Black (2015 – BEL)

Adaptação de Romeu e Julieta da dupla Adil El Arbi e Bilall Fallah, que transpõe a história shakespeariana de amor inocente e ódio entre famílias/gangues para a guerra social na Bélgica contemporânea. Nos subúrbios de Bruxelas se formam gangues rivais de jovens africanos, negros de um lado (não peguei qual a nacionalidade), e marroquinos de outro. Trafico, peguemos assaltos, bairros perigosos, essa história que conhecemos tão bem.

Em meio a marginalidade, um jovem casal se apaixona. O romance não é recebido bem por nenhum dos lados. É um filme muito bonito visualmente, com boas tentativas de ir além da história, em travellings e enquadramentos inusitados, algumas cenas com pouca luz. Por outro, não vai além dos clichês do cinema social, da violência entre as gangues e da rebeldia. Além do aspecto positivo visual, há uma cena, em especial, de violência (que não briga) que vai além do marcante, é realmente assustadora e chave para o clímax do final.

Prazer em Roubar

Publicado: maio 20, 2021 em Cinema
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The Pleasure of Being Robbed (2008 – EUA)

Sim, a personagem central é uma cleptomaníaca, e esse prazer em roubar é o fim condutor do jovem estreante Josh Safdie (assina ainda sem o irmão), mas a impressão é de que o filme utiliza essa “hábito” como maneira de facilitar a compreensão desse espírito-livre que anda pelas ruas de Nova York fuçando em bolsas, roubando despreocupada, talvez aguçada pela curiosidade. Muita câmera na mão tremendo, imagem granulada, e a sensação de testemunhar essa liberdade misturada com solidão. Poderia ser um coming-of-age tardio, mas nem isso, é apenas o acompanhamento desse fluxo irresponsável em frequente movimento, e o exercício de um cineasta, que nem terminaram seus estudos, mas já fincava um estilo que só se confirmou como um dos mais interessentes do cinema indie americano atual.

Heremias: Book One – The Legend of the Lizard Princess (2006 – FIL)

Poderia ser visto como o sofrimento de um homem que tem tudo seu roubado e não sofre nenhuma assistência policial/governamental, parte do filme é isso, dentro dessa longa jornada de dificuldades e solidão do personagem (e bota dificuldades nisso, o cineasta não nos poupa de um segundo sequer de desgraças). Mesmo miserável, Heremias ainda tem o gesto nobre de se importar pelas pessoas, de tentar ajudar, isso fica evidente na nova guinada de domina as duas horas finais do filme. Possivelmente o filme de Lav Diaz é sobre isso, em levar o miserável aos limites, mas ainda encontrar algo nobre em quem tem isso dentro de si, mesmo que tudo a sua volta seja corrupto, egoísta, sujo ou simplesmente prevaleça o descaso. O choro desesperado pode sere um elemento apelativo, algumas vezes é a única coisa que ninguém nos pode tirar.

A Metamorfose dos Pássaros (2020 – POR)

Queria eu ter o poder de resumir a história da família com essa beleza harmônica entre imagem e palavras, entre tom e melancolia, e assim transformar o íntimo num sentimento capaz de causar identificação com um espectador do outro lado lado continente, que talvez nem fale sua língua. O filme da estreante Catarina Vasconcellos é impressionante. Através de cartas, fluxos de memória, ou pequenas conversas, ela relata o luto, resgata a infância, narra a história de três gerações de uma família, a sua família. Já vi muitos cineastas importantes trazerem para o cinema histórias de suas famílias, memórias, que muitas vezes se tornaram filmes que deveriam ter ficado apenas no âmbito familiar. Catarina prova que é possível realizar um filme lindo, tocante, e dar significado e criar proximidade com desconhecidos. Poderia resgatar diálogos, cenas, mas prefiro deixar sem spoilers para os que ainda vão descobrir esse poema filmado. Desde já um dos grandes filmes do ano.

Hebe: A Estrela do Brasil (2019)

Ainda que o filme dirigido por Maurício Farias caia na armadilha de dividir a vida dela em pequenos capítulos, bem definidos (ao invés de criar mais naturalmente), com alguns momentos marcantes de sua trajetória (saída da Band, a luta contra censura, morte de amigo, Silvio Santos, violência doméstica e etc), há uma nítida preocupação estética de encarar sua biografada por ângulos não convencionais que o deixa como um filme além do simples contar uma historinha. E tem Andrea Beltrão que não tenta imitá-la em tudo, que absorve trejeitos, mas se coloca também na personagem, fugindo das interpretações de imitação que levam tantos Óscares por ai

Something To Remind Me

Publicado: maio 9, 2021 em Cinema
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Toter Mann / Something to Remind Me (2001 – ALE)

Christian Petzold cada vez mais cativanete nessa arte de nos intrigar. Uma mulher misteriosa, que foge de qualquer aproximação, de flertes, de qualquer relação social que possa trazer um traço de intimidade. Tentamos adivinhar seus segredos: foi magoada por um homem? Está fugindo de um? É uma criminosa foragida?

Quem se aproximada dessa bela mulher na piscina é o advogado tímido, e quanto mais ela se esquiva, mais ele se demonstra interessado, como desafiado a vencer as próprias barreiras intransponíveis de suas dificuldades. Se você está achando que é apenas um filme sobre uma história de amor, então passou longe.

A primeira parte da trilogia Fantasmas de Petzold guarda segredos na simplicidade até deixar o público atônito quando tudo for revelado. O primeiro grande filme do cineasta alemão foi feito para a tv,mas os produtores se admiraram tanto com o resultado que acabou sendo lançado nos cinemas, mais que justo, a interpretação de Nina Hoss valia as telas grandes.

Um Jogo Brutal

Publicado: maio 7, 2021 em Cinema
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A Brutal Game (1983 – FRA)

Segundo longa da carreira de Brisseau chama atenção por ser tão limpido e simples na forma de narrar a história, mas de uma potente dualidade entre violência e afeto. De um lado a garota adolescente que sofre de paralisia nas pernas e é tao amarga com tudo e todos até descobrir a paixão, seu corpo, enfim amadurecer. Do outro lado, e principalmente está o pai, um biólogo renomado que desde a primeira cena descobrimos ser um serial killer. Longe de um thriller típico, o filme mostra essa relação conturbada, o pai que impõe limites à filha com métodos duros, enquanto nos perguntamos porque ele comete crimes com criança num misterioso jogo que o filme faz de tudo em escapar do suspense.

Terremoto

Publicado: maio 6, 2021 em Cinema
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Skjelvet / The Quake (2018 – NOR)

Filmes catástrofe sempre abusam do melodrama, por outro lado reservam momentos emocionantes. Aqui o roteiro privilegia a história de uma família, enquanto um terremoto devastador está prestes a acontecer, como foi o terremoto real de 1904. E o filme tem mesmo uns 30 minutos, na reta final, que são mais que eletrizantes e valem muito pela sensação de realismo e tensão. Fora isso, se você conhece Oslo, ver os locais mais importantes da cidade em ruínas é altamente impactante. Sensação de que John Andreas Andersen nos entregou um guilty pleasure.

Atlantis

Publicado: maio 4, 2021 em Cinema
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Atlantis (2019 – UCR)

Os conflitos e disputas territoriais entre Ucrânia e Rússia seguem frequentes (lembre-se da Criméia), aqui o diretor Valentyn Vasyanovych imagina seu país aos cacos após o possível fim de uma guerra devastadora que contaminou água, terra e realmente pouco restou. O que resta forma essa distopia desoladora narrada através de um personagem (Andriy Rymaruk) que parece completamente desprendido do mundo vivendo com seu stress pós traumático e poucos prazerers além dos treinos de tiro. Quando a fundição onde trabalhava fecha as portas, ele passa a trabalhar na busca de corpos dos soldados daquela guerra para que sejam reconhecidos e enterrados.

O filme foi o vencedor da Mostra Horizontes no Festival de Veneza de 2019, e acabou de ser lançado no streaming Reserva Imovision. O diretor foi o produtor de A Tribo, e semelhanças são facilmente notadas, principalmente estéticas. Planos longos, fixos e abertos oferecem além de um falta de intimidade, essa frieza quase documental com que se intensifica as feridas de um país arrasado, cinzento, mas que o filme curiosamente tenta traçar um mínimo de esperança.

Miss Marx

Publicado: maio 3, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Miss Marx (2020 – ITA)

Você nao precisa gostar dos filmes para se interessar por eles. Por enquanto tem sido assim minha relação com a diretora italiana. Se inspirar na biografia da filha de Karl Max para trazer paralelos de discurso com o mundo atual (posição da mulher, capitalismo), brincar com rock (ok, algo como fez Sofia, mas diferente), quebrar a quarta parede, todas maneiras de dar dinamismo, de colocar sua assinatura além dos discursos do filme de época.

Nem todas as ideias funcionam perfeitamente, no todo é um filme interessante, talvez mais convencional do que ela imaginava ter finalizado. O mais legal é o cinema ter espaço para novas visões, novas leituras, dando espaço e liberdade. Afinal, se excluirmos o sobrenome Marx, temos uma mulher determinado, corajosa, mas também apaixonada, mais para frente que seu tempo e ainda assim tendo que aceitar alguns sapos.