Columbus

Columbus (2017 – EUA) 

A pequena cidade de Columbus, no estado de Indiana, EUA, é um desses exemplares de beleza rara. Menos de 50 mil habitantes, e uma enormidade de edificações de beleza arquitetônica admirável formando um conjunto quase hipnótico aos olhares mais atentos. Em sua estreia, o diretor Kogonada explora essa característica marcante, quase conduzindo sua narrativa como os traços de um desenho de arquiteto. É tudo pensado milimetricamente, os planos que aproveitem a beleza local, ou que sabem usar o fora de foco – como numa das sequencias iniciais que o mau súbito derruba o arquiteto estrangeiro palestrante, e que causa a vinda do seu filho (John Cho).

Sua chegada e um simples cigarro o aproximam da bibliotecária e apaixonada por arquitetura, Casey (Haley Lu Richardson). A relação dos dois é imediata, porém complexa, e essa construção é o que Kogonada tem de melhor em seu filme porque é passível de inúmeras interpretações: atração física, paixão, dois estranhos encontrando consolo, são tantas as possibilidades. Enquanto o pai permanece hospitalizado, os dois se encontram pela cidade, em longas conversas sobre arquitetura, relações familiares, futuro, sonhos x realidade. E o público tendo suas percepções de como cada um deles reflete a experiência dessa convivência.

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Mãe!

Mother! (2017 – EUA) 

Entre vaias e aplausos que foi recebido o novo thriller psicológico dirigido por Darren Aronofsky durante a competição do Festival de Veneza. Mais ousado e pretensioso do que nunca (lembrem-se que ele dirigiu Noé e Fonte da Vida), o cineasta nova-iorquino provoca o público na estética, e principalmente na forma de síntese com que aglutina todas as mazelas do mundo.

Os posters e trailers já ofereciam a estranha sensação visual, algo entre o religioso brega e o dark misterioso, além da artificialidade gritante. E o filme não nega as aparências, repleto de planos-sequencias circulares e insanos, e a atmosfera da presença de um mal sobrenatural naquele lar, o casal começa a receber visitantes (sem convidá-los) e a hospitalidade do marido (Javier Bardem) assusta a passiva esposa (Jennifer Lawrence). Entre o medo e a insegurança e o ar acolhedor do poeta em bloqueio criativo, que o filme constrói arcos dramáticos que sempre colocam-na como a figura frágil e perturbada frente uma normalidade que não existe.

Mais adiante na história, desses arcos dramáticos surgem sequencias ainda mais insanas em que Aronofsky tenta refletir sua visão sobre nossa sociedade tão violenta e desumana. Nada de metáforas, é tudo explícito e visual, exagerado e acelerado. A cada novo horror, o filme faz referências a dramas pessoais ou universais como: crime, guerra, religião, maternidade, dor. Interpretações over, conceitos didáticos, Aronofsky não consegue dar cabo de nem metade de todos os conceitos que pretendia, e sua pretensão realmente incomoda muita gente. Por outro lado, sua ousadia em colocar tudo isso num filme de estúdio, com os grandes astros de Hollywood, vem de encontro com as pretensões que sempre estiverem fortemente claras em sua filmografia.

EP 92 – Vai pro Oscar ou não Vai?

Boletim do Oscar (9:01) voltou! Bingo – O Rei das Manhãs foi escolhido pelo Brasil para representar o país no Oscar de Filme Estrangeiro. Os varandeiros Chico FiremanCris LumiMichel Simões e Tiago Faria entram no debate: a decisão foi acertada? Tem chances? E as polêmicas reações das equipes dos filmes preteridos? No cenário internacional, quais são os longas que já estão disputando as cinco vagas?

Entre as estreias, destacamos três filmes. Tom Cruise está em Feito na América (28:19), produção dirigida por Doug Liman sobre o piloto de aviões Barry Seal, que trabalha para a CIA e para Pablo Escobar. Falando em Oscar, Uma Mulher Fantástica (45:51) é o escolhido do Chile e trata da discriminação sexual. E o brasileiro As Duas Irenes (1:01:41) retrata o despertar da juventude ao contar a história de uma garota que descobre um terrível segredo familiar. Quais deles ficam, caem ou se penduram na Varanda?

Tem Cantinho do Ouvinte, pinceladas sobre o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2017 e o filme búlgaro Glory, enquanto que nas recomendações alguns destaques do Indie Festival 2017. Bom podcast!

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Colo

Colo (2017 – POR) 

A cineasta Teresa Villaverde conjectura a crise econômica europeia sob os reflexos de uma família de classe média portuguesa, a via-crucis sem melodrama. É um filme angustiante pela naturalidade com que a situação financeira os assola lentamente, um passo a passo que os mergulha ainda mais na desestabilização emocional. O marido desempregado, a esposa quase em dupla jornada diária, e as contas não pagas só se acumulam. A filha adolescente parece indiferente, mais preocupada com seus pequenos dramas da sexualidade, da busca por liberdade, da amiga de gravidez precoce.

Longos silêncios, planos abertos (muitas vezes de outro prédio da vizinhança) que captam a desesperança ou a incomunicabilidade. O filme prefere a noite, mas também se aproveita do escuro no apartamento com a luz cortada, a alimentação racionada. Repito que a diretora evita o melodrama, ainda que reverbere com cenas fortes, de impacto duro e até comoventes. E quanto mais agravada a situação familiar, maior o descontrole emocional. O fim da estabilidade e da rotina, quebrados pela incerteza, ou pela certeza de que amanha será pior, e pior, e pior…

As Duas Irenes

As Duas Irenes (2017) 

Estreia na direção de Fabio Meira, depois de uma carreira iniciada em curtas-metragens, e com sua primeira exibição numa das mostras paralelas do Festival de Berlim. O filme é mais um capítulo que o cinema oferece sobre o coming of age, com uma pitada a mais do desabrochar da puberdade.

Uma cidadezinha no interior de Goiás, no foco central temos Irene (Priscila Bittencourt), treze anos e filha do meio. A jovem descobre que o pai (Marco Ricca) tem outra família, e outra filha, com a mesma idade e nome (Isabela Torres) que ela. Interessante essa criação do duplo na cabeça de uma adolescente, que já tem tantos tabus (corpo, sexualidade, liberdade, confronto com os pais) para enfrentar. Como lidar com o segredo, quem é essa irmã, quais as diferenças entre elas?

A ideia do roteiro não se desenvolve muito além disso, facilita mais no encontro de uma forma de convício do que estabelecer questionamentos mais complexos. Mas Fabio Meira sabe oferecer espaço a suas personagens se desenvolverem ao longo do filme, através de um voyeurismo distanciado, do uso de olhares por espelhos ou janelas, há sempre a observação e o olhar de reflexão. A amizade e cumplicidade das Irenes se torna vital a suas personalidades e funcionam para testemunharmos o coming of age. Por outro lado, há o confronto, de todos os lados (entre Irenes, com os pais), e toda a questão intrínseca pesando sob personalidades ainda frágeis, e o filme sabe resolver bem essa trama em seu final naturalmente questionador.

EP 91 – Super-Moro contra o Palhaço do Mal

Notícias recentes sobre a política brasileira chegam aos cinemas em Policia Federal – A Lei é Para Todos (9:19). Chico FiremanCris LumiMichel Simões e Tiago Faria discutem o lançamento brasileiro mais polêmico do ano. O longa-metragem sobre a Operação Lava Jato consegue ser um digno thriller policial ou é apenas um caça-níquel partidário? Muita pressa para contar uma história que ainda nem terminou?

It- A Coisa (47:48) é a surpresa das bilheterias na temporada que segue a dos ‘summer movies’. Opiniões divididas na Varanda para essa nova adaptação para o livro de Stephen King. Aliás, falando nele, aproveitamos para debater o retorno de um dos escritores mais adaptados no cinema (1:06:56). E ainda: Cantinho do Ouvinte, Recomendações e muito mais. Bom podcast!

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Uma Mulher Fantástica

Una Mujer Fantastica (2017 – CHL) 

Depois do sucesso de seu filme anterior, Glória, o chileno Sebatián Lelio volta a ganhar destaque internacional com seu premio de melhor roteiro no festival de Berlim. Novamente tem uma personagem feminina como protagonista, só que dessa vez, prefere discutir outras questões que ainda parecem tabu na socidade moderna.

Marina (Daniela Veja) é uma mulher transexual namorando um homem mais velho que tem uma morte repentina. De mero aposto para a familia, Marina se vê como cerne da perseguição de todo o preconceito, amargura e desprezo que a escolha anterior do patriarca causou a sua ex-mulher e filhos. Violência, desrespeito, invasão de privacidade, o filme de Lelio oferece toda essa perspectiva evasiva (pscicológica, social ou física). O constrangimento como forma de extrapolar julgamentos. E nesse momento de dor, e de comportamentos tão caótica, Marina frágil, insegura, se vê numa sociedade incapaz de acolher e que lhe cobra uma dose de coerência social que ninguém sequer rascunha ter para com ela. É um belo filme de recolhimento sentimental, de imposição de gênero, e de sobrevivência urgente.