Crisântemos Tardios | O Intendente Sansho 

Crisântemos Tardios (Zangiku Monogatari / The Story of the Last Chrysanthemum, 1939 – JAP)

O Intendente Sansho  (Sanshô Dayû Dayû / Sansho the Bailiff, 1954 – JAP)

Dois melodramas do mestre japonês Kenji Mizoguchi, com estruturas parecidas, além de versarem criticamente sobre aspectos tradicionais da sociedade japonesa. Em ambos os filmes, os personagens são retirados do conforto de sociedades mais abastadas e cruzam o calvário até a redenção social, por mais que o final seja de reencontros trágicos.

No pré Segunda Guerra Mundial, Crisantemos Tardios conta essencialmente uma história de amor. O ator de teatro Kabuki, no século XIX, meio preguiçoso e que não parece ter tanto taleno assim, que se apaixona pela babá de seu irmão. Recriminado pela familia, prefere viver o amor, sendo abandonado e obrigado a sair de casa, enfrentado o calvário da sobrevivência, a mulher se desdobrando de todos os lados até que ele encontre o sucesso.

Intendente Sansho volta ao século XI, com a história de uma familia cujo patriarca era um dos líderes de sua sociedade feudal, mas acaba deposto, a familia separada e todos vendidos como escravos ou virando gueixas. É o filho mais velho quem tem a chance de dar a volta por cima, e o faz de maneira vingativa, pelos mesmos métodos que sofreu como escravo, mas, antes disso, é um filme sobre humilhações inimagináveis, dor e ressentimento, a completa exploração da humanidade.

Mizoguchi olha para o passado para não esquecer dos valores humanos, que muitas vezes seu próprio povo desrespeitou. A redenção sempre vem, mas de forma cruel, como se nunca mais fosse realmente possível  voltar ao equilíbrio anterior. Flerta com o tom de fábula, mas é profundamente doloroso e implacável com a história.

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Mariphasa

Mariphasa (2018 – POR) 

Peças espalhadas de um quebra-cabeças que não precisa ser montado: um carro batido, um segurança noturno, a amante, o estranho vizinho, o cão que não pára de latir, a filha que morreu, um roubo, a noite.

O jogo de luz e sombra, o destacado rigor estético. Trafegando por uma narrativa longe do que chamamos convencional, o cineasta português Sandro Aguilar apresenta uma Lisboa sinistra, obscura, de ambientes fechados ou quase abandonados. De personagens que vagam entre o inconsolável e o misterioso. Por entre as sombras, as esparsas pistas para uma mera compreensão de tudo, ou apenas se deixar hipnotizar pela Mariphasa, a flor que tira a vida da lua.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Trama Fantasma

Phantom Thread (2017 – EUA) 

Os opostos se atraem é uma daquelas máximas que os românticos se apegam para explicar, o que nem sempre pode ser explicado no amor. Não é bem isso o que resume o relacionamento entre o estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e sua musa, Alma (Vicky Krieps), está mais para algo doentio e ao mesmo tempo que os tire da zona de conforto,que provoca e confronta, por mais que viver assim possa não ser tão sadio.

A inspiração de Paul Thomas Anderson veio do designer basco Cristóbal Balenciaga, conhecido como O Arquiteto da Costura, e o cineasta americano se coloca aqui como um arquiteto do cinema, tamanha sua preocupação com que controla cada elemento e cada emoção em cena. Um conto sobre a mascunilidade em tempos em que o feminismo ganha espaço, mas é uma visão critica esse mundo em que o masculino dominante podia abusar do chamado sexo frágil, o cineasta vende exatamente o oposto, numa casa onde um homem lidera tantas mulheres, e é dominado simultaneamente.

O filme é silencioso, tal qual Woodcock leva cada movimento de sua vida, é possível ouvir a cada vez que a xícara toca no bule durante um café da manha, e esses momentos são importantes porque há significado em mostrar a elegância o quão meticuloso ele é. Enquanto isso, a destrambelhada garçonete o atrai e o enlouquece por não aceitar a passividade como única forma de sobrevivência.

Um romance que é quase um filme de terror, um jogo psicológico de atração e obsessão. De um lado o egocêntrico, a estrela intocável, o eterno garoto ingênuo em emoções e no trato com os demais. De outro a mulher provocadora, inquieta, que não aceita calada o que tentam lhe impor, mas que se permite alimentar esse fascínio pelo frágil homem forte. Com atuações (não só Day-Lewis e Krieps, como Lesley Manville como a irmã dominadora) e trilha sonora impecáveis, e um raro domínio da luz nos ambientes fechados, Trama Fantasma é um hipnótico experimento de um tipo de relacionamento opressivo, tóxico e instigante, um vício da qual não se consegue superar.

A Grande Jogada

Molly’s Game (2017 – EUA) 

Narração em off acelerada, marcada no ritmo da trilha e das imagens. Um turbilhão de informações que o público tenta captar entre nomes, números, conexões da personagem e memórias da personagem. Isso, sem falar, nos embates de diálogos acelerados, bem no estilo de A Rede Social. É a estreia na direção de Aaron Sorkin, o roteirista de filmes como o citado de Fincher, ou o de Steve Jobs (do Danny Boyle). A eficiência de seus roteiros está agora explicita em sua direção. Seu estilo é informativo, altamente explicativo, e capaz de dar um perfil completo de personagens e fatos. Se isso é bom cinema, podemos discutir?

Jessica Chastain surge glamourosa na pele de uma mulher que movimentava milhões de dólares em jogos ilegais de poker com celebridades e figurões. Tenta se defender nos tribunais, enquanto enfrenta as sombras de um pai exigente e complicado (Kevin Costner). O filme é curioso e envolvente como narrativa, maçante com esse turbilhão de informações e desgastante com tamanha agilidade e eficiência. Era de se esperar de Aaron Sorkin.

Pequena Grande Vida

Downsizing (2017 – EUA) 

Estamos sempre esperando o grande filme de Alexander Payne, seus projetos tem prometido, criado expectativas, mas nem sempre correspondem. Com seu ar de sempre ter uma comédia dramática na manga, seu novo trabalho esteve na competição principal em Veneza, onde passou em branco. E o filme realmente prometia, afinal, há algo tão americano nele, essa ideia de vida perfeita em comunidade, pregando o bem a todos, vivendo em harmonia.

E de quebra, a oportunidade de tratar temas como aquecimento global, superpopulação, e possibilidades de preservar nosso planeta. Lembre-se de Querida, Encolhi as Crianças, e pense em tratar no tema de maneira séria. Um experimento que possa diminuir as pessoas de tamanho, dessa forma gastaríamos menos dinheiro com tudo, produziríamos menos lixo e etc.

O ponto é que o roteiro quer sair dos temas globais para ter algo mais individual, uma maneira de dramatizar e assim ter mais apelo com o público. Matt Damon é quem interpreta o personagem que nos permite invadir esse mundo de gente pequena, e com ele vem suas características dramas pessoais, e os temas são banalizados pela problemática pessoal de um personagem que já vimos zilhões de vezes no cinema. E os temas vão passando, desperdiçados, surge uma oportunidade de ouro quando trata diferença de classes, trabalhadores braçais, e rapidamente o tema se esvai. O que resta? Meia-duzia de personagens que orbitam em torno do protagonista, entre piadas e dramas de uma vida cotidiana, e tão trivialmente individual. Payne nos entrega seu pior filme, saudade do curta dele em Paris, Te Amo.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Competição Principal

EP 114 – O Pantera, a Justiceira e a Patinadora Invernal

A edição da semana tem como destaque dois indicados ao Oscar e uma aguardada fita de super-herói.

O controverso Três Anúncios para um Crime (23:35) dividiu a Varanda: com humor negro, o filme faz um retrato da “América profunda” ao narrar a história de uma mulher que enfrenta violentamente quem se opõe a ela. Um dos destaques na premiação da Academia de Hollywood, tem um roteiro premiado, e, ao mesmo tempo, cheio de viradas e situações altamente discutíveis.

Outro indicado é Eu, Tonya (1:00:28). A fantástica história da patinadora acusada de participar de um plano para agredir sua maior rival também chega às telas com muito sarcasmo, trazendo a questão sobre ser, ou não, chapa-branca na adaptação de casos reais.

O aguardado Pantera Negra (1:17:40) é a aposta da Marvel para o início de 2018. O melhor filme da grife de super-heróis? O mais político? Ou mais do mesmo?

E mais: Cantinho do Ouvinte, Boletim do Oscar (10:39) e, nas Recomendações, destaque para Mudbound – Lágrima sobre o Mississipi (1:47:35). Bom podcast!

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O Insulto

The Insult (2017 – LIB) 

Aproveitando a herança do vizinho cinema iraniano, de pequenas histórias que sirvam como metáforas de alta critica social, o diretor libanês Ziad Doueiri chega, com chances, ao Oscar de Filme Estrangeiro. O ódio religioso, um passado de lutas, violência e injustiças, que permanece até hoje. E o quanto esse histórico pode influenciar, mesmo em situações corriqueiras.

Afinal, como uma briga de rua vem pode ir parar num tribunal, e envolver mídias e movimentos inflamados pelas ruas. É o peso de um passado que cobra preços mais caros por valores como honra e justiça, e promove a violência onde não se faz necessário. É possível discutir o alicerce por onde a história é construída, mas inegável que ao compreender um caso tão isolado, num contexto histórico, as proporções de um simples insulto são mesmo de discutir a origem do problema (palestino, judeus, cristianismo). É fácil gostar do filme de Doueiri, de sua visão imparcial dos lados, mas também é possível enxergar um filme que se estabelece, quase que exclusivamente, de seu grande tema como se o cinema fosse apenas isso.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Ator