de relacionamentos duradouros a separações traumáticas, de filhos a desolação da separação. Mulheres que saíram da prostituição, as que deixaram famílias que dependem delas economicamente. Acima de tudo são  histórias de amor, que o casal de cineastas pouco interferem, e assim confirmamos que não há regras para coisas do coração.

Monster

Publicado: julho 26, 2019 em Cinema

Monstri / Monster (2018 – ROM)

Dirigido por Marius Olteanu e exibido na mostra Forum, de Berlim, é a Romênia apresentando outra grata surpresa nos festivais internacionais. Dividido em três partes, as duas primeiras com janela quadrada, que intensifica a sensação claustrofóbica, o filme traça o perfil de um casal com casamento em frangalhos, questões sexuais, familiares e sociais e os monstros pessoais de cada um deles que aumentam a complexidade matromonial.

As duas primeiras partes contam a versão de cada um deles, de um momento particular. Na terceira a janela se abre para dar espaço ao casal em cena, e assim Olteanu consegue desenvolver bem seus personagens para então dar dimensão da situação juntos. É bonito o travelling na estação de trem, quando ele volta a Bucareste, o estilo sem jeito com que ele conversa com um homem desconhecido, e principalmente a sequencia final, numa escada, com todo o peso dos problemas do casal já exemplificados ao público, num misto de amor esperança ou amor e desesperança, fica a critério da sua leitura.

Maya

Publicado: julho 17, 2019 em Cinema
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Maya (2018 – FRA)

O novo trabalho de Mia Hansen-Love é um novo capítulo de frescor em sua filmografia. Uma viagem à Índia num prisma bem diferente do que estamos acostumados pela visão ocidental naquele país. Ao invés do estranhamento com relações sociais, alimentação e outras características, o protagonista tem é um fascínio admirável pelo país que o acolheu quando criança. E, logo após um trauma complicado (o filme tem início quando ele, jornalista, é liberado por terroristas sírios e retorna à França), busca refugío onde guarda boas lembranças.

Sem dúvida é um personagem cheio de feridas em busca de cicatriz, e como um road movie, nos faz viajar por diferentes lugares, aproveitar a paisagem, lidar com a pobreza com naturalidade, redescobrir o amor. Pode até parecer clichê na questão romântica, com tantos contrastes e sonhos diversos entre eles, mas a cineasta filma com tanta leveza que mesmo as questões mais complexas (como a predatória sede imobiliária) são duras, mas com sabor especial. Mia Hansen-Love mantém a riqueza de seu cinema através de uma disfarçada simplicidade, e mostra uma Índia a ser descoberta.

Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (2019)

Marcelo Gomes é um dos cineastas com filmografia das mais interessantes do cinema nacional contemporâneo. Vai desde ficções e documentários (Cinema, Aspirinas e Urubus ou Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), com forte carga pessoal, a dramas históricos, no caso Joaquim, sobre Tirandentes. Todos são filmes em que a paisagem, o ambiente, são quase personagens, e o deslocamento é figura importante nas narrativas.

Não é diferente nesse novo trabalho, partindo de lembranças de quando era garoto, Marcelo Gomes parte para um estudo sobre a cidade de Toritama (no agreste pernambucano). Não se sabe bem porque, mas a cidade se tornou um dos maiores polos produtores de jeans no Brasil. Microfabricas arranjadas nas garagens ou mesmo na calçada das casas de quase todos os moradores configura uma paisagem em que é difícil não ver todo mundo com um jeans nas mãos.

Todos trabalham na base da produtividade, ganham por quanto produzem e assim fazem suas longas jornadas de trabalho. Surge a primeira questão: vale a pena não ter chefe e trabalhar 16 horas por dia? Muitos deles respondem a questão, mas a dúvida permanece ao público, porque a vida parece fadada ao trabalho, exceção feita ao Carnaval, momento em que tudo para, todos abandonam os jeans e vendem tudo que tiver só para pagar a viagem e pular o Carnaval.

Marcelo Gomes nos faz lembrar o estilo de Eduardo Coutinho enquanto conversa com seus personagens, tão simpáticos e simples, mas que bebem dos mesmos objetivos e opiniões. Uma sociedade moldada através de uma liberdade questionável, de um capitalismo perverso, mas que parece consenso de seu preço é bem-vindo a todos de Toritama.