Caché

Publicado: maio 5, 2006 em Uncategorized

Tenho vários filmes para postar, mas como na minha humilde opinião Caché será o filme do ano, pois duvido que outro filme irá me causar emoções semelhantes, resolvi postar novamente o que escrevi sobre o filme quando o vi na última Mostra, fica p/ semana que vem A Grande Viagem, Achados e Perdidos, Acordo Quebrado e outros mais… Assistam Caché!

Caché, 2005 – AUT/FRA/ALE/ITA)

Instigante e intrigante. O leve incomodo na barriga persiste desde a cena inicial quando os intermináveis créditos iniciais aparecem enquanto a câmera focaliza ao fundo a porta de uma casa, ao fim dos créditos descobrimos que já estamos no filme e nem percebemos, aquela imagem se tratava de uma fita gravando a casa dos protagonistas. Fita essa misteriosa que foi entregue junto a um desenho de um garoto cuspindo sangue.
Georges é apresentador de um programa de TV e sua esposa Anne trabalha numa editora, vou usar as mesmas palavras que Georges diz a sua mãe, ele está bem, sua esposa está bem, o filho está bem, portanto levam uma vida sossegada, classe média alta e todo o requinte que essa situação lhes proporciona. A fita traz o sentimento de estarem sendo vigiados, princípio de desestabilização pessoal, e é só o começo já que outras fitas virão, com mais pistas e uma história que remete a um passado que Georges teima em esquecer.
Michael Haneke é meticuloso, cada tomada é pensada no intuito de instigar, em momento algum o diretor permite um refresco ao público. A fotografia de Christian Berger auxilia muito, um trabalho primoroso entre luz, sombra, ambientes claros e escuros. A engenhosidade do filme de Haneke é extraordinária, só ao final você é capaz de encaixar as peças e compreender que o filme é todo centrado no preconceito, mais precisamente na relação entre franceses e argelinos. Haneke deixa uma crítica ácida à sociedade francesa, culpa-a de até hoje não se arrepender de atrocidades cometidas, mas Haneke faz isso de maneira tão sutil, mas tão sutil que quase passa desapercebido.
Há momentos gloriosos, algumas cenas inesquecíveis, um Daniel Auteuil esplendidamente comedido nos agracia com cenas como na cozinha enquanto pega os frios para um lanche, ou a mais que instigante cena do elevador onde pelo espelho observamos as reações pulsantes dos personagens. Mas há também Juliette Binoche, e com ela outro banho de interpretação, algumas discussões entre o casal possuem verdades tão profundas e tão bem interpretadas que se estivesse em casa repetiria algumas vezes cada cena.
Haneke faz de Caché um filme impressionante, negamos tudo aquilo que nossos olhos estão vendo até o ultimo momento, assim como negamos tudo que pesa sobre nossos ombros mas não nos incomoda no dia-a-dia. Há três ou quatro passagens, pequenas frases que fazem toda a diferença no filme. Caché é um filme onde não se pode piscar um segundo.

Georges Laurent (Daniel Auteuil) Anne Laurent (Juliette Binoche) Pierrot (Lester Makedonsky) Majid (Maurice Bénichou)

The New World (2005 – EUA) 

O melhor do filme de Terrence Malick está no primitivo. Ninguém melhor do que ele soube dar ao público a sensação de descoberta, de invadir a mata virgem e selvagem. E o público totalmente desprevenido do que os olhos irão avistar. Longos planos pela paisagem, sobre rios e lagos, dentro da floresta intacta. São momentos contemplativos, imagens a se admirar, um espetáculo fabuloso de cores, formas e sensações. Chegamos ao novo mundo.

Uma expedição aporta em 1606 em Virginia, a fim de povoar o lugar. Confronto com os nativos, falta de mantimentos, a proliferação de doenças, brigas internas pelo poder, são inúmeros os problemas enfrentados pelos homens enviados pela monarquia britânica. O Cap. Smith é capturado pelos nativos, e ao invés de ser sacrificado passa a viver com os índios e aprender seus costumes, a filha preferida do cacique apaixona-se por ele. Temos aí a lendária história de Pocahontas.

Esse mistério sobre o incógnito, promovido por Malick, instiga o efeito de nos fazer viajar pela imaginação. Deixemos um pouco de lado a idéia de reconstituir fatos e celebrar nomes, e passemos a saborear o prazer de se embrenhar pelo desconhecido, vislumbrar a natureza em sua forma mais pura. O cinema de Malick mostra-se muito mais forte por sua forma do que pelo contexto, aliás, quando o filme perde um pouco dessa contemplação da natureza e passa a concentrar-se na história desse amor desfragmentado é que tudo passa a ser levemente maçante. Mesmo mantendo sua forma, os olhos não se interessam tanto por aqueles sentimentos patinando, o romantismo escorrendo, o bom-mocismo, e as vozes em off que teimam em tentar explicar desnecessariamente a alma de seus personagens.

instintoselvagemInstinto Selvagem (Basic Instint, 1992 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O grande momento em que Sharon Stone despontou para o mundo, por suas curvas vibrantes, mas, principalmente, pelo voraz apetite sexual da personagem que ela traduz tão perfeitamente nesse suspense de requinte libidinoso. Catherine Trammel é uma devoradora de homens, ou para ser mais exato, uma mulher que busca seu prazer sem limites, sem tabus, dona de uma ativa e desregrada vida sexual que encontra no detetive Nick Curran (Michael Douglas) um par perfeito para mais um de seus jogos sexuais.

Um ex-roqueiro morre apunhalado por um picador de gelo durante o ato sexual, ele mantinha caso com uma escritora especializada em psicologia. Seu livro anterior narrava a morte de um roqueiro com detalhes idênticos aos fatos que o levaram à morte. Teria ela cometido o crime e o livro seria seu álibi? Algum fã da escritora decidiu dar vida às páginas do livro?

Quanto mais o problemático investigador mergulha no caso (problemas com alcoolismo, drogas e etc), mais se aproxima da investigada, numa rede de desejo, tensão sexual e desconfiança que nenhum dos dois consegue evitar. Paul Verhoeven mostra-se aqui um discípulo incontestável de Alfred Hitchcock, são inúmeras as cenas em que há impressão de se tratar de um filme do mestre do suspense. Os enquadramentos, o posicionamento dos atores diante das câmeras, algumas das externas, há muito Hitchcock espalhado por todo o canto, porém há essa visão de dominação sexual que é tão marcante e decisiva na carreira do cineasta holandês.

Falar de todo o filme e não citar a famosa cena da cruzada de pernas é quase uma heresia, não só pelo que se vê, mas principalmente pela seqüência completa que é totalmente dominada por Sharon Stone e seu sex appeal enfeitiçando o ambiente. Ela controla todas as ações, deixa aquele bando de homens constrangido com sua verborragia, com sua segurança. A cena é toda de Stone, e Verhoeven sabe extrair o melhor do melhor, os cortes rápidos, o plano contra-plano entre ela e os policiais. Um momento espetacular, de tirar o fôlego.

 

 

instintoselvagem2Instinto Selvagem 2 (Basic Instint 2, 2006 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Quem não foi preparado para o pior? De tão negativa a expectativa o filme até consegue surpreender, ele é só ruim demais. Para começar o argumento que sustenta a continuação não tem cabimento algum, a não ser o apelo de caça-níquel, uma mudança aqui e ali, e praticamente repetiram o roteiro do filme anterior. O diretor Michael Caton Jones, não consegue nem de longe repetir o estilo empregado por Paul Verhoeven, sua condução não consegue dar a trama aquele clima de suspense, aquele ar de algo prestes a acontecer, a tensão.

Os atores são péssimos, com destaque pior para David Morrissey, que interpreta o psiquiatra. É irritante notar a mesma feição em seu rosto em todos os momentos, pior que em nenhuma cena aquela feição mostra-se minimamente adequada. Um ator patético, fazendo algumas cenas tão patéticas quanto. A seqüência final é ridícula, no mínimo desnecessária para não dizer coisas bem piores, mas há uma outra cena, num julgamento, em que o psiquiatra confirma uma pergunta de uma advogada de acusação sobre a ré ser um perigo para si, simplesmente medonho.

Nesse mar de incompetência e babaquice há Sharon Stone no que sabe fazer melhor. Ninguém, repito ninguém, transmite essa tensão sexual como ela faz, esse desejo a flor da pele, a vontade de transar o tempo todo, com todo mundo, em qualquer lugar, o apetite sexual mais voraz do cinema. Mesmo com a picotada edição que corta tudo de maneira rápida e não deixa nenhuma cena ser mais apurada pelo público, ainda assim Stone resgata o banho de sensualidade de sempre. Esbanja seu corpo escultural fervilhando de prazer e faz de Catherine Trammell uma personagem memorável. Não, Sharon Stone não é uma atriz espetacular, mesmo nesse filme ela dá suas rateadas, mas nesse tipo de personagem, esse vulcão em forma de mulher, é espetacular.

O Corte

Publicado: maio 1, 2006 em Uncategorized

(Le Couperet, 2005 – FRA)

Grandes corporações em reestruturação, fusões visando tornarem-se a máxima competitividade, cortes e demissões. Dinâmica de uma época? Desnorteado pelos mais de dois anos desempregado, um executivo do ramo de papel decide eliminar (no sentido literal da palavra) seus maiores concorrentes para um futuro processo seletivo. Devido à freqüência e gravidade do problema, acredito que o tema desemprego poderia ganhar muito mais espaço no cinema atual. Sua recorrência está impregnada nas sociedades, difícil quem não possui um desempregado na família. Mesmo quando Costa-Gavras idealiza um serial-killer, o insere num contexto político-econômico, mantendo assim seu engajamento cinematográfico coerente, dando mais um passo convicto dentro de sua sólida carreira.
O filme apega-se demais ao lado “psicopata” do personagem, prefiro deixar de lado a desenvolver melhor esse aspecto por não haver nada de novo, ao contrário, há muitos outros personagens com característica semelhante, porém bem mais interessantes e melhor resolvidos. Um homem em momento de total desequilíbrio e desespero, perde seus limites morais, o instinto passa a regular sua personalidade, como se matasse por sua sobrevivência.
O que há de interessante é a nova configuração familiar. Primeiro a mulher passa a sustentar a família enquanto o homem é incapaz de cumprir todas as funções domésticas exercidas por ela. Prossegue com a queda do padrão de vida, como possuírem apenas um carro, cancelar tv a cabo e outros confortos que não se inserem no novo orçamento. Chegando na fase mais grave quando os elos familiares ficam balançados, o casamento na corda bamba, a relação com os filhos mais complicada. O incômodo sentimento de incapacidade que o desempregado carrega, sentir-se um fardo, a total falta de perspectivas, a dificuldade de recomeçar (ou continuar).
Costa-Gavras deixa seu recado em pequenos diálogos, trata a ambição e o medo. Todos demonstram o receio do desemprego, as mazelas que marcam essa fase que pode não chegar ao fim, principalmente àqueles que atingiram certa idade e com uma capacidade profissional onde as oportunidades que se encaixariam a seu perfil são raríssimas. O mundo encontra novas formas de crescimento, mas não está se preocupando com os estragos que está deixando pelo caminho.

Música da Semana:

CANDY

(Iggy Pop)

It’s a rainy afternoon In 1990
The big city…geez, it’s been 20 years!
Candy,
You were so fine
Beautiful, beautiful Girl from the north
You burned my heart with a flickering torch
I had a dream that no one else could see
You gave me love for free

Candy Candy Candy
I can’t let you go
All my life you’re haunting me
I loved you so
Candy I can’t let you go
Life is crazy
Candy baby

Yeah, well it hurt me real bad when you left
I’m glad you got out
But I miss you I’ve had a hole in my heart
For so long
I’ve learned to take it and Just smile along
Down on the street
Those men are all the same
I need a love
Not games
Not games

Brasília 18%

Publicado: abril 27, 2006 em Uncategorized

(2006)

Olho para nosso país e sinto vergonha, não pelos escândalos políticos que dominam os noticiários há meses, porque esses corruptos sequer merecem minha vergonha. Sinto vergonha da nossa incapacidade de se rebelar (incluindo-me nessa lista), de mostrar insatisfação, em outros países estaríamos à beira de uma guerra civil com o povo derrubando o governo na marra (panelaços, manifestações, os jovens nas ruas, sei lá). Enquanto aqui, uns criticam, outros se dizem indignados, o líder diz que não sabia de nada e fica tudo como está, até que na próxima eleição as esperanças do povo ressurjam vigorosas com os novos eleitos (e reeleitos). É por isso que fiz questão de assistir ao novo filme de Nelson Pereira dos Santos, porque a tão falada riqueza multicultural brasileira é tão pobre de revolução, de questionamento, de engajamento. Nas artes ninguém se levanta para protestar, o enfrentamento é inexistente, é muito mais fácil pegar a onda e só mostrar a miséria social e a violência. O rock que pelo mundo afora normalmente é escachado e taxativo aqui está mais preocupado em se mostrar pré-ignorante e chulo vivendo de “tamô aí na atividade”. Por isso, quando alguém quebra essa barreira, merece no mínimo minha atenção, se não saio da zona de conforto para demonstrar minha indignação, ao menos numa sessão de cinema preciso comparecer, daí a adorar o filme é outra história.
Há no filme dois pontos que gostaria de destacar, a reconstituição do funcionamento dos lobbies em Brasília é exemplar. Jantares com conversas discretas nos cantos, almoços em locais reservados com parlamentares, assessores, jornalistas. Um mundo de seguranças, motoristas e etc. Nelson Pereira dos Santos mostra aquilo que todo mundo sabe como funciona, mas nunca colocou no papel o organograma. Essa é o lado mais interessante do filme, sem falar em ouvir Sinfonia de Brasília de Tom Jobim (abrindo e fechando o longa), e na fabulosa condução do cineasta, a mão firme em fazer cinema autoral, mas que não fique marcado tão somente pelo roteiro.
Do filme, ele mistura essa modorrenta realidade política (CPI, corrupção, negociatas, seqüestros e assassinatos, dinheiro, dinheiro, dinheiro, como repete Augusto dos Anjos quase no final) a um surrealismo injustificado. Ricceli com cara de paisagem é de atormentar até quem estiver dormindo, Olavo Bilac é um personagem aborrecedor, quase petrificado e ainda assim é arrastado para cama de tantas mulheres, Bilac está mais para um maníaco sexual do que um homem perturbado e altamente ético, um delírio do roteiro. As investigações que querem dar ao médico-legista contornos de detetive são irreais, desnecessárias, seu envolvimento com a deputada Georgesand Romero também não é condizente, uma deputada atirar-se aos braços de um homem por interesses escusos, aos olhos de todos, homem esse que a mídia persegue no momento, realmente não me parece oportuno.
São inúmeras as observações que poderia fazer para reclamar do roteiro proposto por Nelson Pereira do Santos, melhor encerrar por aqui e ressaltar a atitude do cineasta em nadar contra a maré e ser uma voz solitária nesse mundo artístico brasileiro tão petulante, covarde e nada reflexivo. A idéia era se basear no escândalo da CPI do Orçamento (1993, se não me engano), mas é impressionante como parece que o filme usou fatos do ano passado, ou do mês passado, ou da semana que vem.

Três Enterros

Publicado: abril 25, 2006 em Uncategorized

(The Three Burials of Melquiades Strada, 2005 – EUA)

Um road movie a cavalo, uma celebração da amizade, o anseio de cumprir uma promessa, o problema da imigração ilegal na fronteira dos EUA com o México. Todos são temas recorrentes, mas é na valoração dos princípios morais onde se sedimenta a raiz do roteiro de Guillermo Arriaga (a cada dia mais se confirma um ótimo roteirista e continua desfragmentando suas histórias para depois entrecruzá-las, brincando com a noção de tempo). O desenvolvimento dos personagens é um trunfo eficaz em proporcionar humanidade, em criar cenas que não suavizam e nem extrapolam em dramaticidade, uma perfeita combinação entre contido e sensível.
É um filme de tantas possibilidades, todos os personagens merecem um pouco de reflexão. Desde o policial, típico, que oculta fatos e julga pela sua consciência o que investigar e quem prender, passando pela jovem de casamento infeliz que se vê num marasmo interminável ao se mudar para uma cidadezinha no meio do nada e encontra algum consolo na cama de outros homens. A garçonete balzaquiana que não esconde seus casos extraconjugais, porém mantém-se fiel a não deixar seu marido solitário.
E outros ainda menores (como o velho cego), o roteiro cria essa sociedade ressaltando brilhantemente os medos, as fraquezas, e principalmente os valores morais dessa sociedade que aceita relações extraconjugais desde que minimamente camufladas, que aceita a não investigação de uma morte só por se tratar de um ilegal. Aceita também a infelicidade conjugal, a rotina mórbida, a complacência como forma de facilitar as coisas, mas se assusta quando alguém clama por justiça, quando alguém decide colocar sua amizade a frente e realizar o desejo de um amigo, quando alguém se rebela contra o sistema.
A morte de Melquiades Strada, em circunstâncias obscuras, motiva o capataz Pete Perkins a realizar o desejo do amigo de ser enterrado num pequeno vilarejo no México. Pete seqüestra um patrulheiro, o possível assassino, e inicia uma peregrinação a cavalo desde o Texas. Árido, solitário, determinado, áspero, assim é Pete, alguém que aprendeu a lidar com o sistema para sua sobrevivência, porém guarda em si princípios que alicerçam sua vida. Não é o desejo de vingança que o motiva, apenas a necessidade de cumprir uma promessa. Solidarizar-se até o último momento com quem realmente lhe importa.
Deixei por último no intuito de dar maior importância, Tommy Lee Jones estréia na direção e já nos deixa na expectativa do que vem pela frente. Um trabalho maduro, centrado, não diria detalhista, está mais para profundo sem o desejo de ser fundamental. Barry Pepper é o tipo de ator que a maioria não dá nada, parece que não vai deixar de ser coadjuvante de filmes de ação, mas o ator se encaixa tão perfeitamente no conteúdo de Arriaga e na condução de Lee Jones, que só se abre a certeza de que há espaço para quem tem talento. O patrulheiro durão, ignorante, insensível, e ainda assim arrependido, capaz de chorar compulsivamente, lamentar profundamente seus erros, talvez até encontre a ressurreição.
Engraçado como duas cenas fundamentais estão ligadas a uma novela de quinta categoria. Primeiro a mulher assiste a novela, encostada na pia da cozinha, enquanto o marido cumpre suas necessidades sexuais, e ela dividida pelo choro de se sentir um mero objeto desprezível e a atenção no capítulo que parece mais importante do que seu prazer sexual. Mais tarde, o patrulheiro assiste a mesma novela e chora, ao seu lado alguns vaqueiros que não o conhecem e nem falam sua língua, sensibilizam-se com a dor incontida do rapaz. Um local tão viril e predominantemente masculino, realmente impossível que não se comovessem com aquelas lágrimas, uma situação completamente inimaginável.

Enron, Os Mais Espertos da Sala

Publicado: abril 24, 2006 em Uncategorized

(The Smartest Guys in the Room, 2005 – EUA)

A câmera posicionada no banco de trás não nos deixa distinguir as feições do motorista, o luxuoso carro trafega cruzando a madrugada, a voz divina de Billie Holiday nos conduz em God Bless the Child. O desfecho dessa seqüência são favas contadas, mas o detalhe da música deixa tudo mais suave, sutil, mesmo em se tratando de um suicídio. Ao se sentar para assistir ao documentário de Alex Gibney, você está mais que preparado para histórias sórdidas de falcatruas, negociatas, ausência de escrúpulos, a ganância acima dos valores, corrupção e mais tudo aquilo que nos recordamos dos noticiários à época. Mesmo assim, em algum momento, você irá se surpreender.
A falência da Enron é sem duvida o maior escândalo corporativo que se tem notícia, acompanhar com proximidade os passos que levaram a Enron a se tornar o conglomerado faraônico que se tornou e depois sua ruína, apenas nos trazem a certeza de que todos têm o seu preço, só é necessário saber quanto. Explicar aqui, ou tentar explicar, todas as artimanhas utilizadas pelos principais executivos da empresa, seria uma grande perda de tempo. Os balanços embasados por renomadas empresas de auditoria, onde os prejuízos eram maquiados como lucros fazendo as ações da empresa bateram recordes e mais recordes são apenas uma pontinha do iceberg.
Que executivos gananciosos são capazes de tudo, todo mundo imaginava, portanto saber que desviaram dinheiro, que não se preocuparam com os funcionários, aposentados, e acionistas; que tinham grande envolvimento com banqueiros e com o governo (explicitamente com George W Bush e seu pai), nada disso surpreende. São dois os pontos que mais chamam a atenção, o primeiro é a transformação dos líderes da empresa em superstars nos EUA, viviam em capas de jornal, faziam discursos, arrastavam platéias com frases planejadas para induzir a compra de mais ações. A queda da empresa e da reputação desses homens que eram ídolos de uma nação foi um golpe duríssimo, empresas de credibilidade podem no futuro sofrer com o fantasma Enron.
Mas o pior é o caso da Califórnia, o que fizeram por lá é de uma crueldade tão grande que se torna impossível medi-la. Forjar blecautes, parar usinas, deixar a população e a indústria a deriva, tudo para aumentar os lucros, para disparar com os preços da energia. A verdade é que os traders da Enron passaram a se sentir semi-deuses e, portanto poderiam fazer tudo que desejassem para atingir seus objetivos, vale tudo pelo lucro, a ética é uma palavra teórica e antiquada. Ask why, asshole. Acho que agora eu sei com quem nosso presidente aprendeu a dizer que não sabia de nada, que todos o traíram, que nunca foi informado daquelas decisões. O povo brasileiro agradece a lição que o ex-CEO da Enron, Jeff Skilling, ensinou a nosso digníssimo presidente.

Música da Semana:

GOD BLESS THE CHILD
(Billie Holiday / Arthur Herzog Jr.)

Them that’s got shall get
Them that’s not shall lose
So the Bible said and it still is news
Mama may have, papa may have
But God bless the child that’s got his own
That’s got his own

Yes, the strong gets more
While the weak ones fade
Empty pockets don’t ever make the grade
Mama may have, papa may have
But God bless the child that’s got his own
That’s got his own

Money, you’ve got lots of friends
Crowding round the door
When you’re gone, spending ends
They don’t come no more
Rich relations give
Crust of bread and such
You can help yourself
But don’t take too much
Mama may have, papa may have
But God bless the child that’s got his own
That’s got his own

Mama may have, papa may have
But God bless the child that’s got his own
That’s got his own
He just worry ‘bout nothin’
Cause he’s got his own

(2006)

A memória guarda ótimas recordações do primeiro filme, as conversas de bar recheadas de discussões inflamadas, paixões clubistas presentes até no tom de voz, as mais divertidas histórias envolvendo futebol. Por isso que a expectativa era grande, uma atualização com “causos” mais atuais, riso e futebol formam um belo casamento que os apaixonados jamais cansam de cultivar.
Iniciam-se os intermináveis créditos e a trilha sonora começa a irritar enquanto naquele fundo amarelo aparecem as letras em verde, e a trilha dará o ar da graça mais vezes. O bar do Aurélio foi todo reformado com a entrada do novo sócio, o craque da seleção Marquinhos que foi o herói do penta (imitação chula do Ronaldinho Gaúcho). No segundo andar continua aquela saudosa mesa com ex-jogadores e suas deliciosas histórias, mas assim como nós, eles não se sentem bem naquele novo ambiente despojado e colorido.
A aparição do novo sócio arrasta repórteres, curiosos, empresários de jogadores e as famigeradas Maria-chuteiras. O filme tenta brincar com o futebol moderno, empresários malandros tentando bons negócios no exterior para seus jovens talentos, mulheres muito mais que interesseiras, parentes de jogadores famosos extorquindo-os em troca da não-revelação de escândalos sórdidos, lindas mulheres com os filhos bastardos dos jogadores brigando por melhores pensões.
Provavelmente é a fórmula que não funciona, essa realidade moderna do futebol não tem nada de agradável, de romântica, de divertida ou entusiasmante. Ao contrário, é mais uma prova da obsessão por status que o mundo vive, o quanto oca tem sido a personalidade da maioria, o mundo do futebol perdeu seu encanto fora dos campos, ainda se mantém vivo dentro dos campos devido a habilidade dos craques. Outro ponto é o artificialismo, os não-atores são fracos em cena, a maioria das demais interpretações também incomoda pela artificialidade, e aqueles que verdadeiramente sabem o que fazer ficam renegados a um pequeno espaço com histórias tolas.
Ugo Giorgetti foi infeliz em todos os aspectos, ficamos buscando no filme todo, alguma esquete que nos entusiasme, que chame a atenção, que consiga alguma identificação do tema futebol e a paixão que move os torcedores. A história do auxiliar técnico que espera ansioso uma oportunidade de mostrar-se um técnico brilhante, adorador do futebol-arte, até consegue divertir em sua conclusão, mas como todo o filme está amarrada por um amadorismo estilístico e um conjunto de cenas sem graça alguma. Colocar a realidade na tela, de qualquer jeito, não é o bastante, precisa ter paixão.

Violação de Domicílio

Publicado: abril 10, 2006 em Uncategorized

(Private, 2004 – PAL/ITA)

Esse mundo é tão irracional, revoltante e grotesco, que a cada dia torna-se mais impossível acreditar na humanidade. Nada mais me surpreende nesse mundo, e ainda assim quando você acha que já viu de tudo, sempre aparece uma nova situação a extrapolar o absurdo. Uma família palestina é surpreendida por um pequeno comando militar israelense. Os militares confiscam a casa, transformam o segundo andar em alojamento e obrigam a família toda a dormir na sala, tendo horários específicos para utilizar outros cômodos como a cozinha e o banheiro.
O patriarca da família é um pacificador, um humanista, e rivaliza com seus filhos para que aceitem a situação provisória, pois em pouco tempo os militares irão deixá-los em paz e assim poderão voltar a sua vida pacata. Por outro lado não aceita em hipótese alguma deixar a casa e se tornar um refugiado (segundo suas palavras “ser refugiado não é ser”). Eles têm que trabalhar, estudar e etc, durante o dia todo e ao chegar a casa aceitar os inimigos como hóspedes. É uma situação inimaginável, não só pela família ajustar-se a essa condição, como também a vizinhança (e a sociedade como um todo) em calar-se a toda essa condição. Um verdadeiro mundo-cão.
Por mais tenebroso, político e pesado que é o tema, Saverio Costanzo faz seu filme solto, ao invés de discussões ou discursos inflamados, opta pelo suspense emocional onde o terror está muito mais no temor da família do que numa série de acontecimentos. Mesmo assim não se trata de um grande filme, as fugas de Marian (filha mais velha) para o armário são apenas um exemplo da maneira mais que ficcional encontrada por Costanzo para levar seu filme. A situação revolta, porém a revolta vai se desfazendo aos poucos pelo filme, e só volta mesmo a nos atingir em seu final que de algum modo tenta renegar tudo que o filme tentava pregar. Filmes e histórias como essa, só nos demonstram que a humanidade não conseguirá jamais encontrar harmonia, nascemos para ser dominadores ou dominados.