Chutando Milhões

Publicado: abril 18, 2021 em Cinema, Domingo de Clássicos
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Brewster’s Millions (1945 – EUA)

O último remake com Richard Pryor e John Candy preencheu muitas tardes da minha adolescência. Esta aqui foi a versão clássica, dirigida por Allan Dwan, para animar os EUA logo após a Segunda Guerra Mundial. Claramente adaptado de uma peça de teatro, o filme não tem mais que 3 ambientes, e é deliciosamente angustiante assistir alguém gastar dinheiro loucamente, em todo e qualque tipo de projeto: bolsa de valores, corrida de cavalos, grandiosas peças teatrais, tudo isso sem nenhum critério. Claro que no filme há um propósito, uma herança que só será ganha se ele gastar uma grande quantia de dinheiro. Mas é como diz o mantra “dinheiro atrai dinheiro” e nem sempre traz felicidade.

One Child Nation

Publicado: abril 17, 2021 em Cinema

One Child Nation (2019 – EUA)

“O Estado ordenava, mas era eu quem matava os bebês”, sem dúvida a mais forte das frases que o documentário traz vem da parteira que perdeu as contas que quantos abortos fez, quantas mulheres esterilizou e quantos recem-nascidos matou em prol da política chinesa que acabou em 2015. O documentário da dupla Nanfu Wang e Jialing Zhang é simples, direto, acessível. Já a política chinesa do controle de natalidade ultrapassa o inacreditável, por isso mesmo é sempre bom ser resgatada e nunca esquecível, porque quase até ontem os pais se livravam de bebês que não eram do sexo que queriam porque o governo só permitia um único filho. Mundo cão.

Boatman

Publicado: abril 10, 2021 em Cinema
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Boatman (1996 – ITA)

O média-metragem observacional marca a estreia do documentarista italiano Gianfranco Rosi numa viagem pelo rio Ganges na Índia. Claro que há o apreço pelo exótico vindo de um olhar ocidental para a pobreza, a ingenuidade e as crenças indianas tão particulares. Mas, o filme se destaca por essa câmera testemunho, e pela capacidade de Rosi em fazer seus personagens falarem tão livremente sobre os costumes dos funerais, os corpos pelo rio, a critica aos europeus que perguntam os porquês de tudo que parece distante de sua cultura. 

A figura central acaba sendo o barqueiro que os guia pelo rio, mas não é o único a colaborar nessa confecção de um retrato das diferenças entre castas, da pobreza latente, do valor entre ter um filha ou um filho, nas vacas caminhando livremente pelos mercadinhos de rua exprimidos. Se o branco e preto do filme esconde a famoso colorido indiano, ele nos ajuda a não perder de vista os depoimentos, a malandragem ingenua, e as indiossincrancias que marcam as falas de todos eles.  

Nova Ordem

Publicado: março 7, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Nueva Orden / New Order (2020 – MEX)

O novo filme do sempre polêmico Michel Franco segue a escrita. Violência, humilhações, não faltam explorações de cenas chocantes nessa criação de um México distópico onde eclode uma série de protestos violentos, doentes são expulsos de hospitais pelos protestantes, o resultado é o exército assumir o controle e ir muito além do toque de recolher.

Propor reflexões ou criar um cenário e explorar a partir dele o que seriam suas consequências? Franco prefere essa opção visual, prefere a brutalidade, opção exploratória de pobres e ricos oprimidos pela Nova Ordem. O diálogo é direto com o avanço global da extrema direita, tornando exageradas questões como corrupção do sistema, imposição da intolerância acima das liberdades. Por outro lado, há doses de uma anarquia, completamente oposta ao conceito da militarização, de cada um querer seu ganho, é a individualização dos interesses e da sobrevivência. Além da violência enxergo ecos de um encontro de Conto de Aia e Ensaio sobre a Cegueira, mas óbvio que Franco só se aproveita desses conceitos para criar um caos onde a desigualdade social é mantida, mas o medo se torna o sentimento geral.

Judas e o Messias Negro

Publicado: fevereiro 8, 2021 em Cinema

Judas and the Black Messiah (2021 – EUA)

Com os cinemas abertos e vida normal, o filme até poderia ser a gasolina que faltava para incendiar as fogueiras das discussões raciais que estão acaloradas nos EUA, e em outros lugares. Afinal, trata da morte, aos 21 anos, de um dos líderes dos Panteras Negras em Chicago, nos anos 60. Com essa distribuição fragmentada e interesse de um público menor por cinema nessa pandemia, não espero o impacto todo. Mas, eu disse poderia porque o filme tem boas doses de engessamento em sua narrativa, e o que poderia ser furor, também pode soar cansativo.

Começa bem charmoso entre trilha sonora, num bar, um plano que deu errado para um assaltante de carros que acaba nas mãos da polícia e a proposta de ficar preso ou se infiltrar nos Panteras Negras. Baseado em fatos reais, o filme recria esse aproximação de O’neal (Lakeith Stanfield) com Fred Hampton (Daniel Kaluuya) até sua morte. Depois desse início, apenas a cena do tiroteio é destacável, o restante parece bem preso a necessidade de contar cronologicamente fatos, de mostrar o envolvimento do FBI, além de alguns discursos e aspectos da vida particular de Hampton. Fica entre a cinebiografia política e o cinema policial, sem encontrar seu corpo ideal, mas tem Kaluuya formidável, como sempre.

The United States vs. Billie Holiday

Publicado: fevereiro 1, 2021 em Cinema

The United States vs. Billie Holiday (2021 – EUA)

Depois de duas tragédias em forma de filmes que ele cometeu (Preciosa e O Mordomo da Casa Branca, não vi Obsessão), o nome de Lee Daniels me dá arrepios, e por isso é um grande alívio o resultado final dessa cinebiografia sobre a genial Billie Holiday. Não se trata da biografia completa de uma das maiores cantoras de jazz da história, o foco se dá na perseguição que ela sofreu pelo Departamento Federal de Narcóticoperseguição essa que ela acreditava ser planejada para puni-la por cantar Strange Fruit (poderosa música sobre linchamento de negros nos anos 30, e considerada algumas vezes a música do século).

Felizmente o cinema americano dessa temporada abriu as portas para filmes dirigidos por negros, é bem verdade que a maior parte dos que tiveram mais destaques são de personagens músicos negros, mas faz sentido porque foi talvez o primeiro espaço importante conquistado nessa luta eterna por justiça social. E o trabalho de Lee Daniels consegue escapar da sensação de teatro filmado que Uma Noite em Miami ou A Voz Suprema do Blues. Há boas doses de charme nas apresentações musicais, na relação com o agente do FBI, e uma clara preocupação em manter o tema perseguição e Strange Fruit em detrimento a questões de saúde ou focar nos relacionamentos amorosos conturbados.

Mas, é um filme de Lee Daniels, logo a sua busca pela compaixão do público por seus personagens é incessante, seu didatismo é latente, e o que se configurava como um filme que parecia surgir insinuante vai se desfazendo a cada nova fase na vida de Billie. Todo o arco dramático é sempre visual, você enxerga as dificuldades e sofrimento na pela da ótima atriz Andra Day, mas o filme é de complexidade rasa, a vida de gato e rato com a perseguição policial não dá cabo de sua personalidade e o próprio filme sofre dessa cegueira parcial.

Voltei!

Publicado: janeiro 24, 2021 em Cinema

Voltei! (2021)

É mais um tijolo dessa bonita construção que a dupla Glenda Nicário e Ary Rosa vem criando com sua filmografia. Ainda que a estreia tenha sido o mais saboroso dos trabalho, o conjunto de agora quatro longas-metragens é rico em fincar suas posições políticas e sociais, além de trazer uma baianidade que o cinema brasileiro deveria estar carente.

O novo filme também é sobre o reencontro de irmãs numa noite, mas dessa vez a política está no centro da trama. O ano é 2030, o STF pode finalmente seguir com um pedido para acabar com um governo militar que está 8 anos no poder após fechar o Congresso e instaurar o caos. As casas vivem sem energia elétrica. No radinho de pilha as irmãs ouvem os votos de cada juiz até que a irmã reaparece dos mortos.

Ironia, bom humor, por lembranças e pequenas histórias o que se constrói são os ecos de uma ditadura moderna, com as violências e absurdos do que vivemos não faz tanto tempo. O contexto parece melhor desenhado do que o conjunto de diálogos, mas dentro de sua irregularidade há esse contexto forte, essa mensagem direta de quem imaginou um futuro que ameaçam, mas que esperamos que esteja completamente fora de qualquer horizonte possível.

Até o Fim

Publicado: janeiro 23, 2021 em Cinema

Até o Fim (2020)

Outro bom trabalho de Glenda Nicácio e Ary Rosa. A noite de encontro de 4 irmãs que se preparam para a anunciada morte do pai. A câmera frenética se movimenta entre rostos e mãos, enquanto elas riem e brigam, lamentam passado e escolhas, quase sempre diferentes níveis de abuso masculino são a tônica da conversa, mas há também a diferença de idade e mentalidade, o choque de gerações evidenciado por quem se distanciou da cidade natal. Um cinema interessante e consistente tem feito essa dupla, ainda gosto mais de Café com Canela que dialoga com grande parte do interior desse Brasil, mas esse é um curioso misto do íntimo dele com a questão estética e pulsante de Ilha

Querência

Publicado: dezembro 19, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Querência (2019)

Interior de Minas Gerais, fazenda e rodeio, o diretor Helvécio Marins Jr utiliza seus amigos vaqueiros como atores para sua história. Ao invés de qualquer glamour, cenas da beleza bruta do campo, do gado, da natureza. Nos diálogos a simplicidade, o sotaque carregado, o estilo documental que lembra seu trabalho anterior (Girimunho). Na trama há sonhos, decepções, um crime, muitas rimas, Helvécio nem parece tão interessado assim pela trama, ela talvez esteja lá só para cumprir um espaço, e por isso seja irregular. A sensação mais genuína é de o diretor está realmente filmando o que lhe interessa, e daquilo criando uma história que possa entreter.

O que Arde

Publicado: dezembro 15, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Lo Que Arde / Fire Will Come (2019 – ESP)

Oliver Laxe vai se firmando como um cineasta de sensações. O faroeste em Marrocos de Mimosas não me cativou, mas ficou muito a sensação do sol, da areia, do calor. Aqui ele filma na Galícia (onde cresceu) e transfere esse cinema sensitivo para a floresta, para uma cidade pequena e o ritmo pacato de vida da região. Um piromaníaco volta à cidade para cuidar da mãe octagenária depois de alguns presos por incêndio criminoso.

A segunda metade do filme é acalorada com um incêndio propriamente dito, a luta por controlá-lo, flamejante e pungente, se divide com o pré-julgamento de que seria, novamente, o piromaníaco que tenha o causado. E a reação popular é forte, com dedo em riste. Oliver Laxe não parece querer poetizar nada, mas reflete bem a busca por vilões, a intolerância e a pressa da humanidade por decidir pontos que nem vão solucionar a questão em si.