Papicha

Publicado: outubro 18, 2019 em Cinema
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Papicha (2019 – Argélia)

Destaque na Um Certain Regard de Cannes, e estreia na direção de Mounia Meddour, o filme resgata uma história verídica e assim faz um retrato incisivo de um país que ainda sofre as mazelas de uma Guerra Civil que não foi completamente finalizada.

Apesar de muito quadradinho, narrativamente, em diversos momentos, o coming-of-age, pouco-a-pouco dá espaço a claustrofobia e decepção de notar uma Argélia que ainda vive sobre risco de atentados realizados por extremistas religiosos que querem impor suas crenças e costumes.

Centrado numa estudante, apaixonada em design de moda, feministas e idealista de sua independência, sofrendo por não aceitar as proibições impostas por radicais conservadores. O filme funciona muito bem quando explora essa sensação de claustrofobia feminina, de pressão social, seja na cena do ônibus, ou no garoto que flerta a seguindo pela rua, ou na relação com o porteiro do colégio. Além, é claro, do final trágico e perturbador. É de nos dar uma desesperança do mundo, da humanidade, uma desesperança que nem chegar a caber dentro da gente. O completo desrepeito ao que for diferente do que você prega, elevado às piores consequências.

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Pertencer

Publicado: outubro 11, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Aidiyet / Belonging (2019 – TUR)

Aos 10 anos de idade, a avó do cineasta Burak Çevik foi assassinada, a mando de sua tia e o namorado, tudo porque ela se opunha ao relacionamento amoroso vivido pela filha. Para recriar a tragédia familiar, o diretor divide seu filme em duas partes, na primeira metade apenas fotos e imagens de locais como o apartamento, a doroviária, o estacionamento, a cama onde o crime ocorreu. A narração em off reconta os planos, o tom comtemplativo se sobrepõe a crueldade e frieza com que se absorve o testemunho de assassinato.

A segunda parte é uma história de amor, conta como o casal que planejou o assassinato se conheceu, o primeiro encontro, carícias, longas conversas, um tom romântico à la Richard Linklater, mas e o peso no público que já conhece o que aquele romance produziu? Como se envolver positivamente? É o dilema criado por Çevik, entre o experimental e o thriller, o turco nos oferece um filme surpreendente e aterrorizador, mesmo que só com imagens bonitas ou contemplativas, viva a magia do cinema

Parasita

Publicado: outubro 9, 2019 em 5 Estrelas, Cinema
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Gisaengchung / Parasite (2019 – COR)

Bacurau, Nós, Coringa, e agora Parasita. Alguns dos principais filmes do ano carregam o encontro da violência e luta pela sobrevivência no confronto entre os privilegiados e os não-privilegiados. Seja no nordeste do Brasil, em Gotham City, nos duplos no subsolo e na Coréia do Sul. É o cinema trazendo à tona a completa insatisfação global que chega à flor da pele, e pode explicar porque tantos governos extremistas tem ocupado um espaço que não mais lhes pertencia.

O filme de Bong Joon-ho é excelente em todos os aspectos, do tom crítico aproveitando-se de um humor ligeiro e moderno, das atuações precisas (com personagens que variam de vigaristas a ingênuos-românticos), do domínio completo da arte do cinema entre trilha sonora, timing, movimentos de câmera, é uma aula milimétrica para encaixar o roteiro arquitetado dentro desse estilo tão caro ao cinema sul-coreano de misturar gêneros.

E enquanto você se deleita com essa direção impecável, entre cenas marcantes, as sacadas de crítica social são ainda mais interessantes e intrigantes. Esse confronto entre pobre e rico, entre malandro e ingênuo, a violência gráfica e debochada. Da futilidade à autoproteção sem piedade, está tudo lá exemplificado e criticado, mas quando entra em cena a segregação de classes pelo cheiro, Bong chega num outro patamar, seu filme chega num outro patamar, o preconceito como algo primitivo, natural, não é só a questão de estar sem privilegios e precisar “roubar” wifi de alguém, é mais a questão de ser mesmo.

The Sex Thief

Publicado: outubro 3, 2019 em Cinema
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Die Beischlafdiebin / The Sex Thief (1998 – ALE)

Encerrando sua trilogia de telefilmes com personagens femininas, quase, fora-da-lei, Christian Petzold tece também sua crítica à economia e o mercado de trabalho da Alemanha dos anos 90. São duas irmãs que mentem sobre seus empregos, seu sucesso profissional e o verdadeira ganha-pão. Novamente com fotografia suja, e de forma bastante cru, o diretor explora a oportunidade pelo caminho fácil e os destemperos que tais escolham podem sugerir.

O título já dão os indícios de que as artimanhas sexuais fazem parte do jogo de perde e ganha, mas Petzold vai além ao criar essa relação fraternal de rixa, orgulho e compaixão. De querer o melhor ao ente querido, de proteger, mas também não admitir a derrota. Assim, de uma aparente trama de duas mulheres dando golpes para sobreviver, surge um pequeno filmes de outras camadas.

Febre de Juventude

Publicado: setembro 26, 2019 em Cinema
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I Wanna Hold Your Hand (1978 – EUA)

Não surpreende que a estreia de Robert Zemeckis como diretor tenha sido com um filme despretensioso e elétrico, afinal sua carreira heterogênea se solidificou através de aventuras juvenis (principalmente De Volta para o Futuro). Mas, esse primeiro trabalho consegue, mais do que representar a geração beatlemaníaca, e sim pegar emprestado as características centrais e inserir na própria narrativa. É tudo meio histérico, meio atrapalhado, mas na medida certa para que o humor funcione.

Um grupo de 6 jovens se acotovelando com o mar de fãs em frente ao hotel onde os garotos de Liverpool estão hospedados para sua primeira apresentação na TV dos EUA. Vale tudo para com os Beatles em carne e osso, e enquanto o grupo se divide em aventuras individuais, o filme de Zemeckis vai construindo novas relações ou romances, descobrindo novos fãs, convencendo rabugentos, e assim contaminando a todos com o iê-iê-iê. Essa capacidade de usar o que mais chama atenção em ferramenta para o próprio resulta nesse resumo de uma geração.

Dolor y Gloria (2019 – ESP)

O tempo vai passando, as pessoas comentando com você, e mesmo depois de alguns meses, fica essa vontade de revistar, mesmo que não seja revendo, nem que seja recordar. E esse recente trabalho de Pedro Almodóvar é um desses casos. O que fica na memória depois de algum tempo?

O mais forte é essa sensação de proximidade, uma intimidade que o cineasta nos convida a visitar, a sua própria intimidade. Antonio Banderas é seu alter-ego, seu apartamento, seu armário, algumas pequenas cápsulas da própria vida de Almodovar, que ele se aproveita para desenvolver a história de um personagem em angustia, mas também dor (inclusive física), e da força interior de se reconectar com pontos e pessoas da sua vida.

Da solidão ao redescobrimento, o passado e presente ajudam a construir esse alter-ego que, realmente, não é o próprio cineasta, mas está embriagado dele mesmo. Dessa forma, ele volta a nos emocionar, logo ele que já fez isso tantas vezes, e vinha ensaiando a acertar em cheio novamente, aqui conseguiu porque é difícil não se envolver com a cólera, o corpo entorpecido, as memórias que criam novas histórias, e como uma fênix, o renascimento para um novo personagem, uma nova pessoa, que é uma variação amadurecida daquele que conhecemos no início, e mesmo assim não deixa de ser o mesmo, inclusive ele, Almodovar.

Bacurau (2019 – BRA)

É catarse, é resistência, é o grito dos esquecidos. O trabalho da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles está sacudindo o Brasil. E se vivemos num país tão polarizado, pode ser que o filme nem esteja dialogando com um lado dessa disputa, mas tem sim sacudido parte da turma que se sente exprimida pelos dois lados que dominam nossa política recente. Claro que é um filme político, extremamente político, quem acompanha a dupla sabe de suas posições. Mas ao fugir do panfletário e universalizar questões, os diretores conseguem ir além do pregar para torcida única.

Western futurista, praticamente uma nova vertente do cinema de gênero, o filme vai causando frisson e chegando a mais e mais cidades porque ele tem seus momentos apoteóticos mesmo, sem deixar de lado as homenagens a cineastas importantes na cinefilia dos criadores (John Carpenter principalmente). Afinal, em meio ao suspense e à violência, o que temos é a luta pela sobrevivência, do povo oprimido versus a força do opressor (que pode ser o rico Sudeste x pobre Nordeste, países ricos x terceiro mundo), através de uma metáfora sangrenta, que deve sim desagradar parte do público, mas uma alegoria tão justificável.

E Kleber e Juliano filmam tudo sem perder o genuíno daquela gente, criando mistérios ou personagens que ficarão, eternamente, no imaginário. Bacurau é um desses filmes-fenômeno que dá esperança aos que andam desanimado, e que provoca alguns que nem percebiam pontos óbvios que o dia-a-dia nos cega.