Silêncio

Silence (2016 – EUA) 

Martin Scorsese volta a tratar questões religiosas em seus filmes, após Dalai Lama (Kundun) e Jesus (A Última Tentação de Cristo), a fé volta como tema central na história de perseguição dos japoneses aos padres jesuítas portugueses que foram pregar o catolicismos no século XVII. De um lado, o absurdo da violência como única forma de coibir o estrangeiro e sua cultura oposta às crenças locais. De outro, a arrogância cristã de entregar sua crença como a verdade única e irrefutável.

Os melhroes momentos do filme são do confronto de ideias entre governantes japoneses e jesuítas. Nessa nova adaptação do livro de Shusaku Endo, o cineasta americano vai além na trama do que na versão de 1971 de Masahiro Shinoda. Sem economizar na violência chocante, Scorsese deixa tudo límpido e esclarecido, quebrando um pouco do ar reflexivo que Shinoda oferece ao parar a história num ponto mais crucial, algo parecido com que fez em sua versão da saga de Jesus Cristo.

De todos os modos, ambos os filmes não só levantam a dualidade dos lados frente a questão da liberdade de crenças do povo, e a necessidade de violência cruel em frear o opositor, mas também o quanto a fé e suas crenças devem ser colocados acima de tudo, de forma a prejudicar não só a si mesmo, como a outros envolvidos. Negar sua fé, humilhar seus símbolos, sofrer dor física pela inquisição dos que não acreditam em seu Deus, Scorsese impõe a visão ocidental da perseguição e da humilhação que amputa a fé pelo silêncio

Personal Shopper

Personal Shopper (2016 – FRA) 

A sequencia mais sugestiva e facilmente comentada do novo filme de Olivier Assayas são os vinte tensos minutos de uma viagem de trem Paris-Londres-Paris, onde apenas acompanhamos as reações da protagonista, Maureen (Kirsten Stewart), à troca de mensagens durante o trajeto. É a arte de filmar a tela de um celular, de uma forma que possa causar tensão, dualidade, e a dúvida de quem é a (o) desconhecida (o). O ritmo e esse diálogo com a comunicação moderna, reinventando os limites da narrativa.

Desde o começo, o filme flerta com o fantasmagórico, e transforma essa atmosfera em seu próprio combustível para ascender as chamas do incêndio pessoal que vive a jovem americana de passagem em Paris. A qualquer um, ela afirma que está na cidade esperando. O namorado a aguarda no Oriente Médio, mas sua habilidade médium lhe faz tentar algum contato com o irmão gêmeo, que morreu repentinamente. Assayas se aproveita dessa tentativa de contato espiritual, aliado ao desconforto da garota de praticamente não viver sua própria vida no momento, não há nada reconfortante a seu dispor (apartamento dividido com alguém, a distância de todos, a dor da perda). Nisso tudo, o emprego temporário como assessora de compras de uma celebridade apenas corrobora nesse estranhamento/distanciamento.

A citada sequencia no trem é primordial, até lá já conhecemos os personagens, o mundo de Maureen já está claro ao público. Mas, outra cena parece ainda mais crucial, Assayas traduz os sentimentos e comportamentos reclusos de sua personagem. Influenciada, Maureen cruza os limites e faz algo proibido. O diretor a acompanha pelo apartamento num longo plano-sequencia, sensual e libertador, que brinca com o mistério pela câmera nem sempre conseguir focalizá-la por entre as paredes. Vendo uma cena desse tipo, é fácil compreender porque foi escolhido Melhor Diretor em Cannes. É outro exemplar da filmografia do cineasta francês com clima fantasmagórico, um thriller psicológico de personagens meramente fascinantes.

Fátima

Fatima (2015 – FRA) 

A escolha do filme do diretor marroquino Philippe Faucon para o prêmio máximo do cinema francês (Cesar) este ano foi relativa surpresa, longe de ser favorito, e de ter um nome consagrado, o filme não só foi eleito melhor filme, como também roteiro adaptado e revelação feminina (Zita Hanrot). Não é de agora que Faucon trata da questão da áfrica de colonização francesa, outra bom exemplo era o drama de guerra A Traição (da época da guerra da Argélia).

Dessa vez, Faucon invade o âmago feminino entre tensões culturais e sociais. Por um lado os imigrantes com dificuldade em falar o idioma, de outro os filhos já adolescentes, cada vez mais adaptados a cultura e sociedade francesa, consequentemente em conflito com aspectos culturais e religiosos muçulmanos.

A personagem de Soria Zeroual encarna a personagem-título que trabalha como faxineira para sustentar os estudos de suas duas filhas. A narrativa de Faucon mistura a leveza da juventude (amizades, amor, sexo) à dificuldade de assimilação de Fátima às modernidades e educação das filhas sob as rigidez de suas crenças culturais. É um drama sem lágrimas, mas com a sinceridade dos conflitos e da intimidade na relação mãe-filha. Dentro de sua simplicidade pode dialogar muito bem com os que enxegarão em Fatima a representação da própria mãe, de suas angustias e a alegria sempre projetada na felicidade dos filhos.

O Filho de Joseph

Le Fils de Joseph (2016 – FRA) 

O novo trabalho de Eugène Green, exibido na seção Forum do Festival de Berlim de 2016, mantém a tradição de seu cinema, mas num tom, levemente, mais palatável. Os diálogos seguem pausados, muito plano contra-plano, as referências literárias ou bíblica presentes (filme é dividido em 5 capítulos ligados à Bíblia). Por outro lado, é um filme mais iluminado, otimista, cheio de vida.

O tema já é caro a todos nós, filho adolescente quer conhecer o pai biológico. A trama oferece peripécias, provoca petulância de personagens clichê, mas desemboca mesmo naqueles laços pessoais que construímos ao longo da vida, com pessoas que, de alguma forma, escolhemos e nos fazem sentir bem. O final é saboroso e repleto de reviravoltas pessoais, mas não fiquem só com as “fanfarrices” de Green na reta final, o filme todo é de um encaixe perfeito com a filmografia do cineasta, entre seus absurdos e o lado afetivo mais destacado.

EP 65 – Fé Demais Não Cheira Bem

A fé em três momentos. No episódio da semana, Chico Fireman, Cris Lumi, Michel Simões e Tiago Faria batem um papo sobre filmes que, de alguma forma, tratam da crença naquilo que não se vê.

No drama Silêncio (10:10), o novo de Martin Scorsese, jesuítas portugueses são perseguidos pelo governo japonês. Há como pregar uma fé sem violar uma cultura? Em Personal Shopper (42:52), o instigante thriller de Olivier Assayas, uma mulher vive uma crise de identidade, dividida entre o trabalho maçante e os contatos com espíritos.

Por fim, Kong – A Ilha da Caveira (1:05:25), um exemplar de filme de aventura, com elementos de ação B, cujos personagens adoram o grande macaco que os protege. E mais: Cantinho do Ouvinte e, entre as recomendações, um clássico de Alain Resnais. Bom podcast!

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Armas na Mesa

Miss Solane (2016 – EUA) 

A atuação dos lobistas como elo entre governo e interesse de grandes empresas é fascinante. A capacidade de criarem artimanhas, o jogo de xadrez para conquistar aliados, a ética colocada de lado. Infelizmente, nem sempre esse exercício fascinante acaba se tornando um filme, minimamente, interessante. Este thriller político de John Madden até merecia sorte melhor, se compararmos com a média do que chega ao circuito.

O tema aqui é o controle na venda de armas nos EUA, lobistas predatórios defendem interesse de seus clientes, e o mundo corporativo se torna uma guerra de espiões, chantagens e a tênue linha da ética abandonada friamente.

A sempre talentosa Jessica Chastain, e os métodos workaholics e nada ortodoxos de sua personagem, são o combustível que carrega o público pelo filme de Madden até se transformar num filme de tribunal e as surpresinhas do roteiro desconstruírem a narrativa vigorosa que o diretor conseguia até então, por mais tudo soasse como uma fantasia “real”. Mas o final, realmente, termina com qualquer credibilidade, em prol desse público ávido por apenas ser surpreendido, enquanto os temas propostas (não só o debate de armas e violência, como a utilização das pessoas como armas de estratégias inescrupulosas) se tornam apenas abajures de um roteiro banal.

Eu Não Sou Seu Negro

I Am Not Your Negro (2016 – EUA) 

Um dos documentários indicados ao último Oscar é mais um dos que vem chacoalhar a questão dos negros nos EUA. Partindo dos manuscritos de um livro inacabado de James Baldwin, o diretor Raoul Peck dá a sensação de um vídeo-livro, biografia da relação de Baldwin com as influências e proximidade do mesmo com três ativistas políticos (Medgar Evers, Malcom X e Marthin Luther King) parar criar este retrato reflexivo de toda a questão politico-social da luta por justiça e igualdade.

Em primeira pessoa (narração de Samuel L. Jackson), Baldwin não só traça parte da história dos três ícones assassinados, mas também aprofunda suas próprias reflexões, ampliando as possibilidades da simples narrativa da história da luta racial. Um resultado impactante, repleto de material de tv, entrevistas e debates, e o tom carinhoso de quem faz da luta parte de suas memórias.