Roma

Roma (2018 – MEX) 

Sempre difícil lidar com o filme que você cria em sua cabeça através das expectativas. E no caso do novo trabalho de Alfonso Cuarón elas são altas, diria altíssimas. E realmente é um grande filme, e tão pessoal ao cineasta que foi resgatar a história da babá que cuidava dele, e dos irmãos, no México de tantos conflitos nos anos 70. Todo filmado em preto e branco, o primeiro destaque é o clima de nostalgia (potencializado pelo uso constante de travelings pela casa) e de grandiosidade, quando trata de uma história pequena e pessoal, os dramas de uma empregada doméstica.

Tem um pouco da proposta de Santiago, mas as coincidências param em dar foco a empregados da época de infância dos cineasta que foram muito marcantes em suas vidas. O filme de João Moreira Salles tem uma proposta bem mais radical, a de Cuarón é mais afetiva, e elaborada no plano visual. Esses travelings desnudam ambientes, a casa parece viva, cada canto com sua vida própria. As coisas vão acontecendo com tantos filhos e empregadas.

Roma guarda a grandiosidade nas pequenas coisas, nos pequenos e grandes dramas de Cleo (Yalitza Aparicio) que vive a vida dos donos da casa, que cuida das crianças em tempo integral e tem pouco espaço para sua individualidade. E quanto há espaço, são problemas, desilusões e alguns raios de felicidade. O novo filme de Cuaron não vem redescobrir novas formas de contar histórias, mas de dar voz a personagens coadjuvantes, mas que falam tanto de uma parcela tão grande da população. É um personagem das massas, que dá de frente com a violência das ruas, com a fragilidade de sua situação financeira e com a relação quase umbilical com seus chefes.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Filme

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EP 155 – As Viúvas e a Mulher do Padre

Em discussão esta semana, dois filmes com boas chances de entrar na corrida do Oscar. O veterano, e sempre renegado pela Academia, Paul Schrader retorna com First Reformed (16:20), explorando assuntos fortes como religião e ativismo ambiental. O roteiro e a atuação de Ethan Hawke têm chamado atenção nos prêmios da crítica.

E o cineasta inglês Steve McQueen lança seu primeiro filme desde o oscarizado 12 Anos de EscravidãoAs Viúvas (54:59) é um thriller de assalto valorizado por temas urgentes, principalmente a questão do empoderamento feminino. A estatueta irá para Viola Davis?

Antes deles, o Boletim do Oscar (3:13)vem recheado com as últimas novidades, indicações e premiados. As Recomendações (1:19:58) destacam desde a estreia de Mata Negra a filmes em streamings como Cam e Happy as Lazzaro. E o Cantinho do Ouvinte repercute a os comentários dos nossos ouvintes. Bom podcast!


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Rasga Coração

Rasga Coração (2018) 

Ainda me surpreendo, negativamente, com o desinteresse do público pelo cinema nacional, ou a própria desconexão dos filmes com esse público. O novo filme de um diretor como Jorge Furtado, não poderia chegar assim, de mansinho, na reta final do ano, seus filmes anteriores e trabalhos na tv o credencial a uma atenção bem maior. Dito isso, o diretor e roteirista gaúcho mantém sua capacidade de falar com os mais diferentes públicos, de trazer humor para debates relevantes, e uma narrativa marcada pela simplicidade.

Adaptando uma peça de teatro, a narrativa se divide em duas épocas. Nos dias de hoje, um casal de classe média em conflito com o filho que aderiu ao mundo vegano, que só anda de bicicleta para proteger o planeta e etc. Esse pai (Marco Ricca) é o jovem que enfreta seu pai moralista durante a ditadura Militar.

O filme trata desses conflitos de gerações, principalmente o poder do amadurecimento x o idealismo juvenil. Nesse contexto explora política, do macro até a política do nosso cotidiano, a relação pai x filha, marido x esposa na casa dos cinquenta anos.

Talvez a trama em flashback sofra com irregularidade, quase trampolim para a história dos dias atuais, mas é um filme interessante e que dialoga tanto com a situação atual. Os filmes todos de Furtado são assim, tentam se diferenciar muito entre si, mas são carregados de uma pegada jovem e de uma fluidez narrativa, por isso mereciam mais interesse. Inclusive, talvez seja este seu melhor filme, e todos sempre deixam o gostinho de que o próximo vai ser um dos bons. Que venha esse tão aguardado.

Museu

Museo / Museum (2018 – MEX) 

Inicialmente temos um filme de assalto, baseado em fatos reais. São dois jovens e amadores assaltantes planejando o roubo de várias peças do museu de Antropologia da Cidade do México. Para tanto, além de deflagar a vergonhosa (falta de) segurança do museu, o  filme se preocupa em desenvolver seus dois personagens centrais. Noite de Natal, as festas em família, os pequenos conflitos, a dependência de um pai doente, a ambição de crescer na vida, rapidamente, o confronto com os pais.

O cineasta Alonso Ruizpalacios usa todos esses elementos para representar o México da década de 80. Ele filma, tanto o assalto, como as relações familiares, com linguagem cinematográfica diferente do usual (montagem acelerada, cenas mais intimistas ou quase claustrofóbicas), como quem quer transmitir sentimentos além do que os atores possam entregar. E, a seguir ao roubo, o filme ganha outros contornos, mesmo sem sair do seu tom, e apresenta os dois ingênuos em busca de um comprador, numa espécie de road movie por esse México  decadente, enquanto a população se mobiliza por peças de museu que pouca importância davam.

Esses contrastes transformam o filme de Ruizpalacios em algo além do simples filme de assalto, há algo da identidade de um povo, além da transformação que os dois personagens passam ao longo desse processo de investigação, fuga, e tentativa de serem grandes negociadores quando não enganam ninguém.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Roteiro

EP 154 – Se Esse Monolito Falasse

Eis a nossa homenagem aos 50 anos do grande clássico de Stanley Kubrick. A Cinemateca da Varanda traz ao debate 2001 – Uma Odisséia no Espaço (10:29). Nossos primeiros contatos com o filme, curiosidades sobre a produção, nossas leituras sobre as questões filosóficos exploradas na tela e muito mais.

E um novo longa-metragem que merece atenção é Verão (52:28), sobre a cena punk rock na União Soviética dos anos 80, com foco no surgimento de um dos ícones da geração em meio a um triângulo amoroso inusitado.

Boletim do Oscar (1:37) traz os principais favoritos na categoria de Filme Estrangeiro. Recomendações (1:15:04) como o livro de Michael Benson sobre 2001 e o filme Ponto Cego, que passou discretamente pelos cinemas.

No Cantinho do Ouvinte (1:22:44), a participação dos nossos ouvintes sobre o episódio passado, que termina num inesperado, e gigante, Buraco do Spoiler sobre Em Chamas. Bom podcast!


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Sueño Florianopolis

Sueño Florianopolis (2018 – ARG/BRA) 

A diretora argetina Ana Katz construiu aquí um exemplar de cinema sulamericano made in exportação. Está todo embalado para agradar plateias que procuram o exótico do cidadão comum da região. Em tom de comédia dramática, trata argentinos e brasileiros como povos do jeitinho, que buscam glamour e sempre acabam bem longe do planejado.

Exceção à comédia de costumes (pechinchar no hotel, casa alugada que não era o esperado e etc), há o mais interessante no filme que é a integração entre o casal protagonista e o de brasileiros (Andrea Beltrão e Marco Ricca). De um lado um casamento em stand by, de outro um antigo relacionamento de quem ainda convive no dia a dia. As relações e flertes, as mutações entre relacionamentos e a necessidade de dar liberdade aos filhos soa bem mais curiosa, ainda que se apegue nesse tom de humor de personagens caricatos. No final, é uma visão pessimista da familia tradicional, nos idos anos 90.

Lazzaro Felice

Lazzaro Felice (2018 – ITA) 

Num claro tom de fábula, o novo filme de Alice Rohrwacher faz um paralelo da miséria entre passado e presente na Itália. Na primeira parte da trama, a vilã megera é uma Condessa que trata seus empregados rurais como escravos, enquanto vive num castelo em decadência. Lazzaro (Adriano Tardiolo) é o garoto ingênuo e de bom coração, que aceita tudo com sorriso no rosto, e acaba fazendo amizade com o filho, revoltado, da condensa.

Da pobreza do campo o filme pula algumas décadas, nosso dócil Lazzaro ressuscita após um acidente, e vai parar na região metropolitana, entre mendigos que vivem de roubos e pequenos golpes. A elipse faz correspondência com alguns dos personagens, enquanto Rohrwacher se equilibra entre um cinema naturalista e a necessidade de esfregar no público a máxima de que italianos pobres continuarão pobres, enquanto a decadência absorvem a burguesia falida. A ingenuidade de nosso Lazzaro ultrapassa décadas, e a visão pessimista de Rohrwacher se mistura com essa doçura, meio Poliana, e esse tom de fábula que quase embeleza a pobreza da ruas.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição Principal