Pela Janela

Pela Janela (2017) 

Para ser demitido, basta estar empregado. A estabilidade nunca foi certeza no mercado de trabalho, as empresas mudam, a chefia muda, e decisões são tomadas. Rosália (Magali Biff, em atuação incrível) já passou dos sessenta anos, e mesmo com trinta anos na mesma fábrica tem o alicerce de sua vida derrubado quando é demitida.

De forma muito sensível a diretora estreante Caroline Leone transforma o drama dessa mulher num road movie, o irmão precisa levar um carro de São Paulo a Buenos Aires e carrega a irmã junto. Com um sorriso amarelo e a força de vontade quase no zero, ela parte por pequenas descobertas, com o ânimo pendurado numa gangorra.  É um filme de simplicidade, de intimidade entre público e a personagem que perdeu o rumo, e de diálogo direto com a questões que a política nacional decidiu colocar na pauta das discussões de botequim (previdência, leis trabalhistas). De fato, no Brasil, vivemos um grande cada um por si.

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Os Iniciados

Inxeba / The Wound (2017 – AFS) 

Um dos nove pré-indicados ao Oscar de Filme Estrangeiro, o filme dirigido por John Trengove mergulha na masculinidade através do antigo costume dos Xhosa (uma das etnias sul-africanas) de realizar circuncisão em jovens, no meio da floresta, durante uma semana, como forma de estimular o amadurecimento como “homem”. Uma espécie de coming of age cru, razoavelmente agressivo, mas também uma maneira de manter a cultura tradicional entre as modernidades da vida contemporânea. No centro da trama a questão da sexualidade que complica as relações e exprime o poder do machismo.

Trengove filma com muitos planos fechados, câmera na mão acompanhando iniciados e curadores na montanha, cenas escuras da intimidade. O bullying e o machismo como tônica cabal das relações entre homens, e essa estranha congruência entre o tradicional e o novo (pintados de branco, vestimentas antigas, e brigando por um tênis colorido). E no meio de tudo uma relação à Brockback Mountain, com toda a expressão de possessividade e interdependência que um amor proibido pode oferecer.

Me Chame pelo Seu Nome

Call Me By Your Name (2017 – EUA) 

Com I Am Love e A Bigger Splash, o diretor Luca Guadagnino já vinha capturando a burguesia com olhos nem tão críticos, aproveitando de sua beleza para desenvolver histórias e personagens. Podem ter sido bons laboratórios para o que veria a seguir, já que seu novo filme tem arrebatado plateias, causado comoção numa forma identificação imediata com anseios e expectativas que só mesmo o cinema consegue corresponder.

Verão de 1983 na Itália, uma família de intelectuais recebe um visitante acadêmico americano, Oliver (Armie Hammer). O foco central está sob o filho de 17 anos, Elio (Timothée Chalamet), que se relaciona com amigos da região, descobre o sexo, enquanto desperta uma forte atração pelo visitante. Guadagnino estabelece os laços afetivos sem nenhuma preocupação com preconceito, são pessoas livres, que se apaixonam pelo sexo oposto ou não, com naturalidade. Talvez seja a principal fortaleza do filme, o amor, sem se preocupar com convenções.

O verão transcorre entre passeios de bicicleta, livros à beira da piscina, festas no vilarejo, e o simples florescer de Elio transcorrendo a nossa frente, de maneira fascinante. O desejo, o sexo, são o combustível dessa história tão sensível, de joguinhos amorosos, de libido latente. E a complexidade em dar espaço a tantos personagens e interrelacionamentos, e em buscar permear com a rotina culturamente rica da família. Alegria e sofrimento, descobertas e experimentações, tudo condensado no momento-chave, numa conversa pai e filho que é de uma sensibilidade e compreensão indescritíveis. E que venha o Oscar.


Festival: Sundance

Mostra: Premières

EP 109 – Assédio e Retratação

A semana foi quente nas polêmicas sobre assédio e os protestos das mulheres do cinema, com novos acusados de abuso sexual e debates após o manifesto de 100 francesas – entre elas, a atriz Catherine Deneuve. Voltamos a debater a polêmica (24:48) na edição desta semana.

Em destaque, dois filmes oscarizáveis: O Destino de Uma Nação (39:28), de Joe Wright, traz Gary Oldman como Churchill – ele é favorito ao prêmio de melhor ator. E a nova animação da Pixar, Viva – A Vida é Uma Festa (1:07:18), anda emocionando o público com uma homenagem bem americana à cultura do México.

No Boletim do Oscar (16:10), os Indicados ao Bafta, DGA e os vencedores do Critic’s Choice. E, claro, os tradicionais Cantinho do Ouvinte e Recomendações. Bom podcast!


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Possessão

Possession (1981 – POL) 

Perturbadora alegoria de terror psicológico criada por Andrzej Zulawski a cerca da traumatizadora separação de um casal: Isabelle Adjani e Sam Neill. Infidelidade, violência, loucura, depressão, alguns dos elementos que o diretor polonês impõe a seu filme, em cenas que preferem o perturbador ao explicadinho. Há uma linha de história a se seguir, o marido traído, o amante mais velho e o filho pequeno do casal como arma de negociação. Porém, o filme está longe de buscar uma linha de história para contar, ao contrário, ele cria cenas e mais cenas que exploram a loucura dos comportamentos, que levam o público a se sentir à flor da pele com tantas alegorias tensas e enlouquecedoras.

Possessão é um petardo psicológico de personagens levados aos extremos, que ainda encontra em elementos sobrenaturais a completa personificação de metáforas enlouquecedoras. O horror familiar, a sensação do se sentir sufocado, e a fuga sexual como um refúgio transformador. Lembre-se de O Iluminado, mas também de alguns filmes de Polanski como Repulsa ao Sexo, e adicione estudos psicodramáticos e anda assim não será capaz de resumir a histérica alucinação que as imagens do filme de Zulawski evocam.


Festival: Cannes

Mostra: Competição principal

Prêmio: Melhor Atriz

Apesar da Noite

Malgré La Nuit / Despite the Night (2015 – CAN) 

Philippe Grandieux é mais um desses cineastas provocativos que através do experimental conta tramas sensoriais e aflitivas.  Seu mais recente trabalho extrapola pelo sexo para uma desafiante narrativa em que os diálogos, muitas vezes, são mero apelo estético, deixando a comunicabilidade para os longos planos que quase desnudam seus personagens.

Um homem retornado à Paris, querendo resgatar seu antigo amor, e acaba envolvido com outra mulher. Adicione o mundo pornográfico hardcore (snuff movies) e essa subversiva maneira com que Grandieux desenvolve personagens e relacionamentos, e teremos um dos filmes mais genuínos dos últimos anos, ainda que por sua radicalidade possa afastar boa parte do público.

EP 108 – O Cinema Veste Preto

O protesto, os premiados, os esnobados… O grande tema da semana é a cerimônia de premiação do Globo de Ouro (1:00:07). Batemos um papo sobre o movimento #TimesUp, em que a maior parte das estrelas de Hollywood se vestiram de preto, os altos e baixos da festa e sobre como fica a corrida do Oscar a partir de agora.

Antes disso, nossas opiniões sobre os dois principais filmes premiados em Cannes, que estreiam esta semana. A Palma de Ouro foi para o sueco The Square – A Arte da Discória, de Ruben Ostlund (10:50). Já o Grande Prêmio do Juri ficou com 120 BPM, de Robin Campillo (38:38). Prêmios merecidos?

Ainda: Boletim do Oscar com os indicados ao PGA, o nosso Cantinho do Ouvinte e, nas Recomendações (1:42:43), o fenômeno do “isso é muito Black Mirror”. Bom podcast!

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