Introduzione all’oscuro

Publicado: maio 29, 2020 em Cinema
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Introduzione all’oscuro (ARG – 2018)

Bonita homenagem do argentino Gastón Solnicki ao falecido diretor do Festival de Viena (Hans Hurch), criaram amizade por conta do festival e o diretor argentio faz uma viagem à Viena para falar do amigo, da cidade, e como um cineasta pode se encaixar e tornar um filme numa declaração de amor de amizade. Em uma das cenas, a câmera focaliza túmulos de artistas famosos no cemitério da cidade, Beethoven, por exemplo, e encerra com Hans, que trabalhou por vinte anos na Vienale e resgatou parte da importância do festival. Cheio de experimentações e contato direto com os mais diversos setores da arte, Solnicki não se furta de criticar a modernidade, como as redes sociais, também faz um cinema que não dialoga com todos os públicos, mas tem ali essa bela homenagem a quem deixou seu legado para o cinema.

Todos Somos Marinheiros

Publicado: maio 22, 2020 em Cinema
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Todos Somos Marineros / We’re All Sailors (2018 – PER)

Um navio pesqueiro russo parado na costa do Peru, a empresa dona da embarcação está quase falida, um embroglio para os três tripulantes que restaram. Elem passam semanas por ali, quase à deriva em terra firme, vendendo equipamentos para sobreviver. Vão se acostumando com o local, criando uma vida provisória, ou quase paralela a deles.

O diretor Miguel Angel Moulet surpreende ao criar essa sensação de personagens completamente perdidos, sem destino na imensidão daquelas paisagens. Muito mais que o fiapo de história, interessante é a maneira como Moulet transforma seu filme num conjunto de planos, muitos deles belíssimos, que captam o sentido de desorientação, sempre sob uma perspectiva de obervação. O carinho dos corpos nus sob a cama, o beijo e o abraço na cozinha do restaurante, a pequena discussão sob o barco num plano aberto que capta mais o espaço e menos o que fazem. Sonhos? Futuro? Ou viver um dia após o outro? E como ficam as pessoas com que eles se relacionam? Um dos mais interessantes filmes de estreia do ano.

A Segurança Interna

Publicado: maio 15, 2020 em Cinema
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Die Innere Sicherheit / The State I am In (2000 – ALE)

Um drama político e também um coming-of-age, o primeiro filme da Trilogia dos Fantasmas do cineasta alemão Christian Petzold unifica esses dois subgêneros, tão distantes aparentemente. Um casal de ex-terroristas alemães da década de 70 vive se esconcendo pela Europa, uma vida na clandestinidade com a filah adolescente. Enquanto se desenrola a trama de viver sob identidades falsas, com poucos recursos financeiros e quase como nômades, a filha chega numa fase em que precisa se descobrir, que se apaixona, que deseja, que precisa de amigos. A necessidade x estilo de vida criam um novo conflito familiar, e Petzold transforma os fantasmas do passado em novos obstáculos .

A Criança Zombie

Publicado: maio 9, 2020 em Cinema
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Zombi Child (2019 – FRA)

Novamente Bertrando Bonello navegando por grupos de jovens para tratar de temas que, normalmente, estão alheios a esse universo. Se em Nocturama ele tratava de terrorismo e de uma juventude que por falta de uma rebeldia mais contundente em casa, busca desafogar (seu vazio?) muito além. Aqui a juventude é representada num pequeno grupo de garotas, de um colégio interno de Paris, um pequeno clã que resolve aceitar a mais nova aluna, que se mudou do Haiti após a morte dos seus país no terretomo de 2010.

O filme também se passa em 1962, no  Haiti, o cineasta francês faz uma livre adaptação da história de Clairvius Narcisse, que diz ter voltado à vida como “zombie” para ser escravizado numa plantação de cana. Vale dizer que o cinema transformou a crença zumbi para o que conhecemos hoje, mas por séculos esteve ligada a vudus e um desprendimento da vida como se conhece, vagando quase sem vida, como uma nova entidade.

A unificação dos dois tempos seria o parentesco entre os haitianos. Enquanto Bonello constrói esse Haiti de cólera e identidade cultural, o desenlance amoroso de uma das garotas e o interesse das demais pelas histórias caribenhas completa a conexão entre fantasia e crenças espirituais, num estado parecido com que Nocturama possuía, o de deixar o público flutuando ao léu. Porque era essa minha sensação, meio anestesiado pelo zombi haitiano, e pela ingenuidade definitiva de um amor entre cartas. Reflexões sobre racismo e o colonialismo francês são possíveis, mas há principalmente esse toque de estranhamento de temas que o cineasta nunca permite que você possa tocar, mas estão ali, nessa mescla improvável de subgêneros do cinema que pode soar pedante ou densa.

Lilian

Publicado: maio 8, 2020 em Cinema

Lillian (2019 – AUT)

Você se lembra de Renegados, da diretora Agnès Varda? Seria um versão austríaca da personagem do clássico de Varda, aqui dirigido por Andreas Horvath, contando a real história de uma imigrante russa nos EUA, que não fala inglês, e desempregada e sem visto, não consegue emprego nem na indústria pornografica. Completamente sem chance alguma de sustento, ela tenta voltar a pé ao seu país, saindo de Nova York, com o plano de cruzar pelo Alaska o Estreito de Bering.

Ela anda, anda, anda, e entre tanto silêncio da protagonista, o que vemos é um EUA de beira de estrada. Bares, bêbados, algumas pessoas bem chulas, outros aproveitadores. Em foco um país sem glamour, sem esperança, a individualidade que não dá espaço para abraçar quem necessita de ajuda, até porque a caminhada cria mais desconfiança do que acolhimento com quem encontra pelo caminho. Teria ela conseguido voltar à sua terra natal? Um filme que ora deixa o feio, bem feio, em outras até encontra beleza nessa feiúra toda.

Conto da Primavera

Publicado: maio 3, 2020 em Cinema, Domingo de Clássicos
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Conte de Printemps “A Tale of Springtime”, 1990 – FRA)

Lá se vão 30 anos desde o lançamento desse primeiro capítulo do Conto das Quatro Estações de Rohmer, e curioso como as relações pessoais e dilemas românticos mudaram tantos nos últimos anos. Os mais críticos, a um estereótipo de cinema francês blasé, podem encontrar aqui um prato cheio para suas críticas, afinal os franceses discutem filosofia transcendental, Klant e Platão, ou estão ouvindo Schumann num simples jantar. Mas, o cinema de Rohmer apenas utiliza os aspectos culturais para florear essas relações pessoais tão caras em seus filmes. Boa parte dos seus filmes são simples na forma, almejam a naturalidade, e um prazer especial maior de discutir emoções e sentimentos do que vivenciá-los.

A trama pode parecer fulgaz na maneira como aproxima duas jovens a se tornarem amigas tão rapidamente, o importante são as pequenas descobertas de suas manias e perfis, então referências como a mania de organização de uma delas, que respeita fortemente a organização dos outros, são mais importantes do que quem essas pessoas são. Mas as tramas desses contos são assim rapidamente colocam à mesa esses dilemas de personagens, aqui a moça que se incomoda com a namorada do pai, e queria que a nova amiga assumisse esse lugar.

Invariavelmente os personagens se encontram, conversam, discutem, convivem num jardim em plena primavera. Os diálogos e dramas parecem arquitetados demais, naturalistas de menos, ainda mais envelhecidos pelos dilemas que ficaram três década atrás, aqui, a vida real que Rohmer tanto quer espelhar, parece mais convincente na teoria exatamente porque desejo e paixão não são sensações vivida entre esses personagens.

Satantango

Publicado: maio 1, 2020 em Cinema
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Sátántangó (1994 – HUN)

Pessoas entusiasmadas com o dinheiro que irão receber após o insucesso da fazenda coletiva em que buscavam sua subsistência, até que um homem, tido como morto, reaparece e traz outra perspectiva à comunidade. Estamos nos derradeiros dias do Socialismo na Hungria, em seu Tango de Satã (tradução literal do título). Béla Tarr divide a história em doze capítulos, sempre em seu tom de realismo pessimista e desolação por um grupo de personagens que se mistura com a melancolia, chuva e pobreza que o barro remete. Sempre me encanto com o rigor estético e o tempo de seus planos-sequencias, mas aqui há um filme de dilemas morais mais contundentes, que se intercalam entre sonhos/pesadelos e a herança socialista de ser sempre regidos/traídos por líderes. A infidelidade conjugal, os planos de se aproveitar dos outros (governo, adultos e crianças), a falta de empatia, a solidão, tudo isso camuflado pelos encontros etílicos e musicados no bar, quase um oásis nesse mar barrento da desesperança.