Tristana, Uma Paixão Mórbida

Publicado: agosto 2, 2021 em Cinema
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Tristana (1970 – ESP)

Este grande clássico marca o reencontro do cineasta Luis Buñuel com Catherine Deneuve após A Bela da Tarde, e sempre chama a atenção quando o cineasta espanhol usa também da narrativa mais clássica, ainda que sempre se destaque por criticas cruéis à sociedade. Aqui, seu alvo central é a Igreja católica que aceita que o tutor (Fernando Rey) de uma jovem (Deneuve) a tome por sua amante, quando se encanta por sua beleza.

É a política da aceitação da sociedade, o homem mais velho pode decidir por seus desejos, a jovem precisa aceitar e seguir a cartilha da etiqueta da aristocracia. Mas, ela se apaixona, e as consequências dessa realação se tornam desastrosas, até o final surpreendente que remete a uma inexplicável mistura de nojo e sensação de afeto familiar.

A Estrutura de Cristal

Publicado: julho 30, 2021 em Cinema
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The Structure of Crystals (1969 – POL)

A aparente simplicidade é apenas um despiste, a estreia de Krzysztof Zanussi é tuo menos simples. A sensação vem da vida dessa família que vive num local inóspito da Polônia, no meio da neve, enquanto os filhos crescem, ela é professora e ele administra um centro metereológico. A chegada de um grande amigo vem para trazer o que está acontecendo mundo afora e questionar essa escolha de se distanciar, vem ser o questionador, a provocação. São seis semanas de bate papo, e Zanussi nos faz acompanhar com intimidade a fraternidade, as opinioes opostas, os momentos mais simples da vida.

Piedra Sola

Publicado: julho 29, 2021 em Cinema

Piedra Sola / Lonely Rock (2020 – ARG)

Norte da Argentina e Chile, sul de Peru e Bolívia, e ainda um pedacinho de Brasil, por ali fica locais turísticos conhecidos como o Atacama e Salar do Yuni. É uma região onde as fronteiras entre os países nem fazem sentido, há até uma bandeira própria para a região, uma maneira de chamar o continente que não América, um movimento para criar um Estado independente. Muitas crenças e tradições, talvez o povo indígena mais presente da região sejam os aymaras (Evo Morales é um deles). Quem viajou por essas bandas vai entender melhor tudo isso.

Quando se viaja por esses pontos o que mais chama atenção é a beleza da natureza, os Andes, o pôr do sol. Exceto nas cidades maiores, quase nao se vê pessoas, espalhados por lugares inóspitos, em alta altitude. O filme é um pequeno mergulho nas pessoas, sem abandonar a natureza. Os pequenos fazendeiros que vendem carne de lhama, o puma que tem matado animais e eles discutem como lidar com ele, um funeral. As cores vibrantes da região, seus tons de marrom são substituídos por uma paleta de cinzas, pelos planos fechados nos rostos cujas marcas da vida escassa são marcantes. É um daqueles documentários pacatos, observacionais, que tenta resgatar o dia-a-dia com um mínimo de interferências nessas vidas.

Eu Vejo Nu

Publicado: julho 28, 2021 em Cinema
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Vedo Nudo / I See Naked (1969 – ITA)

Quando eu era criança, um livro na estante de casa me fascinava porque o título Eu Vim Nu me despertava curiosidade. Quando finalmente cresci e o li que fui descobrir que se tratava da biografia do escultor Rodin. O filme de Dino Risi não me enganou como o livro (que alias, recomendo), mas traz aquele pequeno sabor de promiscuidade soft, de divertir sem querer agredir a ninguém. Um conjunto de sketches que tem na sexualidade sua referência. Vai desde o a musa que atrai mais atenção num hospital que o acidentado que ela socorre, até o homem que gosta de se vestir de mulher, passando pelo que tem fetiche por trens e termina com a história do que vê todas as mulheres nuas. Nada engenhoso, mas bastante divertido.

Tratamento Diabólico

Publicado: julho 27, 2021 em Cinema
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Traitement de Choc / Shock Treatment (1973 – FRA)

“Paraíso de pobre é enterro” parte da canção de Martinho da Vila que fecha o filme é apenas mais um dos elementos de critica que o filme evidencia. Além da questão da exploração da imigração, há a crítica ao culto da beleza, uma clinica que encontrou um estranho tratamento para rejuvenescer seus clientes enquanto os jovens atendentes vão desaparecendo lentamente.

O thriller psicológico dirigido por Alain Jessua, e que tem Alain Delon como vilão é só esforçado, mas guarda umas duas sequencias razoáveis. Duro é buscar nos selvagens brasileiros, e a música brasileira está lá várias vezes para nao fazer esquecer, a inspiração para atender os caprichos dos “fortes” (podemos dizer fortes economicamente aqui)

Happy Hour

Publicado: julho 26, 2021 em Cinema
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Happy Hour (2015 – JAP)

Como numa boa novela contemporânea, o cineasta japonês Ryusuke Hamaguchi dá espaço para dramas cotidianos se desenrolarem de maneira palpável. São mais de cinco horas onde mergulhamos nas vidas amorosas de 4 amigas de maneira singela, numa tão sabida sociedade japonesa ainda machista. Divórcio, gravidez, traição, liberdade, decepção, carreira, filhos, as questões são as mesmas de sempre, a diferença é que Hamaguchi é um artesão dessa construção de personagens e diálogos críveis, em seus silêncios, em adiar conflitos que estão nítidos.

Parte da beleza talvez esteja no impulsivo, que nos faz mais humanos, os comportamentos de cada uma delas ecoa num espectro esperado, mas há um limite que nada mais é que um grito de socorro, de liberdade, e o inesperado desconcerta. Uma delas está em processo de divórcio, o marido não aceita, mas a coragem de enfrentar funciona também como chacoalhada na zona de conforto de todas elas. Com o passar das horas o filme vai deixando os homens cada vez mais frágeis, quem sabe um gesto indicativo de mudanças na sociedade contemporânea.

Ordem Moral

Publicado: julho 23, 2021 em Cinema

Ordem Moral (2020 – POR)

Ainda que se esgueire pelo novelão (uma tendência tão forte no cinema português mais tradicional), o filme é forte e atual ao trazer à tona a história da herdeira de um dos mais importantes jornais portugueses. Um exemplar digno da posição submissa que se permitia a mulher, ainda que rica, no início do século XIX. Maria de Medeiros ótima.

Mas não espere muito sobre o jornal, o filme é sobre o drama particular, a impossibilidade de liberdade, o teatro como o frívolo para uma rica desocupada que nao deve se envolver nos negócios que lhe pertencem, a dominação de pai e filho sobre uma mulher madura, a sociedade tratando como loucura quem apenas quer sua liberdade.

Arbusto em Chamas

Publicado: julho 22, 2021 em Cinema
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Horící Ker / Burning Bush (2013 – TCH)

Quem já visitou Praga ouviu falar de Jan Palach, o estudante que morreu após atear fogo em seu próprio corpo como protesto pela ocupação Soviética na Tchecoslováquia no ano anterior. A diretora polonesa Agnieszka Holland estudava cinema em Praga à época, e conheceu alguns dos personagens reais, o que me parece mais que gabaritada para dirigir essa minisserie da HBO, depois exibida nos cinemas.

É um filme que reconstituição da história, com medo da repercussão de sua morte o governo soviético tenta desacreditar o garoto, a família resolve processar um deputado socialista, entra em cena a jovem advogada (que no fim do regime se tornaria a primeira Ministra da Justição da Tchecoslováquia livre).

Não é preciso muito para imaginar o que o autoritarismo faz para encobrir fatos e proteger seus aliados, e o filme é importante para esse resgate não sair da memória, enquanto Holland filma com elegância, além de imprimir a ótica feminina, tanto no olhar do filme, quanto das personagens mulheres que já sofriam a repressão da sociedade, fora a questão política. A primeira parte é confusa com muitos personagens e correria de hospital, depois a trama de tribunal e política se ajeita quando a atriz eslovaca Tatiana Pauhofová assume o protagonismo.

Nádia, Borboleta

Publicado: julho 21, 2021 em Cinema

Nadia, Butterfly (2020 – CAN)

Incômodo, claustrofóbico, competitivo. A primeira parte do filme é muito competente em trazer mais que os bastidores do esporte de alta-perfomance, e sim muito do espírito competitivo, da tensão, do desgaste. A câmera em planos-fechados, a nadadora jovem que já planeja se aposentar, a pressão por uma medalha, rivalidade.

Depois da competição o filme parte para outro pontos de bastidores, as famosas festas na Vila Olimpíca entre atletas jovens e cheios de vida, as entrevistas, e o que vem a seguir. Essa parte não é tão intensa, nossa protagonistas é amargurada, até comum ar superior pelo que decidiu trilhar a seguir, ainda assim o filme parece bastante verossímil e forma um quadro curioso que foge dos clichês de superação que tomaram os dramas esportivos de uma forma que qualquer coisa já é um alívio. Que tristeza ver um filme sobre as Olimpíadas que sabe-se lá quando irão ocorrer.

Os Melhores Anos de uma Vida

Publicado: julho 20, 2021 em Cinema
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Les Pus Belles Années D’Une Vie / The Best Years of a Life (2019 – FRA)

Nostalgia é o combustível que Claude Lelouch usa para resgatar, novamente, os personagens do filme que marcou sua carreira. Ele não economiza em reutilizar cenas e mais cenas do clássico Uma Homem, Uma Mulher. O galanteador piloto agora vive num asilo e passa o dia a recordar daquele amor vivido ou de overdoses de sonhos. A trilha em piano intensifica aquele clima de calmaria e de melancolia romântica, e os diálogos estão sempre indo pouco além desse relembrar de histórias vividas.

Mas, essa nostalgia até que funciona a quem descobriu o filme clássico, o reencontro de Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant sempre guarda um sabor especial, mesmo num filme que nem se esforça muito. Os gracejos dele, o mexer no cabelo dela, há no casal um magnetismo que se torna, facilmente, a única razão de desistir desse filme.